3 conferências de Bakunin: ideal libertário

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Tendo como base as três conferências dadas por Bakunin a operários do vale de Saint-Imier, na Suíça, em 1871, este texto pretende trazer uma síntese resumida das ideias apresentadas pelo autor e, ao mesmo tempo, fazer uma analogia sobre como tais pensamentos seriam aplicados hoje em nossa sociedade. As três partes formam uma unidade ideológica não fazendo sentido dividi-las. Por esta razão, tratarei de todas no mesmo texto, sem interrupções.

O fio central do escrito de Bakunin é a ascensão da burguesia como classe dominante e opressora desde o século XVIII. Para isto, ele elenca duas grandes revoluções que ocorreram na História a partir da Idade Moderna: Reforma Católica e Revolução Francesa.

Na primeira, a Igreja deixa de ser o maior poder entre os povos e passa a subjugar-se, juntamente com a nobreza e com os senhores feudais, à monarquia. É preciso que fique claro que, sem exceção, o povo fica para trás, jogado às traças, sem que os governos (ou oligarquias) se importem. Direitos mínimos não são cumpridos. Aqui já é possível fazer uma analogia ao tempo presente: é duro ver que uma lógica social do século XVI ainda possa ecoar em nosso tempo – falta de igualdade e liberdade sociais fundamentais, tal como percebemos ao analisar socialmente em oposições: mulheres e homens, negras/negros e brancos, comunidade LGBTT e heterossexuais e por aí vai.

Já a revolução política, não social, de 1789, é ponto de problematização para Bakunin justamente por esse paradoxo não tão aparente. Revolução política, pois alterou o “status quo” da sociedade: depuseram-se os reis e tinha-se o objetivo de instaurar a república. Não foi social, pois quem ascendeu foi a burguesia, mesmo tendo como força motriz o proletariado durante a ação direta para que a revolução acontecesse. Era pregado o lema de liberdade a todos os cidadãos. Naturalmente sabemos que apenas os ricos é que tiveram acesso a esse direito. Mais uma vez, em nossa sociedade, é possível ver que o estrago das classes sociais ainda permanece. Segundo nossa constituição, todos os cidadãos são iguais perante a lei (ideal iluminista da Revolução Francesa). No entanto, porque negros e pobres são taxados de imediato como delinquentes? Por que as universidades são majoritariamente compostas por pessoas brancas? É claro que a lei só se aplica a determinado grupo social.

Surge, em certo ponto do texto, uma comparação interessante que julgo necessário mostrar aqui. Bakunin afirma que, desde que colocado o Estado como gerente dos “interesses” do povo, força maior de opressão, coerção e violência constitucional das nações, tem início uma “moral do Estado”, seu verdadeiro interesse, se contraponto à “moral humana”. O autor quer que percebamos o quanto os governantes são inimigos da classe trabalhadora e que nos juntemos a fim de poder resistir e combate-lo. A “moral humana” nada mais é do que “o respeito humano, respeito pela dignidade humana e direito e liberdade de todos os indivíduos”. Parece, a mim, a maneira mais justa e igual de se viver em comunidade. Que parece a vocês? Tenho certeza de que não difere muito do que escrevi.

Como tema central para a vida em conjunto, a educação é posta em cheque pelo autor. A igualdade é condição essencial, imprescindível para a liberdade. Sendo assim, se a educação não é igual a todas e todos, pois o capital interfere diretamente nisso, jamais seremos totalmente livres. E é preciso que se diga: não é possível ser livre sozinho! O ser humano, como ser social, só será livre se todos ao seu redor o forem. Como o Estado interfere nisso? Educação e dinheiro estão intrinsecamente ligados. Se a família não tem condições suficientes para manter os estudos de suas/seus filhas (os), de nada adianta que eles tenham “maiores faculdades”, no sentido de serem muito inteligentes. O meio em que estão inseridos não permitirá que essa inteligência se sobressaia. Ao contrário, o burguês, que pode vir a ter “menores faculdades”, mas tem condições de estudar, controlará para sempre os menos favorecidos. Bakunin explicita isto em uma frase:

A minoria instruída governará eternamente as massas ignorantes.

Há uma frase de uma canção, do grupo “Racionais MC’s”, que também explicita o que foi dito acima, a diferença é que os integrantes fazem parte da parcela que sofre com essa lógica do capital: “É foda, pensando bem que desperdício/ Aqui na área acontece muito disso/ Inteligência e personalidade, mofando atrás da porra de uma grade ”. Ou seja, não basta ter inteligência ou força de vontade, como defendem os hipócritas e/ou ingênuos da “meritocracia”, mas sim dinheiro. O capital, em diferentes faces, há muitos anos assombra as camadas estratificadas das sociedades.

O avanço do capitalismo traz consigo, é lógico, benefícios a poucos e malefícios a muitos. A industrialização das fábricas, que trouxe a diminuição da qualidade de seus produtos em troca da vasta produção e a substituição da mão de obra humana pela máquina também são temas abordados por Bakunin. E por uma razão lógica: não esqueçamos que isso são conferências para operários. O objetivo é mostrar, através de dados empíricos, o que está havendo e instigar uma mudança de pensamento. A união dos operários é de extrema importância se o objetivo é a revolução, afinal de contas, estes são a grande maioria da sociedade. É importante que isto não seja esquecido.

Meia dúzia de pessoas coordenam e administram o capital ao redor do mundo e centenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores padecem por isto. Os abusos contra as classes desfavorecidas que aconteciam na época de Bakunin (século XIX), ainda continuam tão grandes ou estão maiores, pois o capitalismo também cresceu. Já passou da hora de aceitarmos esta disparidade.

Bakunin, ao final do texto, mostra que o lema, a moral e o princípio da classe trabalhadora (proletariado) são, ou deveriam ser, a solidariedade. Retomo o que disse antes: parece, a mim, a maneira mais justa e igual de se viver em comunidade. Não é prejudicial a ninguém a igualdade, a menos para os egoístas oligárquicos mundo afora. Organização nos meios de trabalho, nas escolas, nos bairros, tendo como princípios a igualdade e liberdade de todas e todos pode ser o início – mas também o fim – desse modo arcaico e injusto em que vivemos.

Para Evelin, que faz aniversário hoje.

Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

Apaixonado pela arte em geral. Pela horizontalidade e força popular. Gosto de uma pá de gente no cinema, na música e na literatura.