20 escritores que não fariam feio no esporte

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Nada mais distante da figura de um atleta que a de um escritor em um típico dia de trabalho: são horas a fio diante do computador, os olhos fitos na tela, apenas os dedos num movimento ágil que pode ir do frenesi à inércia em questão de segundos. Embora o senso comum insista em representá-los dessa maneira, nem todo escritor é um sedentário preso a uma cadeira. Alguns deles quase chegaram a ser esportistas de alto nível, e outros souberam encontrar na atividade física o equilíbrio necessário para o turbilhão mental que têm de suportar diariamente. Surpreenda-se aqui com as histórias de 20 escritores e os esportes nos quais se arriscavam.

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1 – Agatha  Christie

 Essa é pra fazer Hercule Poirot torcer os bigodes e Gabriel Medina ficar de queixo caído na areia. A dama das histórias de detetives foi, acreditem ou não, uma das pioneiras do surf na Inglaterra, ajudando a disseminar a prática do esporte em território bretão no início do século 20. Com o seu primeiro marido, Archie, Agatha conheceu o surf em janeiro de 1922, numa visita à África do Sul. Tornou-se uma das primeiras mulheres a conseguir ficar de pé numa prancha e chegou a viajar o mundo pegando carona nas ondas da Austrália, Nova Zelândia e Havaí.

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2 – Albert Camus

 O Prêmio Nobel de Literatura de 1957 foi goleiro de um time da Argélia em sua juventude. Afastado dos gramados devido a uma tuberculose, migrou para as páginas que o consagraram como escritor, dramaturgo e filósofo. Em visita ao Brasil em 1949, para um ciclo de conferências, causou estranheza na comitiva de intelectuais com o pedido inusitado de assistir a um jogo de futebol. Quando questionado a respeito do seu interesse pelo esporte, Camus respondeu: “O que eu sei sobre a moral e as obrigações de um homem devo ao tempo em que joguei futebol”.

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3 – Chico Buarque

 O meio-campo do Polytheama já foi treinado por Luiz Felipe Scolari e atuou ao lado de nomes como Tostão e Zidane. Num bate-bola com artistas e jogadores, em pleno Maracanã, saiu do estádio aclamado como craque de uma partida que contava com ninguém menos que Garrincha nas quatro linhas. Era final da década de 1970 e o anjo das pernas tortas já estava aposentado, mas quem não é capaz de relevar esse detalhe diante olhar cor de ardósia que, no exterior, ludibriava os taxistas garantindo que foi reserva de Sócrates na Copa de 1982? Chico já deixou um punhado de canções sobre a bola e até um dia desses participava de uma religiosa pelada na sede de seu time no Recreio, zona oeste do Rio de Janeiro, sempre aos sábados, pontualmente à uma e meia da tarde.

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4 – David Foster Wallace

 Uma academia de tênis futurista é o cenário para o monumental Graça Infinita, de David Foster Wallace. O escritor, que cometeu suicídio em 2008, era um entusiasta do esporte e o retratou não apenas na ficção, mas também em ensaios (a final de Wimbledon de 2006, entre Roger Federer e Rafael Nadal, inspirou o texto que encerra a coletânea Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, por exemplo). Wallace gabava-se de quase ter sido um grande tenista em sua adolescência: aos 14 anos, ele chegou a frequentar algumas posições modestas em rankings de atletas juniores, nos EUA. Na escola, carregava sempre uma raquete de tênis na bolsa: o escritor sofria de sudorese (razão também de sua mítica bandana) e queria fazer as pessoas acreditarem que tinha sempre acabado de sair da quadra.

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5- Ernest Hemingway

Eis um lugar-comum. Impossível falar de literatura e esportes sem falar de Ernest Hemingway. O homem inspirava adrenalina, expirava endorfina e era amante do boxe, da pesca esportiva, da corrida de cavalos e das touradas (se você considerar tudo isso como esporte – porque nem ele chegava a tanto; dizia que “só existem três esportes: tourada, corrida de carros e montanhismo, o resto são somente jogos”). Em Paris é uma Festa, há uma passagem divertidíssima em que ensina boxe ao poeta e crítico literário Ezra Pound. “Não consegui nunca ensiná-lo a dar um golpe curvo de esquerda”, confessou o Papa Hemingway.

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6- F. Scott Fitzgerald

O autor de O Grande Gatsby foi também um grande esportista: nos bastidores. Cortado do time de futebol americano da Universidade de Princeton, onde nem chegou a concluir os estudos, o rostinho bonito da Geração Perdida canalizou sua ambição de se tornar um atleta no estudo aprofundado das táticas de jogo: virou um verdadeiro estrategista, tornando-se o braço direito de Fritz Crisler, um dos treinadores do mesmo time que o recusou. No futebol americano, atribui-se a Crisler o advento do “sistema de dois pelotões” (um de defesa, mais alto e corpulento; outro de ataque, mais baixo e veloz): segundo o biógrafo Andrew Turnbull, porém, a ideia original era de Fitzgerald

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7 – George Orwell

Apesar de defender, em seu ensaio“O Espírito Esportivo”, de 1945, que “esporte sério não tem nada a ver com jogo limpo”, mas com “ódio, inveja, arrogância, desrespeito a todas as regras e prazer sádico em testemunhar a violência”, Orwell foi, ele próprio, na juventude, um exímio mergulhador e um ótimo jogador de críquete.

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8 – Haruki Murakami

O japonês que assina Do que eu Falo quando Falo de Corrida foi um dos escritores picados pelo “bichinho” dos esportes de resistência. Para Murakami, escrever é um estado de profundidade mental que só pode ser alcançado através de uma rotina espartana, que exige uma força descomunal do corpo e da mente, ligados pelo esporte. Diariamente, Murakami escreve por cinco horas e corre dez quilômetros ou nada 150 metros (o equivalente a três piscinas olímpicas). Por vezes, faz as duas coisas: um dos seus esportes preferidos, além da corrida de rua e da maratona, é o triatlo. Em 23 de julho de 1996, o autor que tem tiragem de 1 milhão de exemplares no Japão, completou sua primeira ultramaratona: foram 100 quilômetros ao redor do lago Saroma, em Hokkaido.

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9 – Hunter Thompson

Terror das redações pelas quais passou no início de carreira, o baluarte do jornalismo gonzo se mudou dos EUA para Porto Rico, em 1960, para trabalhar numa revista de esportes chamada El Esportivo. À época, já havia sido co-fundador de um time de beisebol na escola e treinado com outra equipe de adolescentes, embora nunca tenha chegado a se profissionalizar com os tacos. Também foi editor de um jornal esportivo quando serviu à aeronáutica e, ao voltar aos EUA, colaborou com a Sports Ilustrated e terminou sua trajetória escrevendo sobre o tema para a ESPN.

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10 – Jack Kerouac

De origem humilde, o ícone do movimento beat ingressou no futebol americano para tentar uma bolsa de estudos na universidade. Entrou em Columbia, para onde se mudou de Massachusetts com a família. Segundo o New York Times, era um full back que se destacava por sua rapidez e agilidade até quebrar a perna durante uma de suas primeiras temporadas como atleta. Depois do acidente, serviu oito anos na Marinha, enquanto escrevia seu primeiro romance, O Mar é Meu Irmão.

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11 –  Joyce Carol Oates

Em 2013, Joyce Carol Oates surpreendeu os seguidores do seu perfil no Twitter com uma confissão desastrada: “Tinha a intenção de correr a maratona de Nova York, mas na ânsia de atrasar o relógio, atrasei um dia inteiro. Meses de treino sem nenhum propósito!”, se lamentou a escritora. A ligação com a corrida, porém, não é de todo insuspeitada: num artigo, publicado originalmente em 1999, no New York Times, ela já falava de sua paixão pela corrida: “Correr e escrever, ambas são atividades altamente viciantes; ambas são, para mim, inextricavelmente ligadas à consciência”. Ela também tem uma coletânea de ensaios sobre o boxe.

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12 – José Lins do Rego

Não dava pra dizer se o amor do “menino de engenho” era maior pela bola ou pelo Flamengo, time do coração do qual era sócio contribuinte e que namorou em diversas crônicas, traduzindo em texto a epopeia de idílio e desdita do torcedor rubro-negro. No filme O Engenho de Zé Lins, que narra algumas das peripécias de Zé Lins atrás do alambrado, o escritor Carlos Heitor Cony conta que, certa vez, viu o amigo ir ao vestiário consolar os jogadores após uma derrota. Ao abraçar Jair Rosa Pinto, percebeu que o uniforme do jogador (que havia atuado durante os 90 minutos da partida) estava completamente seco. Num acesso de ódio, Zé Lins arrancou a camisa do meia e a queimou com um isqueiro.

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13 – J. R. R. Tolkien

Seria de se pensar que o embaixador da Terra Média se interessasse por esportes mais ligados ao universo mágico que criou, como o tiro com arco dos elfos, mas não: Tolkien era mesmo um aficionado pelo tênis. Aliás, o esporte teve um papel crucial na criação dos clássicos O Hobbit e O Senhor dos Anéis: foi uma lesão no tornozelo, adquirida enquanto jogava uma partida de tênis com o seu amigo Angus McIntosh, que afastou Tolkien das quadras. Segundo Angus, o escritor precisou ficar de molho por algum tempo e, sem nada melhor o que fazer, começou a esboçar os argumentos dos romances durante a recuperação.

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14 – Julio Cortázar

Não, ele não pulava amarelinha. A famosa analogia de Cortázar, que apregoa que o romancista ganha por pontos e o contista por nocaute, não era à toa: o escritor fora fisgado pelo pugilismo em meados dos anos 1930, quando se formou em Letras e passou a atuar como catedrático da Escola Normal de Professores Mariano Acosta, em Buenos Aires. Embora não pisasse no ringue, era um espectador inveterado das lutas. Se para Hemingway o boxe era apenas um jogo, para Cortázar era uma filosofia, despojada do “aspecto cruel e sangrento que provoca tanta rejeição e cólera”.

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15 – Mark Twain

Após sofrer um assalto na Virginia sem esboçar reação alguma (episódio que contou em um de seus relatos de viagem), Twain ficou obcecado pelo boxe, que começou a praticar para fins de defesa pessoal, aliado a uma rigorosa série de exercícios para fortalecer os músculos. Tornou-se um pugilista sofrível, mas assíduo, até desistir completamente da nobre arte.

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16 – Norman Mailer

Numa época em que Tom Wolfe, George Plimpton e Gay Talese escreviam sobre boxe, foi Mailer quem alçou a cobertura do que acontecia nos ringues dos EUA ao estatuto de arte: “Boxe não é mais um desses esportes-testes. Ele desperta as duas maiores ansiedades que nós temos: o medo de nos machucarmos, que é mais comum nos homens do que se imagina, e o medo igualmente terrível de machucarmos outra pessoa”. E olha que de machucado o sujeito entendia: serviu no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, o que lhe deu insumo para o elogiado romance de estreia Os Nus e os Mortos. Antes da antológica luta de Muhammad Ali com George Foreman (antológica em parte pelo livro que escreveu sobre ela, A Luta), Mailer teve o privilégio de participar dos treinos de Ali, correndo lado a lado com o campeão.

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17 – Paulo Coelho

O escritor brasileiro mais vendido no mundo é um adepto do tiro com arco, como se sabe. Em Genebra, onde vive, acorda sempre às 11h para cortar lenha e praticar o esporte, que combina com a meditação para, segundo ele, “aprofundar as ideias”. No livro Ser Como o Rio que Fui, há um texto sobre o assunto que poderia perfeitamente ser interpretado pelo viés da escrita: “O arqueiro permite que muitas flechas passem longe do seu objetivo, porque sabe que só irá aprender a importância do arco, da postura, da corda e do alvo, depois que repetir seus gestos milhares de vezes, sem medo de errar. Até que chega o momento em que não é mais preciso pensar no que se está fazendo. A partir daí, o arqueiro passa a ser seu arco, sua flecha e seu alvo.”

EXPO 14/09/2009 CADERNO 2/Exposição Paulo Leminski reprodução de original datilografo. poema inédito, escrito em 1979 FOTO ORLANDO AZEVEDO/ REPRODUCAO

18 – Paulo Leminski

O poeta curitibano chegou a integrar a exponencial seleção paranaense de judô que disputou o campeonato brasileiro de 1967. Um dos seus professores, ainda vivo, garante que Leminski só bebia leite, treinava muito (inclusive em casa), e era um faixa preta modelo, antes de se tornar o artista boêmio que se notabilizou até a sua morte, aos 44 anos – de cirrose hepática. Tanto na poesia quanto no tatame, era um perfeccionista. Buscava a execução perfeita do golpe. Escreveu num guardanapo certa vez: “Pratico judô/ o tempo todo/ pratico andando/ pratico sentado/ pratico andando/ no meio da multidão/ pratico olhando/ para teus pés/ p/ ver onde/ está/ o centro do teu/ equilíbrio”.

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19 – Vladimir Nabokov

No exílio com a família, na Inglaterra, Nabokov matriculou-se na Universidade de Cambridge, onde, antes da literatura, estudou zoologia e praticou boxe e futebol (era, como Camus, goleiro do time). Mais tarde, na Alemanha, Nabokov dava aulas de tênis e de boxe para complementar a exígua renda que obtinha escrevendo.

 

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20- Virgínia Woolf

Não apenas a literatura era uma questão de gênero para Virgínia Woolf: num tempo em que era pouco usual que uma mulher se dedicasse ao críquete, em fins do século 19, a escritora e sua irmã, Vanessa, eram fãs ferrenhas de um dos mais tradicionais esportes da Inglaterra. Ao longo de toda a infância e adolescência, as duas chegaram a ser criticadas pelos colegas, por preferirem jogar a cuidar da aparência.

Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

Escritor, jornalista e corredor de rua. Trabalhou em revistas, sites e cadernos culturais antes de se dedicar à literatura. Escreve crônicas, contos e romances. Na crônica, foi vencedor do Prêmio Sesc Rubem Braga, em 2016. No conto, tem textos publicados na antologia "Onisciente Contemporâneo", organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil, e na coletânea do Prêmio Off-Flip de Literatura de 2015. No romance, foi finalista do Prêmio Sesc de 2015 e está concorrendo ao Prêmio Açorianos de Criação Literária com seu livro de estreia, ainda inédito. Atualmente, conclui o segundo livro no gênero, fruto do mestrado em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Nasceu em Picuí (PB), em 1982, e atualmente mora em Porto Alegre (RS) com sua noiva, com quem divide a paixão pela literatura e por um cão sarnento.