SETEMBRO AMARELO: Vazio e(ou) Suicídio

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Quando acordo, falta-me cor; quando acordo, ouço o pior, o mais irritante ou mais agudo de todos os acordes. Preciso de algo de doce e esse mundo ainda não tem sentido. É curioso… viemos do sal. Conscientemente ouço o inconsciente a me questionar: “Por que acordas? Qual a razão?”. Neste momento os meus projetos não têm mesmo razão de existir; meu trabalho parece agora inútil; fazer qualquer coisa é desnecessário. Poderia, muito bem, matar-me, não fosse uma vontade muito maior de comer, de comer desesperadamente, pão e chocolate, queijo e doce de leite, sem me preocupar com a gordura do amanhã.

Por que esse texto? Por mera influência da melancolia de Drummond, que li anteontem, ou por uma sensação que me tomou e que deve ter tomado a Drummond também. Um dia, ele acordou e escreveu sobre o suicídio. Suicídio é quando, no meio de uma música orquestrada, um dos instrumentos erra o tom. Eu que o digo.

Os conceitos de beleza e os valores morais, de igual forma, parecem-me bobiças, e eu os comeria, todos, acaso estivessem no meu armário. É a única vez que comer me é sinônimo de esvaziar. O suicídio seria uma opção, não fosse a fome; a fome é para mim uma vontade grandiosa, enquanto o suicídio me é impelido pela falta de todo tipo de coisa. Suicidar seria abdicar do queijo e do doce de leite, do pão e do chocolate, e repenso o motivo de levantar da minha cama rangente. Depois de comer, já triste, adormeço e nada mais desejo. Como e me esvazio, esvazio-me e me deito. O ato de sobrevivência é contraditoriamente o que me mata.

Paradoxos da existência; táticas não sei de quem, que, ao me ver retornar para o meu leito, questiona-me de novo: “Por que não volta a dormir agora? Já que teimou em se levantar…”. Mas que me soa como: “O ato de comer já é destruidor demais quando falamos da humanidade. E se esvaziar, então? Terrível! Não precisa fazer mais nada. Volte aqui, descanse, volte a dormir e deixe a casa continuar a existir”. Acordei, comi, satisfiz os meus prazeres, esvaziei-me, morri. E os detalhes do caminho, do quarto à cozinha, quem percebe? Esses detalhes são o que escrevo, e por isso estou aqui.

Você, já que acabou de devorar as minhas palavras e me ler, pode voltar a dormir. Porém, quando acordar, não deixe de comer, esvaziar-se e voltar a se deitar, e seja novamente obediente ao seu falso consciente. O ciclo natural é viver para comer, é comer para esvaziar, é esvaziar-se ao mundo para depois poder se deitar. Para que se suicidar? Quem acordaria, quem se encheria, quem se esvaziaria, quem seria chamado para descansar e sobre o que eu escreveria?

Não é preciso suicidar para não estar aqui – a não ser que você escreva; se você escreve, é um tolo maior, já que se trata de um esvaziador que conta aos outros como foi o se esvaziar deles e o seu também. Todavia é um bom ofício. Para que me suicidar? Eu seria o maior esvaziador de todo o universo.

 

Revisão de Jay de Araújo

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.