Sons of Anarchy e o Conservadorismo

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“Há um velho ditado que diz que o que não mata, te faz mais forte. Eu não acredito nisso. Eu acho que as coisas que tentam te matar, te deixam irritado e triste. A força vem de coisas boas. Sua família, seus amigos, a satisfação de um trabalho duro. Essas são as coisas que mantém você inteiro. Essas são as coisas que te seguram quando você está destruído.” Sons of Anarchy S05xE01

A matéria contém spoilers.

Curioso é um adjetivo bastante adequado para descrever essa relação que alguns pensariam um pouco inusitada – e, exatamente por isso, como diria Chesterton, por que não comum? Inicio o texto com tal estranhamento pois foi tal como me peguei ao perceber essa íntima relação do pensamento Conservador com os Filhos da Anarquia. Mas, antes de tudo, faz-se necessário uma breve classificação, para que não nos façamos desentendidos:

O Conservadorismo, ao contrário dos enganos muitas vezes repetidos não fundamenta sua ação na mera reação, sua política na procrastinação e sua crença na nostalgia. Como nos aponta Roger Scruton, em “O que é Conservadorismo?”, o pensamento Conservador possui, sim, uma bússola que o guie, sem no entanto o prendê-lo como um ímã inseparável: não é possível classificar o pensamento Conservador sem que se estipule, data, local contexto, sociedade. Em uma breve definição, tal como nos traz a apresentação do livro, o Conservadorismo busca manter a ordem social, proteger a sociedade contra a desordem provocada por instituições débeis e pela submissão da sociedade a relações comerciais (p.14), ou seja, o conservadorismo tenta resgatar e manter aquilo que é considerado bom, e mantém certa aversão a mudanças bruscas – ou mudanças que vem somente pela mudança -, e tentativas de alteração naquilo que já é considerado bom para a sociedade. O Conservadorismo, aliás, também se apoia nas bases que são as ideias de lealdade, obediência, comunidade e tradição.

Mas agora, queridos leitores, vocês podem indagar como um bando de motoqueiros fora da lei, que buscam a anarquia – o que, como apresenta Scruton, não é uma tendência conservadora; sim, conservadores são a favor do Estado até certo ponto – poderiam apresentar tendências do pensamento conservador. Ou talvez vocês já estejam ligando todos os pontos e percebendo que ser conservador é diferente de ser reacionário, ou simplesmente um velho ranzinza preso ao passado, ou alguém que não reflete e não vive e é incapaz de aceitar mudanças…

A série, Sons of Anarchy, conta a história de um motoclube, que na verdade serve de fachada para tráfico de armas e alguns tantos outros delitos e crimes. Inicialmente, J.T., um dos fundadores do clube, via o clube como uma fonte de liberdade contra todas as amarras da mente, do corpo, da contenção dos governos, com enfoque na liberdade de grupos de indivíduos. No entanto, a própria conceituação – como será mostrado mais a frente – que J.T. viu pichada na parede, entra em contradição com o próprio modo de agir do grupo:

Mesmo com o desejo de serem livres, o grupo, organiza uma ordem própria que, aparentemente – e apesar das regras originais – surge de maneira espontânea e os guia. Digo que as leis originais aparentemente foram criadas espontaneamente pois elas vão se adaptando conforme a necessidade do grupo de viver bem, viver melhor, buscando rechaçar a debilidade de algumas delas. Assim como nos diz John Teller:

“…a verdadeira liberdade requere sacrifício e dor. A maioria dos seres humanos pensam apenas que querem liberdade, quando na verdade eles anseiam pela escravidão da ordem social, leis rígidas e materialismo. A única liberdade que o homem quer realmente é a liberdade de ficar confortável.” S01xE04

Rechaçado isso, nota-se também, que apesar dessa vontade inicial de se negar as amarras e contenções de um governo, o grupo estabelece dentro de si um “Estado”: há um presidente, um vice-presidente, um sargento das armas… Não querendo fazer uma associação direta com um Estado, politicamente falando, mas, querendo ou não reforça a ideia de obediência e tradição do Conservadorismo, que não vem por um contrato feito com todas as condições, mas que, muitas vezes, surge de maneira espontânea e natural: os próprios integrantes tem a noção de quem será o próximo presidente, o que desejam com a ida dele, mas não o obrigam, nem a eles – deveria – o presidente obrigar. Muito mais se faz pela lealdade que por pura obrigação e autoritarismo.

Já a tradição pode ser apontada em vários pontos, desde o hábito da bebida e dos ritos que se decidem à mesa, na “capela”, ao fato de nenhuma das “Senhoras” (Old Ladies) poderem participar das reuniões do clube. E não pense que isso é uma – opressão – característica típica do pensamento conservador: as personagens femininas são muito, muito fortes e nenhuma delas passa batido na série – eu não quero entrar no mérito relacionando o pensamento conservador em relação à posição de cada um na sociedade agora, pois perderíamos o foco da matéria, e é um assunto deveras extenso para ser trabalhado em um diálogo de teoria e ficção, então, passaremos batido nesse quesito para não nos perdermos.

Quanto à lealdade, notamos, querido leitor, que haveria de se ter lealdade, como há entre Jax e Opie, e Jax e Clay, quando este acidentalmente mata – ordena a morte – a esposa de Opie e Jackson não conta ao amigo para não desestabilizar o grupo todo. Certo, certo, leitores, é uma lealdade um pouco deturpada, mas que, num todo, você percebe a tentativa de não quebrar e destruir o próprio clube em detrimento disso, já que, eles fazendo parte do clube e vivendo para ele, destruir o clube seria destruir a si mesmos.

“Dentro do clube, tem que ter verdade, nossa palavra era nossa honra. Mas do lado de fora, tudo era enganação,  mentiras eram nossa defesa, nosso padrão. Para sobreviver, você tinha que ser mestre na arte do perjúrio, a mentira e a verdade precisavam parecer a mesma coisa, mas uma vez que você aprende essa habilidade, ninguém mais sabe a verdade dentro ou fora do clube, principalmente você.” S01xE07

Várias vezes vemos Jax se revoltando e saturando o sentimento e o peso de guardar aquele segredo do melhor amigo, o mesmo acontece com Tig. Clay é um ponto interessante na série, trabalha como causador da desordem e quebra daquilo que é bom, ele não conserva o que há de melhor nessa sociedade/motoclube, mas provoca intrigas, mente, manipula, manda assassinar sem provas… No entanto, curiosamente, a lealdade (que muitas vezes sobrevive em meio à lama), salta aos personagens e os obriga a ser melhores, principalmente enquanto Jax está influenciado pela presença de seu pai a sair dessa “vida de caos”, e, em concomitância trazer o clube de volta à legalidade e soltar as amarras do mercado de armas, por essa contenção de um presidente corrupto, a essas propriedades e ganância que mais os prendem que libertam.

Se partíssemos para Russel Kirk, em seus dez princípios conservadores (que não um dogma, diga-se de passagem) por si, e levando em consideração os pontos já explicitados, perceberíamos mais semelhanças ainda, e que reforçam o que já foi dito, como o surgimento de comunidades voluntárias mas opostas a um coletivismo involuntário, ou então como a mudança e estabilidade devem ser reconhecidas: por mais que o grupo provoque desordem e muitas vezes não respeitem a lei, o regimento interno do grupo é bem rígido e não é qualquer um que entra ou é capaz de fazer alterações a partir dos seus desejos de mudança, ao mesmo tempo em que regras como a que só brancos poderiam fazer parte do clube vão sendo quebradas no decorrer da história.

Caso queira ler os 10 princípios, clique aqui:

https://direitasja.files.wordpress.com/2012/02/dez-principios-conservadores.pdf

Inclusive, o nono princípio: “o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas.”, que nos parece tão longe da associação com os personagens do seriado, não nos parece tão distante assim, leitor, quando vemos, por exemplo, o que os membros do grupo vão achando das atitudes de Clay ao agir sem respeitar ou ouvir os outros membros do grupo, agindo pelas sombras como se não houvesse um regimento a seguir, a sede de Clay provoca aos poucos a sua própria morte.

Além disso, a ordem que eles seguem permite que o clube não quebre por dentro, tal como no Conservadorismo – de acordo com os conceitos já apresentados. No entanto, a ordem deles é um pouco deturpada e só vai sendo adaptada a uma moral pelo final da série, quando mais fundo do poço Jax e o grupo vão chegando. Como disse em um vídeo Francisco Razzo: o mal existe por causa da liberdade, mas também por meio dele se é capaz de se perceber a presença profunda do bem.

Entretanto, como podemos perceber a presença profunda do bem em meio a tanto caos, morte, assassinatos e traição? Jax é um ponto de busca disso, da estabilidade, de manter os negócios fora da cobiça de ganhar dinheiro, dinheiro que era usado para tirá-los dos problemas que surgiam por causa do tipo de vida que levavam (se pararmos para pensar, Nero Padilla é um Jax/J.T. que conseguiu ser forte e sair desse mundo a tempo, e funciona como um regulador do próprio Jax quando ele começa a abandonar as esperanças, seja pela falta de fé no grupo e no pai, seja pela perda do seu melhor amigo).

Não era mais uma vida agradável para muitos deles, e quanto mais o tempo passa, mais exaustos os membros vão ficando. Quando Tara decide separar os filhos de Jax e do motoclube, em um primeiro momento, ele fica irritado, mas percebe que essa decisão é muito mais efetiva que a de J.T., e era o melhor para sua família, para seus filhos. A família de Jax serve como um humanizador para o personagem antes animalizado, impulsivo e destruído. Tal como o protagonista avisa, o retorno de Tara foi como o seu passado dando uma chance para ele fazer as coisas de maneira diferente, fazer melhor, e ele, por consequência, tenta trazer o grupo consigo.

Já na última temporada, vemos uma das semelhanças com o Conservadorismo mais gritantes. A importância do compromisso com a verdade. Conservadores não acreditam que a moral ou a verdade sejam relativa a todos, a cada um (apesar de a moral ser relativa às circunstâncias, mas aí é papo para outra hora). Quando Gemma mata Tara e mente para se salvar, ela não só arrisca ruir o clube todo e provocar uma guerra entre as gangues/traficantes da região, como afunda seu filho – e sua família, vide estado de Abel, quando descobre o segredo de Gemma – em uma vida sem sentido.

Jax se recupera, no entanto, quando descobre que sua mãe matou sua esposa. A partir daí que ele percebe o tanto de brutalidade que permeia o grupo, o tanto de ódio e esse estado de sobrevivência que se sobrepõe à vida. E nessa busca de sentido em meio ao abismo, o nosso Pres. monta um plano o qual, para uns, parece ser um momento de fraqueza, mas na verdade se trata de um sacrifício. Ao fazer a mesma rota que seu pai fez, após matar todos os “chefões” da cidade, Jackson impede que o clube sofra por suas ações, já que ele estaria morto e teria agido por conta própria. Verdade e Sacrifício trabalhados em uma temporada só.

E, por último, e de fato uma curiosidade importante, que reforça essa ideia de que não é a Anarquia, a violência ou o sangue que são o objetivo da série – mas sim conflitos morais e valores em meio à podridão – Kurt Sutter, criador, produtor e roteirista da série (e atuando como o Otto Delaney, aliás), em uma entrevista afirmou que a mendiga que sempre aparece em momentos difíceis para os personagens principais, e inclusive come pão e bebe vinho no último episódio, é uma representação de Jesus Cristo.

É curioso notar, por fim, que no clube, apesar de este apresentar uma série de desvios morais – e legais -, há valores que são extremamente bem trabalhados: vejo como pérolas que foram jogadas aos porcos, mas que agora tentam ser resgatadas e limpas. Estes são os valores da série, e a pegada do pensamento conservador não deixa de ser bem aparente: não pelas opressões ou incoerências como muitos poderiam pensar, porém como qualquer questão que paira a nossa natureza de homens: uma questão humana, com falhas, com erros, mas que apesar de tudo busca a honra, a verdade, lealdade, dignidade, conforto – e até o sacrifício pelo próximo – e que, mesmo que a estes homens lhes custem a vida, continuam tentando.

E para fechar, aqui vai a citação da fala de Nero para Wendy, e uma fala de Kurt Sutter em seu blog, o SutterInk, em um de seus posts:

“Vou te contar o que eu sei, Wendy. E vale tanto para as ruas como para minha família: se eu permanecer na verdade, e der isso diretamente para as pessoas, sabe?, sem mentiras sem rodeios, sem joguinhos, eu sempre saberei que não importa o que aconteça, será a coisa certa. Eu gostando ou não.” Sons of Anarchy, S07E02

The adage “the truth will set you free” is not only a biblical lesson; it’s the core need of our human nature.  We need truth to evolve.  It’s the basic building block in all our relationships — with God, spouses, children, friends, employers, everyone.  Without honesty we die inside.  We can exist in nontruth, but we cannot grow.  Now that might sound like ethereal, psychobabble bullshit, but it’s not.  It’s pretty fucking simple.  Lies kill us.

FYI: That’s what Sons of Anarchy is all about.”

SOBRE O AUTOR

Grande escritor (1,85m de altura), tem o sonho de salvar o mundo enquanto tenta salvar a si mesmo. Tem noção de que o fantástico é tão ou mais real que o realismo e pode ensinar tanto quanto a viver no mundo. Afinal, o que a gente sabe sobre o mundo real mesmo? Escreve contos e outras coisas estranhas em: http://contosjamaislidos.blogspot.com/