Ruth Guimarães: a fada caipira da literatura brasileira

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“A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez”. (GUIMARÃES, 2003, p. 52)

Há figuras que sempre permeiam o senso comum quando o assunto é folclore brasileiro: o Curupira e seus pés invertidos, a Mula-Sem-Cabeça flamejante, o Saci-Pererê e a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo, ou, em casos mais raros, a índia que queria namorar a lua e foi transformada em vitória-régia. A educação formal, tanto da rede pública quanto particular, não apenas relega o ensino do folclore aos anos primários da Educação Infantil e Fundamental como o define, somente, através das lendas que sempre ouvimos – as quais tomam, ainda, versões plastificadas e politicamente corretas para se adequarem a essas salas de aula. O quê, todavia, define o folclore? Qual o significado de uma palavra sempre tão atrelada ao misticismo? Por fim, por que é substancial aprender sobre a tradição oral? São estas perguntas que uma eterna criança de Cachoeira Paulista, cidade do Vale do Paraíba (SP), procurou responder durante 83 anos por meio de sua vivência, e, claro, escrita.

Ruth Guimarães comungava sobrenome com outro escritor de exímio conhecimento popular – Guimarães –, de quem foi amiga estreita. Contudo, não era Rosa, era Ruth. Ou como era chamada pelos amigos e admiradores, Dona Ruth. Nascida no sítio de seu avô, José Botelho, guarda-chaves da estrada de Ferro Central do Brasil, viveu até seus últimos anos na rua da estação, próximo às águas do rio Paraíba do Sul. Costumava dizer que sofreu três vezes na vida: sofreu por ser mulher, negra e caipira – nascida em 1920 e pobre. Seu avô e sua mãe, falecida quando a escritora era ainda uma criança, eram apaixonados pela leitura, possuindo uma pequena biblioteca em casa onde a literata cachoeirense descobriu seu norte. Aos 10 anos já publicava seus primeiros poemas em jornais locais como “A Região” e “A Notícia”, e, apesar do fardo de precisar cuidar de seus irmãos após a morte dos pais, cursou magistério na Escola Normal de Guaratinguetá e mudou-se para São Paulo aos 18 anos a fim de cursar Letras Clássicas na Universidade de São Paulo, onde foi aluna de Silveira Bueno, Antonio Soares Amora, Roger Bastide, e, por fim, discípula de Mário de Andrade, que a introduziu nos estudos da cultura popular.

Ruth Guimarães no jornal Manchete em (ainda) 1982

Ruth Guimarães no jornal Manchete em (ainda) 1982

Longe de concluir sua biografia, esta que é indispensável na melhor compreensão de sua obra, é necessário enfatizar novamente uma das suas principais características: Ruth Guimarães era caipira. Era romancista, cronista, contista, poetisa, teatróloga, jornalista, folclorista, pesquisadora, tradutora, professora, sim, e nada disso seria se não fosse caipira. Seu magnum opus, o romance “Água Funda”, publicado em 1946, é uma das obras mais autênticas sobre o povo caipira e sua linguagem. A história, que se passa num Brasil onde as pessoas negras ainda eram escravizadas, encontra seu cenário na fazenda Olhos D’ Água, localizada aos pés da Serra da Mantiqueira. Narrado como uma contação de causo, a primeira parte do romance relata os acontecimentos da Casa Grande e a vida das sinhás para, posteriormente, mergulhar no cotidiano dos capatazes e dos outros trabalhadores da fazenda. A atmosfera, conquanto, toma proporções mágicas devido à superstição profundamente firmada no imaginário dos moradores.

Nas palavras de Antonio Candido, autor do prefácio da segunda edição da obra, Ruth Guimarães é caracterizada pela “elaboração arte-ficial de uma linguagem que obedece a disciplina da gramática e, ao mesmo tempo, parece sair da boca do povo rústico”. Tal característica leva o nome de literatura, que trata de inventar uma “linguagem suspensa entre o popular e o erudito”.  Ao ver da autora, entretanto, essa linguagem leva ainda outro nome: folclore. Em uma entrevista concedida em seu sítio para um aluno de jornalismo, afirma que o folclore é nossa maneira de “agir, pensar e existir”. Não era devota de nenhum “santo” que não esse. Como uma entidade divina, as superstições, as cantigas, as histórias populares e outros aspectos subjetivos de um povo conduzem nossa maneira de viver – influenciam o antes e o depois.

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Quando solicitada, no programa de televisão “Todo Seu” da Rede TV, a aconselhar aspirantes a escritores para que perseguissem essa sua vontade, Ruth Guimarães respondeu que é preciso “aprender a sua própria língua”. Com a integridade de quem certamente segue os próprios conselhos, Dona Ruth pesquisou, desvendou, desmontou e construiu sua língua – o folclore – e consolidou-se como um dos principais nomes mundiais nesses estudos, sendo a única escritora latino-americana a ser citada na Encyclopédie Française de la Pléiade. Além de “Água Funda” e suas produções de caráter literário, suas obras mais célebres são “Os Filhos do Medo” (1950), uma compilação de histórias sobre o diabo e seu espaço no horror popular, “Lendas e Fábulas do Brasil” (1989) e “Calidoscópio – A saga de Pedro Malazarte” (2006), que reúne mais de 100 estórias sobre esse personagem do imaginário ibero-brasileiro. Traduziu, do francês, autores como Honoré de Balzac, Alexandre Dumas e Alphonse Daudet e Dostoievski, tal como “O asno de ouro” do latim e diversas obras do italiano e do espanhol. Teve como companheiros de profissão nomes consagrados como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Osmar Lins, Amadeu de Queiroz, e os já citados Antonio Candido e Guimarães Rosa. O último, ao olhar da autora, criou algo que não era regionalista: em entrevista para o jornal “O Escritor”, da União Brasileira dos Escritores (UBE), afirma que o feito de Rosa foi a “ópera de acontecimentos caipiras” e o fez com magistralidade, porém, não era a literatura com “traços de cidades pequenas”. O que faz de um autor um autor regionalista, portanto? Ainda pegando emprestadas as palavras da autora para o mesmo jornal, o escritor regionalista precisa ser “uma pessoa do povo, que vive o que o povo vive, e que tenha burilado sua linguagem a ponto de ser capaz de transmitir com fidelidade e apuro linguístico a maneira de pensar e de viver do homem do povo”.

A Estação de Cachoeira Paulista, por Douglas Nascimento

A extensão da produção literária e científica de Ruth Guimarães, além de seu renome nacional e internacional e honrados títulos – foi a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras e membro da UBE– não ocultam sua erudição que enveredou pelos estudos clássicos até o minucioso conhecimento sobre ervas medicinais (“Medicina Mágica: as simpatias”, 1986). Residiu no sítio onde nasceu até os últimos dias de sua vida, escrevendo todos os dias como seu mestre Mário de Andrade recomendava, falecendo em 2014, aos 93 anos. Em síntese, destinou seu trabalho ao povo caipira, seu discurso a manifestações materiais e imateriais.

Na crônica “O escrever, pra quê?”, enfeitiça: “Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim”.

Guimarães Rosa dizia que escrevia como uma fada escreveria. Seu filho, Joaquim Maria Botelho, que era a bruxa boa e sábia que, como os melhores professores, arremata por sua primorosa simplicidade, recebendo seus admiradores com bolo e chá. No final, de algo há certeza: Ruth era somente – e grandemente – a caipira que soube andar sobre as águas fundas do Paraíba.

Bibliografia parcial:

  • Água Funda. Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, 1946
  • Os Filhos do Medo. Porto Alegre, Editora Globo, 1950
  • Mulheres Célebres. São Paulo, Editora Cultrix, 1960
  • As Mães na Lenda e na História. São Paulo, Editora Cultrix, 1960
  • Líderes Religiosos. São Paulo, Editora Cultrix, 1961
  • Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo, Editora Cultrix, 1972
  • Dicionário de Mitologia Grega. São Paulo, Editora Cultrix, 1972
  • O Mundo Caboclo de Valdomiro Silveira. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro, 1974
  • Grandes Enigmas da História. São Paulo, Editora Cultrix, 1975
  • Medicina Mágica: as simpatias. São Paulo, Global Editora, 1986
  • Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, 1989
  • Crônicas Valeparaibanas. São Paulo, Centro Educacional Objetivo/Fundação Nacional do Tropeirismo,1992
  • Contos de Cidadezinha. Lorena, Centro Cultural “Teresa D’Ávila”, 1996
  • Calidoscópio – A Saga de Pedro Malazarte. São José dos Campos, JAC Editora, 2006.
  • Histórias de Onça. São Bernardo do Campo, Usina de Ideias Editora, 2008. Volume I do Projeto Macunaíma.
  • Histórias de Jabuti. São Bernardo do Campos: Usina de Ideias Editora, 2008. Volume II do Projeto Macunaíma.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

INFJ caricata, moradora do Litoral Norte de São Paulo e entusiasta da arte que faz chorar de alegria. Quer escrever, dar aula, ter uma escola e viajar pelo mundo. No momento, tenta apenas imaginar se vai dar tempo.