O lado perverso da infância

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Convenhamos, todos fomos um pouco maldosos na infância. Quebramos vidraças, pulamos muros, invadimos lugares, sacaneamos irmãos e irmãs mais novos e mais velhos, caçoamos do coleguinha, montamos complôs contra amigos, fizemos e desfizemos panelinhas, pegamos as coisas escondidos, enfim, a lista é quase interminável. Molecagem, sim. Arte de criança, também. Podem falar o que quiserem, mas admitamos: nem só de inocência foi feita a nossa infância.

Pode ser que muito daquilo que aprontamos foi feito na inocência. Ninguém quer de fato quebrar o vidro da janela do vizinho enquanto joga bola. A não ser que seja aquele vizinho chato, resmungão, que só berra com a criançada. Aí a coisa é diferente. Se não houver alguma criança com coragem ou petulância suficiente para se vingar por conta do vizinho, a satisfação de ver a vidraça se quebrando será compartilhada por todo o grupinho de amigos mesmo em caso de acidente. É molecagem, sim, mas mesmo na molecagem tivemos tanto os nossos atos infames que eram acobertados pela inocência infantil, ou seja, que não eram praticados por maldade, como também as nossas práticas que eram realizadas pelo puro prazer de causar o mal.

Sim. Todos tivemos um lado perverso na nossa infância. Por mais anjinhos, bem-comportados e educados que fôssemos, o fato é que escondíamos um lado sombrio. Às vezes os confidentes dos nossos atos maldosos eram os colegas mais próximos, às vezes, os irmãos, às vezes, apenas nós mesmos, guardando todas as travessuras, desde as mais leves até as mais pesadas, no fundo do nosso íntimo. Os pais ou os professores jamais. Esses não. Seria bronca, castigo ou surra na certa.

Brincadeiras. Era tudo na diversão. Fosse qual fosse a real intenção da criança levada.

Roddy Doyle, escritor irlandês, retrata muito bem esse lado pouco falado da infância em “Paddy Clarke Ha Ha Ha”. Paddy, o protagonista da história, é uma criança de dez anos que narra as suas peripécias do dia a dia. O mundo é contado sob o seu ponto de vista. O modo de ver as coisas por uma criança é mote do livro. Os relatos na história são um deleite para o leitor ao considerar as lembranças da infância que o livro acaba trazendo à tona. São narradas histórias de crianças brincando e se divertindo jogando bola na rua, bem como histórias de grupinhos de amigos que se unem contra um único colega e o obrigam a engolir coisas. Tem-se também o irmão mais velho que num momento está protegendo o mais novo, enquanto em outro está o esmurrando sem motivo algum. Disso é feito a infância. Momentos memoráveis. E exemplos concretos e tangíveis de tais momentos estão repletos em “Paddy Clarke Ha Ha Ha”. Não se mostra apenas um lado, o bonitinho, mas também aquele que ninguém gosta de comentar. Vale conferir.

Momentos bons e momentos ruins todos tivemos. Lembranças prazerosas e lembranças medonhas de igual modo. A ambivalência faz parte da coisa toda. A dicotomia “bom e mau” não faz sentido, principalmente quando a infância é que está em análise. Fizemos e sofremos um pouco de cada. Alguns mais, outros menos. O que vale são as lembranças que ficaram. Só não vale querer negar o lado perverso da infância que tivemos.

 

   Revisado por Bianca Martins Peter

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"