No centro do mundo, há uma mulher

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Enquanto aguardava o anúncio da conexão, folheava o espesso volume acomodado em seu colo, sem, no entanto, conseguir se concentrar na leitura. Sentia-se inquieta; dispersa numa torrente de lembranças ruins, ansiosa em relação ao que estava por vir.

Começou a transpirar. Nas axilas, círculos escuros já maculavam o tecido verde da blusa de cetim caríssima que havia sido selecionada ainda no Brasil.

Respirou fundo, retirou um lencinho de papel da Louis Vuitton e começou a limpar a oleosidade da pele. Nem se deu ao trabalho de ir até o banheiro, como faria em outros tempos.

Se algum paparazzi a fotografasse daquele jeito, o dano à sua imagem seria mínimo comparado ao escândalo que circulara por meses na mídia nacional.

À sua frente, os minutos se acumulavam num relógio grande de madeira que repousava sobre o balcão do café Les Moires. Seus ponteiros davam a impressão de estarem avançando mais rápido do que o normal, embora o resultado final fosse o mesmo do painel com os horários de partida.

O tempo é a porra de um ilusionista barato, pensou. Agora você está no topo do mundo, num piscar de olhos volta ao lodo.

Atenção senhores passageiros do voo ATH4620 com destino à Atenas, anunciamos o embarque imediato da primeira classe, cabines de número 3 a 12.

Guardou o livro na mala de mão, tendo lido apenas o famoso mote que introduzia a obra. Separou o passaporte e foi resoluta ao encontro de seu destino, ruminando a ideia de que cada indivíduo era infeliz à sua maneira.

Passou cinco dias visitando Atenas. Enquanto conhecia a cidade, ia se adaptando ao avanço implacável da narrativa que levara consigo.

Havia escolhido Tolstói meses antes, quando comprara as passagens e fechara os pacotes.

Anna Karenina, assim como ela, havia brilhado nas rodas sociais em que vivia, um raro espécime de elegância que acabou degenerando por conta de uma paixão extraconjugal.

Jamais pensou que devoraria a obra com tanto afinco, mas a atmosfera seca daquela região parecia estimular a leitura da tragédia russa, conferindo-lhe nuances estranhamente sedutoras.

O livro crescia em sua consciência. Já não se sentia mais perdida com o emaranhado de nomes impronunciáveis e relações familiares conturbadas que povoavam os primeiros capítulos.

Quinze dias mais tarde, ao visitar as ruínas do teatro de Delfos e o Templo de Apolo, ouviu um guia turístico dizer que aquele lugar fora considerado o centro do mundo pelos helenos.

Acomodou-se do jeito que pôde na arquibancada, abriu Anna Karenina e retomou do ponto em que havia parado no dia anterior.

Enquanto a brisa mansa que soprava ali balançava as mechas finas que se desprendiam do coque sob o chapéu, achava cada vez mais fácil se identificar com os dilemas da personagem que dava nome à obra.

Não demorou para que imaginasse a si mesma interpretando a esposa de Alexei Karenina e mãe de Seriozha num palco como aquele, a céu aberto.

E então a plateia voltaria a aplaudi-la.

Sua relação com o Conde Vronsky seria escrita nas entrelinhas dos gestos e olhares, ficando mais intensa e explícita a cada ato, até culminar no inevitável desfecho.

Seu próprio affair não havia sido tão arrebatador, nem partira de um sentimento nobre e genuíno. De sua parte, experimentava, na época, um coquetel de carência afetiva misturada a uma vontade enlouquecedora de continuar relevante. Da parte dele, fome de fama, de privilégio, de dinheiro.

Seu casamento, por outro lado, sempre fora um contrato, inicialmente selado por drogas, sexo e muita bossa nova. Seu marido, o diretor dos primeiros filmes em que atuara e o único teste do sofá que precisara fazer na vida, era um completo estranho com quem dividia o teto.

Por mais de duas décadas, sua vida havia sido um castelo de cartas, que finalmente desabara no ano anterior.

Jamais admitira isto para si mesma antes.

Mas o fato de estar naquele cenário, naquele momento, mudou sua relação com a própria história. Em meio aos vestígios do grandeur obsoleto de uma civilização extinta, sua tragédia pessoal era despida de qualquer significado mais profundo.

Ainda sentia o familiar aperto no peito quando pensava nas imagens de sua intimidade circulando pela internet, mas, logo em seguida, lembrava-se que aquele era o berço da cultura que criara dramas muito mais espinhosos do que o seu.

E havia ainda outro fator nesta equação.

Acompanhar a trajetória de uma protagonista robusta, centro de seu mundo, frente à catástrofe iminente lhe dava ânimo. À medida que Anna perdia a vitalidade tão característica no início do romance, sua própria fonte de energia era renovada.

Sou uma vampira, balbuciou depois de algumas taças de vinho, sugando a essência de Anna Arkadievna Karenina página após página.

Naquela noite, sonhou com uma antiga estação. Esperava por alguém quando seus cabelos se enrolaram nas rodas do trem que estava prestes a partir. Acordou arfando e levou o resto da madrugada para se reestabelecer.

A despeito do episódio, a viagem seguiu conforme o planejado.

Estava em Creta, no centro da antiga civilização minoica, quando o relacionamento dos amantes russos se transformou num círculo de amargura e desconfiança.

Não esmoreceu, pelo contrário, sua voracidade só fez aumentar. Anna Karenina se afundava num isolamento doentio e isto lhe dava vigor para encarar as próprias turbulências internas.

De uma forma misteriosa, sentia-se escalando, lentamente escalando em direção ao topo de seu mundo novamente.

Num lampejo de protagonismo, decidiu que quando voltasse ao Brasil iria se afastar definitivamente do showbiz do eixo Rio-São Paulo. Esqueceria a chantagem, o revanchismo e se divorciaria, de uma vez por todas.

Já rareavam os convites para interpretar papeis mesmo antes do escândalo. Era inevitável. Atrizes de meia-idade, sem um filho que lhes desse aquele ar compadecido, tornavam-se invisíveis novela após novela.

Seria melhor aceitar as coisas como elas são.

Despertava em seus ossos uma força monumental, que só conquista quem mergulha de cabeça na tempestade e emerge do outro lado, carregando algo de si intacto.

Perto do final do romance, os dias iam se mesclando num período contínuo de leitura. Já projetava a falta que sentiria de alguns personagens, seus fieis companheiros naquela aventura tão surpreendente quanto desconstrutiva.

Tomava um café na colorida Fira, a capital de Santorini, quando absorveu a última palavra do livro, sendo invadida por um alívio mórbido quando percebeu que Anna Karenina não mais sofria.

Permaneceu ali parada, acompanhando o balanço distante das ondas. Antes de partir, pediu a tradicional meze, acompanhada de um copo de ouzo, bebida destilada a partir do anis, que em gosto e aspecto muito se assemelhava ao saquê japonês.

Enquanto comia, ponderava que tanto os personagens da ficção quanto as mulheres de carne e osso lutavam para permanecer o centro de seus mundos, sobrevivendo a intempéries arquitetadas por deuses caprichosos.

E a vida seguia num eterno cabo de guerra.

Ainda tinha alguns dias de viagem pela frente, algumas vilas e praias para explorar, mas sua determinação parecia ter se esgotado com as últimas palavras do livro.

Quando voltou ao Cosmopolitan Suites, foi direto para o quarto e deitou-se de barriga para cima na enorme e extravagante cama.

Acordou horas depois, sentindo seu corpo pesado, preguiçoso.

Com dificuldade, sentou-se ereta na beirada da cama.

Sua mente dava voltas.

Decidiu tomar ar fresco na varanda privativa, cujo privilegiado posicionamento logo acima do penhasco proporcionava uma bela vista de toda a bacia.

A brisa salgada daquela noite amena despertou os sentidos que a bebida do jantar havia entorpecido.

Sentiu-se, finalmente, leve, livre de si mesma.

Não era apenas Dinah, era Anna, Kitty, Dolly, Maria, Carlinha, Simone, Joaquina e cada uma das personagens que interpretara no teatro, no cinema, na televisão e na vida.

Em seu semblante, serena despedida.

Transpôs a cerca e se deixou cair, retirando-se do drama da existência do mesmo jeito que entrara nele, silenciosa.

 

Revisado por Victor M. P. de Queiroz

 

SOBRE O AUTOR

A palavra escrita me inspira, me forma, me ensina, carrega minha imaginação para horizontes longínquos e torna minha existência possível. Vivo dela e com ela. Além do Literatortura, mantenho a plataforma anahenrique.com, e contribuo mensalmente com o Portal Raízes.