Kierkegaard e a ironia na “Poética” de Manuel Bandeira

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“Era uma vez uma época, e ela não está tão longe, em que também aqui se podia fazer sucesso com um bocadinho de ironia.”
(Kierkegaard, O Conceito de Ironia, p.190)

Não como método, ou um meio para; não como especulação, ou uma construção racional, o conceito de ironia de Søren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês e pai do existencialismo, traz para o pensamento uma profunda noção de libertação. Na contramão de uma ideologia, de algo cristalizado, estabelecido, a ironia se dá na negação do instituído, no devir do novo, tendo o seu valor em si mesmo. Kierkegaard faz emergir um conceito que é próprio da filosofia, que é, a partir de si, o desvelamento da Verdade. Se em Descartes a filosofia surge através do Eu pensante, em Kierkegaard surge pelo Eu irônico.

Apresentada como tese de doutorado pelo então jovem autor dinamarquês n’O Conceito de Ironia, a ironia kierkegaardiana é sintetizada na figura de Sócrates. Negando todo pensamento estabelecido em Atenas, Sócrates aparece como o primeiro grande irônico. Ao contrário de Platão, Sócrates não constrói, efetivamente, nenhum pensamento sólido, mas é o protagonista de uma grande virada na filosofia. A leitura kierkegaardiana de Sócrates mostra o filósofo que a tudo nega, que desdenha da realidade e traz o ideal apenas como desejo. A ironia de Sócrates traz no seu princípio a negação do vigente, do tido como fato, pois ela é a condição da subjetividade plena. Com a negatividade, o filósofo dá asas ao pensamento e impede que o mesmo seja tomado em vão, assim como tem as armas necessárias para lançar em aporia os discursos de seus adversários.

“Se os sofistas podiam responder tudo, ele podia perguntar; se os sofistas sabiam tudo, ele não sabia simplesmente nada; se os sofistas podiam falar sem parar, ele podia calar.”
(O Conceito de Ironia, p.165)

A verdade exige, antes, o silêncio, para depois elevar sua voz, e foi Sócrates que providenciou este silêncio. Agindo negativamente, o filósofo dá lugar à liberdade subjetiva, que tem, a cada instante, o poder de iniciar algo e a capacidade de silenciar. A ironia de Sócrates é a liberdade sedutora de todo início, onde o Ser livre vive e morre ao mesmo tempo.

Com isso, a realidade perde, em tais instantes, sua validade para o irônico, que atua livre sobre ela com seu poder de reconstruí-la. A ironia de Kierkegaard surge em momentos de transição, como com o poeta berlinense Ludwig Tieck (1773-1853) na peça O gato de botas (Der gestiefelte Kater), passagem do Classicismo para o Romantismo, em que o teatro causou espanto na intelectualidade burguesa – orgulhosa de sua formação cultural (Ausbildung) – com sua ironia de negação que quebrava com a arte da transparência. Até que, quando o último recurso da vida for um pneumotórax, tocaremos, como negação, um triste tango argentino, como vemos ironicamente em Manuel Bandeira.

Em outro momento de transição, desta vez do Parnasianismo para o Modernismo, no Brasil, Manuel Bandeira traz, com toda sua ironia, no poema Poética (o nono da obra Libertinagem), a própria negatividade, vista em Sócrates através de Kierkegaard. Desde a metalinguagem que intitula a obra à primeira estrofe, já notamos que Bandeira não apenas evoca a criação poética, mas também um adversário – que é a própria corrente parnasiana.

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações [de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um                                   [vocábulo

Abaixo o puristas

De cara vemos a intenção do poeta de desconstrução do padrão formal do poema, seja com a métrica, rimas ou na organização entre versos e estrofes. Bandeira procura a fuga do sério, do comedido, bem comportado. O sério é por natureza anti-irônico, pois conserva em suas ações a complacência com o vigente, sua inércia de proximidade a ele. A ironia exige deslocamento, transgressão. Portanto, na contramão do parnasianismo, Bandeira atua contra os padrões da gramática normativa, ou do purismo linguístico, em seus versos, tendo em vista que tais padrões são o avesso da subjetividade livre. A busca pela adequação normativa é a busca pelo “fora de si”, não pelo pensamento próprio, como vemos a seguir:

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
[…]
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo do bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

O poema pede uma subjetividade errante, irônica, dos loucos e dos bêbados, daqueles que são imprevisíveis, que comovem, que negam os padrões. A negação novamente dá lugar ao poder-ser, ao que é próprio do pensamento. Como na leitura kierkegaardiana da ironia socrática, a negação do vigente deu espaço para a dúvida, para o silenciar do discurso e para a abertura da dialética. Agindo negativamente, Sócrates deseja o iniciar, no infinitivo do verbo, e não propriamente o início, sendo por si só libertação. A mesma libertação que Manuel Bandeira apresenta em sua “Poética”. A libertação presente no último verso, onde o poeta, negando a normatividade da língua, trocando o “seja” pelo “é”, convida a poesia para a sua única possibilidade de lugar: Ser somente Libertação.

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 

Rafael Solera
Revisado por Victor M. P. de Queiroz

 

SOBRE O AUTOR

Nascido em novembro de 94. Natural da cidade de São Paulo/SP. Poeta. Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, escritor e percursor da filosofia pela e na Linguagem. Amante do inútil e do em si. Louco pela liberdade e eterno viajante da Verdade. Mas, antes de qualquer coisa, poeta.