Já que é pra tombar…

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Gosto de caminhar para ver as casas. É claro: as árvores, as nuvens e os pássaros, bem como o vento, contam uma história natural. De onde vêm, para onde prosseguirão, por quem passaram, em quantos rostos tocaram, quantos perfumes contêm. Onde aquelas nuvens já choveram, em quantos quintais tais pássaros pousaram, quantos casais de namorados tantos galhos acobertaram. Dizemos, costumeiramente, que daremos um passeio para tomar um ar puro, mas, ao contrário disto, não saímos para contemplar as casas.

Se bem que, para ser justo, há turistas que gostam de conhecer a fachada de moradas de pessoas famosas, ou famosos estrangeiros que fazem onda em comunidades precárias. Contudo, há diferenças. Falo de andar por ruas comuns e contemplar seus portões – de flechas, de madeira, de aço –, seus muros – altos e baixos –, suas paredes – pintadas, rebocadas, descascadas, de tijolos à vista –, além de coisas muito mais indelimitáveis, e se perguntar: “Quem mora, como mora, quantos já moraram, quantos já morreram, por quais dificuldades passam?”, já que é uma casa; só mais uma casa erguida entre tantas outras no planeta.

Naquela única rua, quantas famílias não há? Problematizando a fundo, a cidade nem proporcionaria emprego para todos (e deve mesmo não proporcionar). Mas também não falo como quem estima ou só informa que “o Brasil tem 200 milhões de eleitores”. Meu deus, que desumanização! Isto é só um número, que, em termos de reconhecimento, significa é nada. Não há como sentimentalizarmos um numeral tão extenso. Por vezes ouvi pessoas de pouco estudo, em sua ignorância tão singela, a questionar “quanto é um milhão?”, e, então, mesmo o doutor sentir-se incapaz de responder com exatidão. “São seis zeros, só que de pessoas”.

É a necessidade da linguagem, enquanto o fracasso dela em si. “Nesta rua moram cem pessoas”, dir-se-ia. Quando, em verdade, quem recebe a informação fixou-se apenas naquele numeral; as pessoas ficaram em segundo lugar. “Nesta casa residem dez”; “aquele vento cortou quatro cidades”; “essa árvore abrigou doze amantes”. São apenas números. Matam, quando não devidamente cuidados, os beijos de cada romance, o frescor de cada brisa, a estória de cada família, o percurso de cada passarinho, o sofrimento de cada sucesso…

Imagino Deus, existindo, se existir, passeando por esse universo e perguntando ao seu contador: “Quantos planetas eu fiz na Via Láctea?”. A Terra, em toda a sua plenitude, riqueza de espécies e amontoados de orações, não terçaria de um número vulgar. As pessoas tombam prédios, tombam não sei o quê, como patrimônio da humanidade. No máximo, Deus mandaria tombar a Terra para que o homem não mais a maltratasse, e diria, como já cantam por aí: “Já que é pra tombar, tombei”. Não seria mais do que um dígito a se contar.

Ai de nós, não fosse a arte! Que miserável seria essa humanidade sem, por exemplo, a visão transcendente que só a literatura pode nos proporcionar; ou da música, liga do universo e sal de todos os afetos! Da fotografia e da pintura, bem como da mágica de todos os artesãos. O que seria de nós desprovidos da palavra certeira, do acorde arrepiante, da pincelada de mil interpretações, do “click” daquele um milésimo de segundo tão revelador? Contam-nos algo de muito especial e que, ai, não fosse a arte!: alguém já haveria dado cabo de nós.

Sabe… aqueles passarinhos logo morrerão, pois vivem pouco; aquela árvore, da minha infância, deu lugar a uma calçada; aquele teatro, único da cidade, tão antigo, onde recebi meu primeiro diploma, fantasiado de Pequeno Príncipe, agora é a filial de um banco entre outros mil; aquele casal de jovens depravados eram seus pais; esse ar, que respiramos agora, não respiraremos nunca mais. Esse eterno devir, esse manto estrelado, por mais que possa parecer, não é feito de estrelas iguais.

Eu gosto de caminhar para ver as casas. Perdi o número de quantas vezes já caminhei.

Revisado por Juliana Skalski

Tela “Bênção do Deus Pai”, do artista italiano Luca Cambiaso

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.