E se controlássemos o tempo?

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A natureza do tempo
A reflexão sobre a natureza do tempo já causou muita angústia na história do pensamento, e definir o que é o tempo tornou-se, ao longo da história, uma grande questão para a filosofia. Um ambiente escorregadio para os mais diversos pensadores. Na mitologia grega, temos na figura do deus Kronos, filho de Urano e Gaia – a visão clássica da temporalidade: que engole todos aqueles que se submetem a ela.¬ Aristóteles, no livro IV da Física, busca também uma explicação sobre a natureza do tempo, porém encontra-se em uma aporia na investigação: a impossibilidade de conceituar a passagem de um instante para o outro, por não haver espaço para tal passagem. O conceito sobre o tempo aparece como uma tentativa de eternizar seu fluxo, de caracterizá-lo com o seu oposto; descontinuar a fruição do rio de Heráclito. Outros filósofos ao longo da história também se propuseram a pensar este tema com igual delicadeza, e talvez a obra de maior significância foi produzida pelo pensador judeu Henri Bergson (1859-1941).
Segundo o pensador francês Bergson, a real concepção de tempo é divergente da concepção do tempo científico – baseado na sucessão e passível de cálculos. Para Bergson, o tempo real não é uma grandeza física quantitativa, que pode ser medida e representada conceitualmente, mas sim uma experiência qualitativa, íntima à vida humana e, à consciência, ligada à multiplicidade de estados psicológicos e, portanto, não pode ser calculado linearmente como sucessão, tendo em vista que não há como calcular momentos temporais da experiência vivida. A noção bergsoniana de tempo está submetida a uma ideia de fluidez da experiência e sua pluralidade qualitativa, conhecida em sua filosofia como duração, e sua natureza não está ligada à natureza do espaço. Mesmo após a física newtoniana e a teoria einsteiniana da relatividade, resultando no íntimo tratamento da ciência com o tempo (t), o filósofo indaga a insuficiência das teorias científicas para lidar com questões filosóficas. O tempo da ciência é o tempo do relógio, quantitativo, o tempo da medida, conceituado. Porém, quando tentamos medir o tempo, o mesmo já está pré-dado, já o compreendemos antes de defini-lo. Como nas palavras de Agostinho (354-430) no Livro XI de suas Confissões, “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei.“ Vemos também, na mesma obra, a impossibilidade de se medir o tempo: seja o passado por não existir mais, o presente por não ter espaço e o futuro por ser mera expectação; e, com isso, Bergson defende seu posicionamento da realidade baseada no tempo psicológico.
A tentativa de contato com a natureza do tempo se dá no deixar fluir do fenômeno, aproximando-se e eliminando suas ligações com o espaço. Como proposta de investigação desta filosofia, Bergson, em Durée et Simultanéité, expõe um experimento:

“Uma melodia que ouvimos de olhos fechados, pensando apenas nela, está muito perto de coincidir com esse tempo que é a própria fluidez de nossa vida interior; mas ainda tem qualidades demais, determinação demais, e seria preciso começar por apagar a diferença entre os sons, e depois abolir as características distintivas do próprio som, conservar dele apenas a continuação do que precede no que segue e a transição ininterrupta, multiplicidade sem divisibilidade e sucessão sem separação, para encontrar por fim o tempo fundamental.”
(Bergson. Duração e Simultaneidade, Cap. III , P. 51)

O som aparece como terreno fértil para o objetivo de apreensão do tempo, de sua essência. Temos então um meio de entendermos a temporalidade e torná-la íntima ao nosso próprio ser, através do som podemos atingir uma conexão com o tempo e sua fluidez.
Na literatura, o tempo psicológico é muito utilizado com o intuito de interiorizar as questões de uma história ou para melhor se compreender a densidade dramática da mesma. Notamos facilmente este intuito em Vidas Secas (1938) de Graciliano Ramos, não só pela inexistência de datas cronologicamente estabelecidas na sua organização, mas também pela narrativa de reflexão dos personagens sobre os fatos de suas vidas, criando então a alteração do tempo, como vemos em falas do tipo: “Esse minuto não acaba!”. No poema A uma passante de Charles Baudelaire, a brevidade de uma mulher que passa rapidamente à sua frente, faz surgir o amor e o instante que se prolonga à eternidade, como presente no último verso da terceira estrofe: “So te verei um dia e já na eternidade?”. Ambas as obras mostram a importância do tempo psicológico para entendermos melhor a realidade. Diante desta ideia, defrontamo-nos com um tempo que existe a partir da consciência humana e, como sabemos, no âmbito da consciência temos um grande poder de deliberação.

E se pudéssemos controlar o tempo?
De acordo com a noção bergsoniana, de certa forma podemos, e notamos facilmente como somos capazes disso. Quando estamos dormindo, meditando, concentrados em algo ou entediados, percebemos como o tempo parece ter sido alterado e, considerando a ideia do tempo psicológico de Bergson, de fato foi. Porém, para isto, devemos abandonar a ideia científica do tempo físico, quantitativo, e nos centrar na experiência vivida, qualitativa. O controle do tempo não se dá sob a perspectiva moderna do homem que domina a natureza, mas sim sob a ideia de que ambos podem influenciar um ao outro. De tal forma que possamos utilizar da experiência como a possibilidade de reavermos os usos e sentidos das nossas vidas.

“Com suas aplicações que visam apenas à comodidade da existência, a ciência nos promete o bem-estar, no máximo o prazer. Mas a filosofia já nos poderia dar a alegria.”
(Bergson, O pensamento e o movente, p. 148)

Tomando como ponto de partida esta reflexão, proponho um poema, de autoria, que estimule o pensamento sobre a natureza do tempo e suas relações com nossa consciência e sentimentos – que guiam e justificam o nosso estar no mundo. De que forma o tempo pode nos dar ou tirar as esperanças? E como podemos lidar com esta convivência?

O tempo escorre
No obter de consciência.
Tornando o púbere, impúbere.
O novo,
Velho.

A esperança
Torna-se seca na fonte
Da vida.
Inversamente proporcional
Ao tempo,

Que mastiga e
Cospe os que o
Esperam.

Rafael Solera
Revisado por Jay Araújo

SOBRE O AUTOR

Nascido em novembro de 94. Natural da cidade de São Paulo/SP. Poeta. Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, escritor e percursor da filosofia pela e na Linguagem. Amante do inútil e do em si. Louco pela liberdade e eterno viajante da Verdade. Mas, antes de qualquer coisa, poeta.