De gados e homens, Ana Paula Maia cortante

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A literatura contemporânea tem se prestado a ser um prisma que reflete (de modo parcial, à moda da literatura e seus mundos possíveis) diversos tipos de realidade, tocando em pontos universais, como o sentido da vida, relações interpessoais, morte etc.  A partir do período pós-guerra, o sujeito se viu sozinho – sozinho mesmo, não recluso por opção romântica – e frágil, tentando escapar de uma bomba que vinha do alto e tornava o futuro impossível. Muitos artistas expressaram essa nova preocupação subjetiva, o homem desmantelado, a exemplo temos  o quadro Guernica de Picasso e A rosa do povo, de Drummond, também uma maneira de responder às inquietações do homem daquele tempo, entre muitos, muitos outros.

O que a literatura dos anos 2000 tem a nos ensinar? Quais são as nossas batalhas contemporâneas? Bem, cada canto do planeta tem suas especificidades e lida como pode com seus problemas. Como a literatura tem contribuído para construir essa tensão pela qual estamos passando é um desafio e creio ver na ficção brasileira contemporânea uma preponderância do drama existencial como tema para as narrativas.

Entretanto, Ana Paula Maia com sua escrita seca e direta, nos coloca em posição de retorno às origens como espécie, colocando o leitor frente e frente com o animal e com suas ações de ser “humano”, com essa natureza nossa que não é nossa, mas tentamos fazer com que ela exista a qualquer preço.

O retorno à natureza é a situação limite colocada pelo processo de industrialização ou se preferir, uma consequência do capitalismo selvagem.

De gados e homens é o romance mais recente da autora, lançado em 2013. A história é narrada em terceira pessoa e centra-se na figura de Edgar Wilson, atordoador de gado em um matadouro. Embora execute tal trabalho, Edgar tem a consciência de que a dignidade do animal deve ser preservada, por isso faz o sinal da cruz na testa do animal antes de abatê-lo. Edgar Wilson tem um jeito bastante particular de resolver as coisas com as quais não concorda, como se pode observar no terceiro livro de Ana Paula Maia, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos onde Edgar também possui papel influente.  Tendo de se afastar por uma tarde para fazer uma cobrança na fábrica de hambúrgueres, sua função fica sob responsabilidade de Zeca. Mas Edgar conhece o comportamento doentio do colega que gosta de ver o sofrimento dos animais e por conta dessa satisfação de Zeca, Edgar acaba matando-o e o atirando no rio. Tudo muito naturalmente.

A narrativa gira em torno da mudança repentina de comportamento do gado, demonstrando hábitos estranhos, percebidos prontamente por Edgar Wilson. Oscilando entre a relação entre os homens e os gados, o cenário também está repartido entre o abatedouro fétido, sangrento e a fábrica de hambúrgueres limpa, esterilizada até o limite.

“Edgar gosta de observar os animais confinados. Sozinhos ou em pequenos grupos, eles mantêm o mesmo ritmo quando mastigam ou abanam os rabos. Os bovinos, todos eles, quando pastam se orientam para o norte, pois são capazes de sentir o campo magnético terrestre. Poucos sabem o motivo disso, mas os que lidam com os bovinos diariamente sabem que eles mantêm um código de comportamento e que permanecem na mesma direção ao pastar. Esse equilíbrio não se vê nos homens, em nenhum deles.” 

Além da estranheza do comportamento dos bichos – preocupando não apenas Edgar Wilson, mas também seus parceiros de trabalho, há a problematização do modo como encaramos a carne enquanto alimento (tudo isso de uma maneira coerente na narrativa, não espere um manifesto vegetariano no meio da história). Em uma ocasião, estudantes universitários visitam o matadouro a fim de conhecer todas as etapas de produção da carne. Uma cena emblemática põe em questão a nossa relação com a carne que comemos, coisa que muita gente pensa vir do “além” e não como parte do processo da morte de um animal para esse fim específico.

” – A senhora já comeu um hambúrguer?

   A mulher responde que sim com a cabeça.

 – E como a senhora acha que ele foi parar lá?”

A partir dessa pergunta, Edgar Wilson apanha uma marreta que encontra e convida a moça para participar de todo o processo de produção da carne, começando pelo abate dos bois. Certamente essa é uma das cenas mais fortes do livro, revelando uma hipocrisia bastante recorrente: comemos a carne, mas fingimos não saber de onde ela vem. Se a comemos, então precisamos assumir tudo aquilo que está em jogo por conta disso.

É nesse tom de narração onisciente que caminhamos pela vida de Edgar Wilson, dividindo os odores, as pancadas, as dificuldades da vida e reagindo como se pode.

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SOBRE O AUTOR