Como a literatura imprime seus personagens em cada leitor

identity

Quem é você agora? Quem era você ontem? A língua portuguesa nos prega uma peça com o verbo ‘ser’. Por causa dele acabamos acreditando que a identidade, aquilo que somos, é algo contínuo, quando na verdade contínua é apenas sua transformação. O idioma inglês já é mais consciente nesse sentido. O verbo ‘to be’, que traduzimos como ‘ser’ e ‘estar’, unifica os dois conceitos e explicita a volatilidade do “ser”.

“Quem você está?” é uma pergunta que faz muito mais sentido. Dez minutos atrás eu comecei a escrever este texto e agora já não sou mais o mesmo que era antes. As reflexões que fiz para transpor meus pensamentos em palavras me transformaram; as faxineiras que passam limpando o chão da faculdade enquanto escrevo me transformaram; tantas outras coisas que me passaram despercebidas nesse pouco tempo com certeza também me transformaram.

A todo instante estas transformações estão acontecendo sem que nos demos conta delas. Com cada nova sensação, com cada novo pensamento, nossas referências mentais são modificadas. A próxima vez que eu vier às 7h da manhã para a faculdade não vai ser como esta primeira. Ao chegar, eu terei umas e outras lembranças que não seriam possíveis sem esta experiência de hoje. Quando, amanhã ou outro dia, eu vir um faxineiro varrendo o chão, eu resgatarei o que senti e pensei agora pouco, o que definitivamente não é o mesmo que fazê-lo em primeira mão e, ainda, eu possivelmente passe até lá por outras situações que alterarão sensivelmente esta experiência.

Como se vê, não começamos nunca do zero. Temos sempre a referência de quem já fomos para nos encaminhar às renovadas versões de nós. Cada um dentre a infinidade de seres que fomos faz parte daquele que somos hoje e daqueles que ainda seremos. É assim que a literatura consegue enfiar no meio de tantas identidades aquelas dos personagens que acompanhamos em nossas leituras.

Um livro funciona como um projetor de cinema. Enquanto lemos, nossa mente se torna a tela e nela é projetada a perspectiva de incontáveis personagens. Naqueles instantes, o leitor se torna a própria personagem, vivencia suas dores, alegrias, suas lembranças e desejos. Ao fechar o livro, essa não se vai por completo, muito pelo contrário, acaba impressa eternamente em tudo que nos tornarmos dali em diante.

Não é à toa que se fala tanto sobre a capacidade dos livros em desenvolver empatia nos leitores. Por quantas situações únicas não passamos a partir de nossas leituras? Quantos seres tão distintos não fomos por algumas horas? Todas essas experiências se acumulam e afetam diretamente quem nos tornamos para o resto de nossas vidas.

A leitura não é, dessa forma, meramente transformadora. Ela é transcendental. Além de nos proporcionar vivências com as quais de outro modo jamais teríamos tal nível de contato, ela nos conecta àqueles com quem compartilhamos as leituras, ao ser humano em geral, e a tudo aquilo que nos é externo e inatingível de dentro de nossas limitadas individualidades.

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.