A arte está nos olhos de quem vê

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Heráclito, um dos filósofos gregos pré-socráticos, dizia que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Segundo ele, ao repetir o mergulho já não se encontraria ali as mesmas águas. Um raciocínio parecido podemos utilizar para a apreciação artística em qualquer uma de suas modalidades. Aqui, no entanto, não é a obra de arte que se modifica, mas sim o seu observador.

Não importa se vemos uma pintura, assistimos a uma peça de teatro ou lemos um livro, cada uma dessas experiências serão únicas a despeito do número de vezes que as repetirmos. Parafraseando Heráclito, eu gosto de pensar que não se pode ler o mesmo livro duas vezes. Se na primeira contamos com o ineditismo da obra, na segunda, o conhecimento prévio da sucessão de fatos ou ideias dá abertura para que notemos aspectos que antes passaram despercebidos, na terceira, estes aspectos se somam aos que já vimos levando a novas impressões e pensamentos. Este ciclo se repete indefinidamente todas vezes em que nos aventuramos pela leitura. Ao mesmo tempo, é claro, a vida está acontecendo e estamos incessantemente nos metamorfoseando. Uma cena que antes te entristeceu, pode depois enraivecer. Uma ideia pode tomar sentidos completamente diversos se passamos por uma situação com a qual, de repente, conseguimos relacioná-la.

O artista, nessa perspectiva, é um mensageiro que não sabe com quem está falando, nem sequer qual mensagem chegará a cada um de seus “ouvintes”. Mais do que isso, sua arte não termina com seu trabalho, mas constrói-se e reconstrói-se a cada nova apreciação. É apenas no seu contato, e enquanto ele durar, com o indivíduo que ela se torna plena, que ela se completa enquanto expressão e comunicação de um sentimento, de uma ideia, sejam eles explícitos ou não.

A arte, deste modo, não é produto de uma individualidade, mas do encontro entre o artista e um público extremamente plural coletiva e individualmente, além de estar em constante mudança. É o olhar de cada observador que determinará, enfim, a impressão trazida pela obra de arte.

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.