A Aposta de Pascal

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Riscos de benefícios ou malefícios cuja concretude posta em prática depende da postura adotada pelo jogador. Digo jogador, pois a aposta é um jogo e, sendo um jogo, o participante é um jogador. A aposta em questão se trata da possibilidade da existência ou não de Deus. Racionalizando de acordo com a lógica de perdas e ganhos e levando em conta tão somente o aspecto econômico de acordo com duas hipóteses possíveis, temos a aposta de Pascal.

Pascal era um cristão devoto. No entanto, sua perspectiva pessimista sobre a vida resultava em uma descrença para com os meios utilizados para arrebatar fiéis. Pregações, discursos religiosos e abordagens pautadas apenas na fé (essa parte para Pascal, ficaria para um segundo momento) não eram suficientes para convencer os incrédulos da existência de Deus. As vicissitudes, os pecados e os erros da humanidade eram tantos e tamanhos que a lógica religiosa não conseguia ultrapassar a barreira da lógica incrédula. Provavelmente foi aí que Pascal teve sua própria sacada: convencer sobre a existência de Deus utilizando-se de uma hipótese pautada no plano de uma aposta. Eis que surgiu o seu argumento que ficou conhecido como a Aposta de Pascal. Inobstante eventuais erros e acertos, furos e convencimentos possíveis, analisemos a construção argumentativa de Pascal.

É mais ou menos assim: ou Deus existe, ou Deus não existe. Dentre um aspecto puramente hipotético, sem levar em consideração demais fatores, têm-se as duas possibilidades. Probabilisticamente, então, há 50% de chance de que Deus exista e 50% de chance de que não exista. O bom jogador deve levar em conta a melhor possibilidade na escolha de sua aposta, otimizando assim a possibilidade de ganhos. Um incrédulo que aposte na inexistência de Deus acabará por levar uma vida mais proveitosa no aspecto carnal, já que não seguirá preceitos, dogmas e orientações religiosas que direcionem suas condutas na terra. Caso esteja certo, nada terá perdido, pelo contrário, terá aproveitado melhor a vida do que aqueles que apostaram em sentido contrário. Caso esteja errado, a condenação eterna será a consequência de sua aposta equivocada. Já para um religioso que aposte na existência de Deus, este acabará tendo de levar uma vida mais comedida, abdicando de determinadas coisas que forem taxadas como pecaminosas, seguindo dogmas, cumprindo ritos e determinados costumes. Se estiver certo, os sacrifícios em prol de sua crença realizados na terra resultarão em seu passe para o paraíso. Já se estiver errado, terá encerrado sua vida mundana sem ter aproveitado tudo aquilo que poderia. Essas são as possibilidades de escolha (Deus existe e levar a vida segundo os preceitos religiosos x Deus não existe e levar a vida a modo próprio), cada qual com os seus variados possíveis resultados. É em tais possibilidades de jogada que Pascal determina que a melhor aposta é a de crer na existência de Deus. A explicação, como já dito, se dá num viés econômico, dentro da lógica dos custos e benefícios. Para Pascal, os sacrifícios de uma vida religiosa seriam pequenos ao considerar o grande prêmio que aguarda o apostador na hipótese de a escolha ser a correta (glórias, felicidade eterna, regozijo…). Caso a opção escolhida seja a equivocada, não haverá maiores consequências, mesmo porque o jogador já nem sequer existirá mais para lamuriar as abdicações que teve que fazer em vida. Em contrapartida, no caso da opção pela incredulidade, os benefícios existiriam tão somente na hipótese de a escolha ser a correta, já que caso evidenciado o erro seria tarde demais, a condenação seria eterna e sem qualquer possiblidade de arrependimento, ou seja, a consequência seria desastrosa demais (aflição eterna, dor incessante, sofrimento perpétuo…). Balanceando as opções dadas de acordo com todas as hipóteses de consequências das escolhas, tem-se que o risco de se apostar na inexistência de Deus e o jogador estar errado é muito maior que apostar em sentido contrário e também assim estar. Desta forma, como estratégia de contenção de danos, evitando a possiblidade de uma perda mais significativa, a melhor chance seria aquela em que se aposta na existência de Deus.

Deus como a aposta mais segura, por assim dizer. É essa a tal da aposta de Pascal.

 

   Revisado por Carlos Cavalcanti

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"