Maldita Geni!

Malena2

“Joga pedra na Geni!

Joga bosta na Geni!

Ela é feita pra apanhar!

Ela é boa de cuspir!

Ela dá pra qualquer um!

Maldita Geni!

Nas ruas de meia luz do bairro de distrito vermelho, Geni usa seus trajes sumários na noite de dez graus. Saia de borracha, cinta-liga e salto alto vermelho dezoito centímetros. Por cima, um casaco vermelho da época que era “acompanhante” de executivos de alto escalão. Linda mulher, cabelos longos dourados, boca vermelha carnuda e peitos escapando pelo espartilho com detalhes de renda. Destruidora de lares, muitos homens já perderam a cabeça por essa mulher. Hoje, vende o corpo por muito pouco. Por causa das drogas, perdeu o rumo e ficou mal falada na roda de prostitutas de alto escalão. Roubava os clientes para afundar-se no pó. Era fã de Keith Richards, gostava de usar drogas escutando Stones. Se ela fosse uma groupie, abriria as pernas para cada um deles, um a um, num quarto com cheiro de gin e cartas de baralho na mesa, com as beiradas sujas de cocaína da melhor qualidade. Se acabaria numa orgia louca, regada a whisky, cocaína, cigarros e quem sabe heroína. Um dia ela assistiu um documentário dos Stones que rolava numa festinha bem particular de alguns políticos famosos da cidade. Enquanto as esposas cuidavam da casa e dos filhos, os maridos viajavam a negócios. Contrabando de pó, construção de estradas clandestinas e propina de casas de bingo. Negócios… Documentário rolando, no meio das pernas, uma guria do cabelo colorido, piercing na sobrancelha e costas fechadas de tatuagens fazendo-lhe um agrado lotado de saliva. Geni vidrada, brisada, de pupilas dilatadas assistindo Stones com a cabeça pendurada de lado, enquanto fingia orgasmos para alegria dos observadores. As tatuagens que desciam das coxas até os pés se misturavam com os desenhos da guria que se esforçava para fazer Geni gemer. O sustento da família dependia dos gemidos teatrais de Geni. A única coisa que dava prazer a Geni, além de Chico Buarque, era a cena de Keith Richards comendo uma groupie de quadro, enquanto Jagger filmava e outro integrante da banda batia no pandeiro ao ritmo dos barulhos sexuais. Fingia orgasmos, devaneando deitada nua e melada de saliva e sêmen de desconhecidos com relógios de ouro no pulso no sofá de couro importado de Jacarta.

De um canto do enorme salão de Sodoma e Gomorra, dignas de deixar Marquês de Sade inspirado a escrever mais um volume de “Filosofias de Alcova”, uma fileira de homens em práticas solitárias, esperando mulheres desocupadas, com algum buraco qualquer disponível. Foi uma festa ligeiramente fácil para Geni. Drogas e bebidas disponíveis, um cachê de três mil, joias e taças de cristal roubadas. Foi pega pela vistoria ao sair da casa. Geni vacilou, os seguranças olhavam celulares, bolsas, tudo o que pudesse denunciar a farra. Depois do roubo, ficou rebaixada a profissional de dez, vinte reais, no máximo cinquenta, perto do metrô de regiões metropolitanas, nas casinhas escuras, paredes pintadas de vermelho e camas de lençóis melados de porras alheias. Não fazia mais exames. Se estivesse doente, deixaria que a vida fluísse. Geni acredita que as coisas são como devem ser, algo como “Porque Deus quis assim”, dizia isso todas as noites enquanto rezava o terço que um dia foi de sua avó. Se ela tiver de morrer de AIDS, foi por puro karma, uma forma de pagar os pecados desde que se deixou ser devorada por três rapazes aos treze anos no banheiro da escola de natação, depois de não se aguentar mais em seus contentamentos com a mini ducha reguladora de jato do banheiro de sua mãe. Sua avó sempre dizia que sexo antes do matrimônio era pecado. Mas ela era imoral, não podia lutar contra seu desejo, ele era mais forte, sendo assim, entregou-se ao sexo mediante pagamento. Sabia que ela era linda, e provocava os meninos, tirando o sutiã dentro da van ou no banheiro da escola. Quando via uma virilha de volume intumescido por baixo das bermudas de uniforme azul, ela provocava. O motorista da van percebeu os bicos dos seios em desenvolvimento, tremendo quando passava nas ruas de paralelepípedos, pecado ferindo-lhe os olhos pelo retrovisor. Um dia ela pediu para ser deixada em casa por último. Falou à mãe que faria um trabalho na casa de Carminha. Transaram dentro da vã. Ela com 14 anos, ele com 31. Foi com ele que ela aprendeu que homens preferem as depiladas. Juntava o dinheiro do lanche e ia todo mês escondido numa depiladora num bairro afastado: “Completa, bem lisinha”, pedia ela. Gritava de dor, mas sabia que mais tarde seria recompensada pela língua com frescor de halls preto do motorista da van.

Ela gostava de sexo. Fazia porque gostava, não por necessidade. Geni tinha família boa, oportunidades para estudar nos melhores colégios, mas desde criança aos 12 anos tinha uma tara incontida, gostava de ver os meninos púberes coçarem as partes no recreio, assistia os pornôs que seu pai escondia no fundo falso do armário da sala. Ela era uma boa menina, seus pais não tinham receio de deixá-la sozinha. Os menininhos gostavam de urinar juntos no muro da parte de trás da escola. Gostavam de medir os tamanhos das genitálias, e quem urinava mais alto. Ela sabia que eles sempre faziam isso na hora do recreio. Eles não sabiam da fresta da janela que ela espiava na hora do intervalo, quando via aquele bando de menininhos imberbes, mas com malícia original de fábrica. Um dia, Geni chegou, e os meninos com cara de surpresa, já queriam expulsá-la. Mas ela já chegou dizendo que o “pinto” de Pedro era o mais bonito. Pedro, que já meio que timidamente tinha seus desejos de menino que descobre o erotismo, falou a ela que a deixaria pegar em seu instrumento se ele pudesse tocar nos seios ou no meio das pernas. Ela aceitou… Os dois. Geni não era mulher de “OU”, era sempre “E”. Os meninos ficaram olhando, e ela era muito gentil: cada um tinha o seu dia da semana. Muitos meninos da vila em que morava, senão todos, tiveram o erotismo e a primeira gozada com Geni. Ela era assunto nas rodinhas de lembranças de amizades duradouras:

“Ahhh a Geni… Meu primeiro boquete! Lembra dela Luís?”

“Sim claro, eu metia nela enquanto ela te chupava de quatro! Aquele banheiro desativado do salão da piscina tinha histórias para contar. Podíamos escrever um livro só com as altas putarias que aconteciam lá. ”

“Reza a lenda que ela trabalha no metrô da Consolação, e ainda lhe digo, Pedro (o do pinto bonito) foi vê-la, e disse que apenas assistiu ela se consolando com o consolo… Entende? Pagou apenas para assistir. Sacou a piada? Metrô Consolação… Consolo”.

“Ok Luís, você bêbado conta piadas pior quando está bem dessa sua cabeça grande. Vamos marcar uma diversão, como nos velhos tempos. Se tivermos sorte, ela deve ter alguma amiga…”.

“Eu não quero ver esse teu corpo peludo meu velho. Lembre-se que com 13 anos os pentelhos e cabelos do peito eram poucos! ”

“Ahhh…Imaginação, meu querido. Com duas bundas empinadas para nós, você vai querer ficar olhando para o meu pau? Tô te estranhando! Bem que tua mulher falou para minha que tu não andas fazendo o serviço direito. Se continuar assim meu caro, comerei tua mulher junto com a minha… Será que elas topam? São amigas, e eu sempre gostei de ver tua mulher de quatro no jardim arrancando mato…”

“Filho da puta! Ninguém bota a mão na minha mulher!”

“Ok, calma meu velho, estava brincando na parte de comer sua mulher, mas eu olho ela de quatro no jardim… É assim, inevitável, quase sem querer!”

“Se eu fosse você, parava de ver minha mulher de quatro e cuidaria da sua mulher. Escutei um papo delas na cozinha que o chuveirinho do teu banheiro está cumprindo algo que você não faz direito!”

Silêncio… E depois altas gargalhadas ecoaram no boteco de seu Willian, e um barulho de dois copos em um brinde de cerveja:

“Aos bons tempos e os boquetes de Geni!”,  disse Luis.

Seu Willian, dono do boteco, também riu lá do balcão. Tinha ele lembranças de Geni. Aos 75 anos reviveu os tempos áureos. Achava que ele era um velho moribundo, mas Geni deu-lhe vida. Queria casar-se com ela, mas ela não aceitou. Ele pagou a reforma da casa dela e várias joias que foram parceladas em dez vezes. Dona Neusa sua mulher achava que ele estava pagando o plano de saúde. Enganava-se, mas Seu Willian morreria feliz, com os pensamentos em Geni.

“Ahhh Geni!”, suspirava o Velho Willian.

Geni estava na esquina fria da região dos prostíbulos e motéis. Aos poucos estava tentando voltar ao alto luxo. Trabalhava das dez às três da tarde num puteiro perto do metrô Consolação. Chegava em casa, dormia até as dez da noite. Tomava um banho e se preparava para ficar nas ruas da meia noite às cinco.

Parou um carro de luxo, com três homens e duas mulheres. Perguntaram se ela era a Geni, a famosa Geni, e perguntaram quanto era o programa com todos lá dentro do carro e mais dois homens que esperavam num apartamento nos Jardins.

“São quinhentos reais, a noite toda meu querido!”, disse Geni, sentindo que sua sorte chegou em um esportivo de luxo, preto, blindado com bancos de couro, talvez alemão.

“Com tudo incluso?” – perguntou o motorista.

“Com tudo incluso bem gostoso e sem frescura, faço por oitocentos…” disse Geni, com certo medo de perder tudo, mas precisava de dinheiro para pagar as dívidas.

“Fechado, entre!” – falou o motorista.

Geni aceitou e entrou no carro. Eram duas mulheres, e três homens. Passariam na casa de Haroldo, O Cafetão de Geni, para buscar lança perfume e algumas cápsulas de cocaína. Mas no meio do caminho, o carro avançou.

“A casa de Haroldo é ali! Vocês passaram a entrada!” – disse Geni, assustada.

Levou um tapa na boca da ruiva oxigenada que estava ao lado. Depois, em meio a imagens borradas em decorrência da tamanha força, cuspiu sangue no couro branco do carro. Diante disso, um soco. Ficou desacordada durante trinta minutos, sonhou com um Zepelim cruzando o céu, e dentro dele seu homem idealizado. Uma perfeição, um Mr. Darcy de Jane Austen, mas ele era atual, mas com toda pompa de aristocracia. Ele a beijava, acariciando-a no meio das pernas com uma ternura, e não com a brutalidade de unhas compridas, dedos afobados demais para os primeiros minutos. Bastou um minuto de manejo e estava pronta para jorrar um rio de prazer. Eles transavam dentro do Zeppelin, que destruiu as cidades onde os preconceituosos moravam, onde havia violência, abusos e roubalheira. Deveriam destruir o mundo todo, mas algumas cidades ele poupou, apesar de sua descrença no ser humano. Percorreram cidades magníficas, com edifícios belos, dignos de um sonho, queria era tudo destruir, construir uma cidade apenas para ela e seu amado. Nada mais lhe restava, a família a renegava. Quando ele a beijava e mordiscava os seios, ela sentiu Amor, pela vez. Mas o Amor acabou. Acordou desnorteada, nua num depósito dentro do porto de Santos. Depois que recobrou a consciência, foi abusada por cinco homens. Três dos que estavam no carro e mais dois que esperavam nas docas do porto de Santos. Um deles escarrou, urinou e defecou na pobre Geni. Jazia numa poça de sangue, mal conseguia andar. Não aguentava mais, clamou por piedade, mas foi morta. As mulheres que lhe bateram no carro, atiravam pedras, como se ela fosse uma pecadora, como se ela tivesse dito o nome de Deus em vão. Ela costumava dizer “Oh Deus” quando atingia ou fingia que atingia, o êxtase com os clientes. Seus carrascos pegaram as pedras e colocaram dentro de seu casaco vermelho com pedrarias, de bolsos grandes e fundos. Ela mal tinha força para ficar de pé. Com as pedras nos bolsos do casaco que havia ganhado de um cliente da época de prostituição de luxo, foi jogada em alto mar. No fundo do oceano, ela foi devorada por um cardume de peixes, que não jogaram pedras na Geni.

“Ela é um poço de bondade

E é por isso que a cidade

Vive sempre a repetir:

“Joga pedra na Geni!

Joga pedra na Geni!

Ela é feita pra apanhar!

Ela é boa de cuspir!

Ela dá pra qualquer um!

Maldita Geni!”

 

Revisado por Jady Araújo.

 

Imagem de destaque: Monica Belluci, no filme “Malena”, de Giuseppe Tornatore.

SOBRE O AUTOR

Analista de Sistemas por acaso. Um homem, um bicho, uma mulher e talvez a mesa e as cadeiras de um cabaré.