Janelas

cats
Eu estava no terraço da escola de teatro bebendo um suco – intervalo – quando avistei, numa das janelas abertas do prédio à minha direita, a tal moça rebolando o quadril. Era uma peça curiosa e naturalista a ponto de a atriz, que estava absorta em sua rebolância, não perceber que eu estava observando: uma quarta parede de concreto e inquebrável a menos que ela me descobrisse.

Aí eu me pergunto, por que existe o facebook? As janelas são redes sociais que estabelecem uma intimidade muito maior entre observador e observado. Deixá-las abertas expõe a vulnerabilidade do nosso pau mole, como diria Maria Rezende. Portanto, cuidado quando estiver triste. Coma chocolate, leia um livro, pratique sexo… mas nunca olhe pela janela: pode ser o começo do fim da sua privacidade.

Quem nunca presenciou os vizinhos conversando através de uma? Acorda, minha gente, isso é o chat em sua forma mais pura.

Quando assisti a moça rebolando só consegui pensar em Chaplin, e eu não sei por quê! Talvez seja o modo como o quadril se mexia, com menos quadros por segundo do que o normal… Acho que é isso. Um lado da bunda, outro lado da bunda. Um lado da bunda, outro lado da bunda. Quanto mais chamam isso de putaria, mais eu digo que é arte.

Enfim, prolonguei demais e não disse cosia com coisa. Agora me dê licença, por favor, que terminarei meu dia assistindo ao dos outros… À frente de uma escancarada janela.
SOBRE O AUTOR

Escritor e praticante das artes tanto quanto da procrastinação – adiei muitas vezes a escrita deste resumo. Que meus textos sejam carne magra e, as palavras, saídas da medula; é o meu único desejo. Mentira, além disso gostaria de ter superpoderes, mas fica para outra vida... Ah! Eu também estudo teatro: “Ser ou não ser...”