Garota Legal

garota exemplar

Eu sei que eu não sou nenhuma Cinderela. Sei que contos de fadas não existem. Sei que vivo em um mundo onde tudo é muito rápido e a maioria das pessoas são descartáveis. Eu já sou grandinha o suficiente para saber que comédias românticas não são reais, afinal, os únicos filmes baseados em fatos reais tem enredos bem sofridos. Mas não pude deixar de sentir uma raiva absurda ao ver um desses na TV esses dias e ainda mais quando relacionei com o que estava estudando na faculdade.

Durante uma aula de literatura passamos a analisar o clássico português Primo Basílio e entre milhões de análises em seus diversos níveis, o mais básico a ser notado é que a protagonista, Luísa, é uma personagem romântica em um contexto realista (inclusive já fiz um texto sobre isso aqui no literatortura: http://literatortura.com/2015/08/todos-nos-somos-um-pouco-luisa-o-primo-basilio/), ou seja, uma garota terrivelmente tola que se entope de livros românticos achando que a sua vida será como em um deles, por isso ela se entrega totalmente a seu primo, um bonitão que não sente o mesmo, e no final ela morre em prantos enquanto seu amado devia estar roçando na cama de uma coitada qualquer . Pronto, poupei vocês de uma leitura e de diversas análises irritantes para finalmente chegar a questão realmente útil do livro (não me levem a mal, Primo Basílio é um dos meus livros favoritos no mundo, estou apenas sendo prática em uma publicação que não deve se demorar). Luísa é uma garota burra igual a maioria do século XXI.

Eu sempre amei comédias românticas, tipo aquelas que você sabe que os protagonistas vão dar um beijo apaixonado no final ao som de uma música fofa que significa que o filme acabou e você já pode recolher a sua pipoca do chão. Mas eu cresci, e cresci como se deveria crescer e não feito uma Luisa. Eu sei que não existem pedidos de desculpas na minha porta à meia noite, ou longas viagens de avião que atravessam o continente só para que o cara diga que ama a garota, e muito menos buques de flores espontâneos. O mundo aqui fora é uma selva e uma desculpa vem com no máximo um beijo caliente e um sexo de conciliação que te faz virar para o lado e depois e pensar: “sua garota burra, é só isso que você tem”.

O grande problema desse mundo que me fez assim é que talvez eu tenha virado alguém muito pior. Há um livro chamado Garota Exemplar, que foi adaptado para o cinema recentemente, ele conta a história de um casal: Nick e Amy. O livro é dividido entre as partes do diário de Amy e a versão dos fatos de Nick, uma história que gira em torno do fato de Amy ter sumido no dia do 5º aniversário de casamento dos dois e Nick ser o grande suspeito. Em seu diário, Amy relata o quão feliz era sua vida no começo e ai que me veio um incomodo no estômago: a felicidade dela era semelhante com a minha em muitos sentidos, depois vieram as queixas, até o momento que ela admite que durante seu casamento ela passou a interpretar o papel de “garota legal” ( não me venham dizer que isso é um spoiler, está mais que subentendido no trailer e com tantas reviravoltas podem ter certeza que eu não estraguei nada).

Agora, o que é ser a “garota legal”? É aquela garota que você tenta ser antes de admitir ser quem você é. A garota que chora debaixo do cobertor por conta das mancadas de seu parceiro, mas diz entender, diz que não se importa, que não quer virar a chata igual disse a vida toda que a sua mãe era, por isso engole o chora e ao invés de brincar de gato e rato desprezando seu parceiro até ele ver o quão mal ele te fez, ela volta pra ele, “come pizza fria assistindo filmes do Adam Sandler, se mantém magra e faz sexo oral regularmente” igual a própria Amy de Garota Exemplar diz.

Em relação a “Garota legal” eu vou para por aqui, afinal se eu passar a fazer comparações com a Amy vou acabar realmente dando um spoiler. Mas, afinal, quem eu sou? Alguém que viu Cinderela demais? Uma garota que cresceu muito Luísa e com as decepções foi se tornando a “Garota Legal” porque entendeu que nem o melhor casamento do mundo (nem o seu, nem o dos seus pais, nem o daquele casal que está junto desde o colegial) é perfeito? Garota Exemplar é um livro ótimo que me fez entender a linha tênue entre relevar e crescer junto no relacionamento e entrar em uma súbita loucura interior para não perder o que pode um dia ter ( isso me lembra outro texto que escrevi aqui: http://literatortura.com/2016/03/nos-aceitamos-o-amor-que-acreditamos-merecer/ ).

São tantas mulheres, são tantas expectativas… no fundo eu ainda espero receber flores à meia noite, realmente acredito fielmente que minha história será como em um filme com a Julia Roberts. Essa minha esperança é a pior coisa, me mata por dentro um pouco a cada dia, me faz ser a “Garota Legal” até um dia não aguentar mais fingir e explodir, exigir coisas, dizer o quanto cada alfinete fora do lugar ou o fato dele esquecer ou tornar seu aniversário um dia horrível te incomoda, para ouvir assim, ele te chamar de louca. Talvez, desse modo eu passe a agir como louca, como a verdadeira Amy, porque no final nós nos tornamos exatamente aquilo que dizem que somos.

SOBRE O AUTOR

Estudante de letras, 20 anos, gosto desse humor ácido que existe nas coisas, poderia ficar horas escrevendo sobre meus vícios na terceira pessoa, mas por ora, deixo apenas explícito minha paixão pela sétima arte e pela literatura e espero que com elas seja possível melhorar, um pouco que seja, o mundo. E lógico, como todos tenho meus sonhos, talvez virar a próxima J.K. Rowling ou até mesmo seguir os passos de Shakespeare, ou também, ganhar um Oscar, quem sabe...! Hahaha (acho que agora deu para entender a parte do humor ácido, não é mesmo?).