Desisto

fardopesado

Tem fases da vida em que fica insuportável ser a gente mesmo. As costas parecem ceder ao fardo da nossa existência. Só consigo pensar que isso acontece por uma necessidade de mudança. O corpo, a mente e o espírito pedem mudança. E eles têm pressa, murmuram insistentemente em nossos ouvidos e nos colocam em alerta. Não dá para ignorar um pedido desses. E são nesses momentos em que a única coisa a fazer é desistir. Sim, eu desisto. Desisto dos vícios, dos maus hábitos, da inutilidade. Da prostração nervosa e das idéias intrusivas. Desisto de acreditar na não existência de Deus. Desisto de tangenciar estados alternados. Talvez não haja mesmo beleza na loucura. Renuncio a porosidade desse corpo para tanta impureza. Abdico dos discursos prolixos e dos pensamentos circulares. Uma higiene mental. Peguei toda essa sujeira debaixo do tapete e atirei no primeiro caminhão de lixo que vi pela manhã. Também estou confortavelmente de luto. Desisti daqueles que não atingem uma qualidade de presença na vida. Dessa gente de mentira que goza da cara gente como se tudo fosse verdade. De gente que tem vergonha do que é e brinca de ser rei em reinos que só existem em suas cabeças ocas. Pobre gente essa que não consegue ser rei do próprio umbigo. Cansei. E digo: desisti de todos. Hoje me visto de preto. Enterrei todos vocês em um mar de covas e sentei na areia para tomar uma caipirinha. Desistir não é para os fracos. Desistir para resistir.

SOBRE O AUTOR

Cientista Social e atriz que bebe vodka Stanislavski em botecos de quinta. Não é mulher de fino trato e acredita que a graça da vida está sempre nas segundas intenções. Nunca nas primeiras. É dependente e usuária da escrita porque conhece o seu extraordinário efeito terapêutico para todos os males.