A profundidade da amizade entre mulheres pela escritora italiana Elena Ferrante

header24


A amizade feminina encontra-se numa área da literatura, do cinema e de outras formas de expressão como o Triângulo das Bermudas. Sabe-se de sua existência, estuda-se sobre ela – uma vez que a ciência ressaltou diversas vezes seus benefícios –, mas tudo o que ocorre entre duas mulheres que procuram se relacionar sem competitividade, com carinho e cumplicidade, é um território pouco visitado. Não raramente, esse vínculo é tema coadjuvante, mesmo em obras cuja protagonista é uma personagem feminina. As comédias românticas, por exemplo. Temos uma mulher perfeita, com um ótimo cabelo e emprego dos sonhos. Existe seu interesse romântico, e todo o enredo que circunda esses dois seres. É de se esperar, entretanto, que “a amiga” sirva para estar do outro lado da linha e ouvir entusiasmada “o que aconteceu na noite passada”, falar coisas espirituosas e cômicas – sobre essa relação, o romance entre o homem e uma mulher. Esse filme genérico, entretanto, não passaria no teste de Bechdel, um avaliador da representatividade de mulheres em obras cinematográficas de acordo com três fatores:

  1. Nesse filme existem duas personagens femininas?
  2. Que conversam entre si?
  3. Sobre algo que não é um homem ou relacionado a ele?

A simplicidade do teste só evidencia como uma humilde conversa entre mulheres sobre qualquer outra coisa (QUALQUER outra coisa), como carreira, animais ou família está completamente distante do imaginário dos roteiristas. Na literatura, todavia, com a maior expressividade das mulheres, há maior abordagem sobre a complexidade da amizade feminina – que atinge seu ápice na obra de Elena Ferrante, a autora mais misteriosa desse século. Primeiramente, ela utiliza o citado pseudônimo e se recusa a mostrar o rosto, comparecer a premiações e apenas concede entrevistas por e-mail, por intermédio de suas editoras italianas. Possui publicada a coletânea de textos “Crônicas do Mal de Amor” (com crônicas de 1992, 2002 e 2006), o livro infantil “La spiaggia di notte” (2007), o livro (quase) autobiográfico “La frantumaglia” (2003) e, finalmente, a tetralogia napolitana “A amiga genial”, assunto desse texto, cujo primeiro livro foi publicado em 2011 na Itália e em 2015 no Brasil (o único romance da autora no país).

Do que pouco se sabe de Ferrante, se destaca Nápoles, a cidade natal da escritora e palco do relato mais honesto e límpido da amizade feminina, como lido em “A amiga genial”. O prólogo do primeiro romance da tetralogia, intitulado “Apagando os vestígios”, consiste na narradora e personagem Elena Greco, que, após saber do desaparecimento voluntário da melhor amiga Lila e entendê-lo como uma maneira de apagar seu passado, decide relatar toda sua história. O primeiro livro, após o prólogo com gostinho de epílogo, se desenrola com a infância e adolescência de Elena Grego e Lila Cerullo no subúrbio numa Nápoles pós-guerra, onde as famílias são divididas pelas ocupações dos patriarcas (a família do sapateiro, a família do contínuo, a família do confeiteiro, etc).

Nápoles, Itália. 1956

Sob o aguçado olhar de Elena, conhecemos a efervescente Lila, que ainda criança já se destacava pela sua inteligência e pouco filtro. A amizade entre as duas se inicia de modo difícil, como um embate entre habilidades e carisma, se edificando quando o destino decide cruzar suas vivências em momentos significativos – a visita ao apartamento do homem mais temido da vila para resgatar suas bonecas, uma viagem para além do bairro a fim de conhecer o vulcão Vesúvio e a parte populosa da cidade, entre outros. Apesar do complexo começo, Lila e Elena compartilham a paixão pelos estudos de latim, pela leitura e sonhos de riqueza.

“Na época já havia algo que me impedia de abandoná-la. Não a conhecia bem, nunca tínhamos trocado uma palavra, mesmo competindo continuamente entre nós, na classe e fora dela. Mas eu sentia confusamente que, se tivesse fugido com as outras meninas, lhe teria deixado algo de meu que ela nunca mais me devolveria”.

– Página 26, A amiga genial

Durante a adolescência, seus caminhos se divergem – enquanto Elena consegue a oportunidade de continuar seus estudos de ensino fundamental num liceu clássico no centro da cidade, Lila se interessa pelo ofício do pai e decide trabalhar em sua sapataria, desenhando seus próprios modelos e investindo sua energia na manufatura dos mesmos. Seus corpos sofrem com a puberdade: Elena, antes loira com pele de pêssego, ganha curvas, espinhas e um cabelo castanho; Lila, antes magérrima e pouco interessante, obtém muita beleza e começa a ser interesse de metade dos rapazes. A relação de cumplicidade entre ambas, porém, abala-se pouco. Com a mudança de interesses durante adolescência, mulheres sofrem de modo crescente o estigma da competividade que deveria se instalar entre elas.

A construção social pela qual elas passam instiga essa eterna rivalidade, a modo de camuflar a verdadeira beleza entre a amizade feminina e todo seu poder. Em A amiga genial, reconhecemos os bizarros e normais (mas pouco refletidos) dilemas das mulheres: família ou carreira, amizade ou casamento, beleza ou inteligência, puritanismo ou vagabundagem. A insistência dessa dicotomia em metade da população, livre e cheia de sonhos, que limita a vida. Lila, muitas vezes erroneamente vista como “a amiga má” por Elena, demonstra como as expectativas distorcem o verdadeiro entendimento dos fatos. Elena, com sua narrativa extremamente parcial, faz refletir sobre as escolhas que fazemos para apenas parecer – não sentir e saborear. Lila e Elena são mulheres reais. Lila e Elena, cada qual com suas maravilhas, persistiram na honestidade (por vezes, brutal) para desenhar sua união. Trata-se de um ato revolucionário, desde as conversas de comadre aos sonhos dos quais se recusaram a desistir.

SOBRE O AUTOR

INFJ caricata, moradora do Litoral Norte de São Paulo e entusiasta da arte que faz chorar de alegria. Quer escrever, dar aula, ter uma escola e viajar pelo mundo. No momento, tenta apenas imaginar se vai dar tempo.