A prática da vida surrealista: Uma incursão nas entranhas do surrealismo

David Wojnarowicz

“Hoje lhes trago um estupefaciente vindo dos limites da consciência, das fronteiras do abismo… Não duvidem, são os inimigos da ordem que põem em circulação esse filtro do absoluto. Eles o passam secretamente sob os olhos dos guardiães, sob a forma de livros, de poemas. O pretexto anódino da literatura permite-lhes oferecer, por um preço que desafia qualquer concorrência, esse fermento moral, cujo uso já é bem tempo de generalizar… Comprem, comprem a condenação de suas almas, vocês irão enfim se perder, eis aqui a máquina de revirar o espírito. Anuncio ao mundo este acontecimento de primeira grandeza: um novo vício acaba de nascer, uma vertigem a mais é dada ao homem: o Surrealismo, filho do frenesi e da sombra. Entrem, entrem, aqui é que começam os reinos do instantâneo.” ARAGON, Le Paysan de Paris, 1924.

 

David Wojnarowicz - Arthur Rimbaud in New York

David Wojnarowicz – Arthur Rimbaud in New York

 

O surrealismo não está morto, o comportamento surrealista é eterno. Longe de ser apenas um movimento estético, o surrealismo é também político. Arthur Rimbaud é um poeta arquetípico da prática da vida surrealista. Tanto a revolta como a poética de Rimbaud são arquétipos do espírito libertário do surrealismo. O livro Saison en enfer de Rimbaud é caracterizado por Walter Benjamin, filósofo berlinense, como o texto original do movimento surrealista. Pode-se observar a vida do poeta francês como paradigma da prática surrealista, no sentido de que ambos buscam a liberdade. O espírito libertário de Rimbaud pode ser percebido em Mauvais Sang, quando o poeta diz, “Maintenant je suis maudit, j’ai  horreur de la patrie. Le meilleur, c’est un sommeil bien ivre, sur la grève”. O antipatriotismo é uma característica dos espíritos libertários. O patriotismo, segundo Liev Tolstói, pensador libertário, é um princípio que justifica a instrução de indivíduos que cometerão massacres em massa; um comércio que exige um equipamento bem melhor para matar outros homens do que para fabricar gêneros de primeira necessidade, como: sapatos, vestimentas, alimentos. O pai de Arthur Rimbaud, Frédéric Rimbaud, foi um militar que serviu à pátria; a mãe de Arthur, Vitalie Rimbaud, é uma cristã devota, católica fervorosa. Arthur Rimbaud, na contramão, tomou um rumo diferente de seus pais: seu caminho é o da revolta, está contra o patriotismo do pai, e o catolicismo da mãe. Também em Mauvais Sang, Rimbaud diz:

“Prêtres, professeurs, maîtres, vous vous trompez en me livrant à la justice. Je n’ai jamais été de ce peupleci; je n’ai jamais été chrétien; je suis de la race qui chantait dans le supplice; je ne comprends pas les lois; je n’ai pas le sens moral, je suis une brute: vous vous trompez…”

O contundente desejo pela liberdade é o fulgor da poética de Rimbaud. É inimigo da ordem estabelecida, e filtra em si todas formas de sofrimento, de amor, e de loucura, para criar algo totalmente novo. E desta forma chega ao desconhecido. Rimbaud é o mais audacioso dos poetas, sua imaginação trilha os caminhos que ninguém ousou trilhar. Este é o caminho que o surrealismo pretende percorrer, o caminho onde se dissolve o limiar entre o sono e a vigília. Neste sentido, a atividade proposta pelos surrealistas é a de “transformar as estruturas mentais”. Trata-se de uma poética que visa à transformação da visão de mundo de seus espectadores, os escritores surrealistas levaram a vida literária até os limites do possível, entrecruzando a literatura e a vida. O surrealismo cria uma nova poética, uma ética, e uma nova visão de mundo. Isso que Uma temporada no inferno faz com seus leitores (pelo menos foi o que fez comigo): acender a centelha de revolta, chama que é apagada pela sociedade alienante e sufocante em que vivemos. Rimbaud é um poeta que rompe com os valores de sua época, tem relações homoafetivas com Paul Verlaine, sua vida é marcada pela transgressão dos valores cristãos, seus poemas são como um grito de rebeldia contra o realismo baixo de nossa sociedade burguesa. O jovem Rimbaud se destaca desde jovem na poesia, e através de seus poemas é possível ver o teor altamente transgressor e subversivo de seus atos, neste sentido é um inimigo da ordem estabelecida por sua época.

 

David Wojnarowicz

David Wojnarowicz

André Breton foi um escritor francês conhecido por ter pensado e teorizado o surrealismo. Em La Claire Tour, (1951), diz sobre a fusão entre o anarquismo e o surrealismo, mostra que é na tradição anarquista que o surrealismo tem suas raízes: “Onde o surrealismo se reconheceu pela primeira vez, bem antes de se definir a si mesmo e quando era apenas associação livre entre indivíduos rejeitando espontaneamente e em bloco as opressões sociais e morais de seu tempo, foi no negro espelho do anarquismo”. O desejo da liberdade é uma característica tanto dos anarquistas quanto dos surrealistas. E mais, “Os surrealistas viveram então na convicção de que a revolução social ampliada a todos os países não podia deixar de promover um mundo libertário (alguns dizem um mundo surrealista, mas é a mesma coisa)”. O surrealismo é uma tentativa de subversão, de restabelecer a utopia, o amor louco, a loucura, o sonho, e, sobretudo, a revolta adormecida nos homens. O surrealismo é o despertar do melancólico desesperado que clama pela luta, uma melancolia de revolta que aspira à revolução. André Breton escreveu os Manifestos do Surrealismo, e é autor de um clássico livro da literatura francesa surrealista chamado Nadja. No Manifesto de 1924, Breton diz, “Le seul mot de liberté est tout ce qui m’exalte encore.” Certo dia li na pixação de um muro que a revolta é o primeiro exercício da liberdade. Mikhail Bakunin, por seu turno, no início de seu célebre livro Deus e o Estado, aponta que um dos três princípios fundamentais que constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, é a revolta, e que ela corresponde à liberdade. O desejo da liberdade está diretamente relacionado com a necessidade de revoltar-se, a revolta é uma das características centrais do espírito surrealista. Rimbaud é a última palavra da revolta, seus poemas são gritos de resistência, uivos de desespero. A influência do poeta no Surrealismo é nítida. Em Nadja, Breton diz:

o poder de encantação que Rimbaud exercia sobre mim por volta de 1915, e que, desde logo, se substanciou em poemas tais como ‘Devoção’ foi, sem dúvida, naquela época, o que me valeu, um dia em que passeava sozinho

Em uma temporada no inferno, em Délires, há uma fusão do pensamento libertário com a poética. Georges Bataille, em A parte maldita, diz que o autêntico luxo, e o verdadeiro potlach de nossa época, cabem àqueles que desprezam a riqueza, possuem uma grande indiferença, um esplendor arruinado que soa como insulto à laboriosa mentira dos ricos. Emma Goldman, filósofa libertária, diz que prefere rosas em suas mesas do que diamantes em seu colo. Hilda Hilst, poeta brasileira, diz que o poeta não deseja riqueza, não barganha, e sabe que ouro é sangue, que o poeta tem olhos no espírito do homem, no possível infinito. É nítida a semelhança com os seguintes versos de Rimbaud: “Ne me montre jamais de bijoux, je ramperais et me tordrais sur le tapis. Ma richesse, je la voudrais tachée de sang partout. Jamais je travaillerai…”

Quando Vinícius de Moraes disse “O maior de todos é Rimbaud”, sabia do que falava. É difícil pensar em alguém que superou Rimbaud em audácia e imaginação. Eis a prática da vida surrealista: a liberdade, a revolta, o amor louco, a transgressão, o caminho do desconhecido. São esses os elementos essenciais que tecem o pensamento surrealista, e,  como Breton observou, Rimbaud é o grande paradigma da prática da vida surrealista, ou seja, o transe bêbado da revolta.

David Wojnarowicz, artista de New York, retratou um ensaio fotográfico intitulado Rimbaud in New York, cada fotografia do Rimbaud na série New York apresenta uma figura solitária de Wojnarowicz vestindo uma máscara que retrata o rosto do jovem poeta romântico, Arthur Rimbaud, em diversas situações da vida urbana, podendo retratar um pouco da experiência do choque nas multidões e experimentando a embriaguez e iluminações profanas. As fotografias representam um momento muito específico da história, um breve período após Stonewall, mas antes da AIDS. Um período marcado por sexo e drogas. Época em que Manhattan tornou-se dominada pelo dinheiro e pela morte, uma cidade rica e elegante subindo, enquanto toda uma geração de homens homossexuais, usuários de drogas estavam sendo enterrados. Os surrealistas usavam as drogas como propedêutica para uma iluminação profana, na imagem abaixo Wojnarowicz, de forma transgressora, ilustra o espírito audacioso e experimentador de Arthur Rimbaud.

David Wojnarowicz, artista de New York, retratou um ensaio fotográfico intitulado Rimbaud in New York, cada fotografia de Rimbaud apresenta uma figura solitária de Wojnarowicz vestindo uma máscara que retrata o rosto do jovem poeta romântico, em diversas situações da vida urbana, podendo retratar um pouco da experiência do choque nas multidões e experimentando a embriaguez e iluminações profanas. As fotografias representam um momento muito específico da história, um breve período após Stonewall. Um período marcado por sexo e drogas. Época em que Manhattan tornou-se dominada pelo dinheiro e pela morte, uma cidade rica e elegante subindo, enquanto toda uma geração de homens homossexuais, usuários de drogas estavam sendo enterrados. Segundo Walter Benjamin, alguns surrealistas usavam drogas como propedêutica para alcançar aquilo que Benjamin chamou de iluminação profana. Na imagem acima, Wojnarowicz, de forma transgressora, ilustra o espírito audacioso e experimentador de Arthur Rimbaud.

SOBRE O AUTOR

Estudante de filosofia.