A Cova 312

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       Muitos de nós sentem aquela facada no coração ao ouvir pessoas pedindo a volta da ditadura militar, dizendo que quando tinha toque de recolher a juventude não era perdida, gratificando que com os militares era mais seguro. Sim, se para você, que como eu nasceu relativamente na adolescência da democracia, já machuca ouvir isso, imagina para os sobreviventes da tortura? Ah, a menina dos olhos de ouro do AI5, a tortura…

            Muitos se dispuseram a falar sobre ela depois que, teoricamente, o pior já havia passado. Historiadores, jornalistas, sociólogos, sobreviventes, familiares de sobreviventes… Muitos deram voz ao que correu pós 64: por exemplo,em 2012 a família de Vladimir Herzog finalmente recebeu o atestado de óbito verdadeiro, não foi suicídio o motivo de sua morte, foi conseqüência da tortura que sofreu nas dependências do DOI-CODI. Não foi “Brasil, ame-o ou deixe-o”, foi mais “Pai, afasta de mim esse Cálice”. Foi também em 2012 que a Comissão Nacional da Verdade começou seus trabalhos e, para quem quiser se aproximar mais da forte dor que vivemos, leia os relatos que a comissão teve a força de juntar.

            A premiada jornalista Daniela Arbex, autora de Holocausto Brasileiro, depois de anos de matérias e investigações, compilou toda a trajetória de encontrar o corpo de um ex-militante sulista durante a ditadura, seu nome era Milton Soares, um trabalhador jovem, simples e de uma alma absurdamente determinada. Milton foi preso na penitenciária de Linhares em Juiz de Fora (MG), torturado, assassinado e teve sua morte descrita em um suicídio estapafúrdio, onde ele teria se enforcado com um micro pedaço de lençol amarrado em uma torneira de pia aproximadamente a 1,20m do chão, sendo Milton um homem de cerca de 1,80 de altura.

            Em seu livro Cova 312, D.Arbex tem a força de uma brilhante jornalista investigativa, mas o dolo de um ser humano que se toca absurdamente pelas vidas que foram finalizadas pela sede absurda de fascismo dos militares. Não dá para contar a história de um militante sem rodeá-lo com as outras tantas histórias ao seu redor, seus companheiros de planos, de esconderijo, de prisão, suas famílias… as tantas famílias que estiveram com os corações apertados de dor, mas prontos para o auxílio. As histórias emocionam e provocam uma dor muito grande em quem lê, temos o panorama do início das militâncias, suas prisões, as sessões de tortura para treinamento de outros militares, os interrogatórios de dias de maus tratos, os exílios, as mortes, os retornos do exílio, e os não retornos também…

            O livro logo começa com a seguinte dedicatória:

“Este livro é dedicado à memória de todos aqueles que tombaram na luta pela construção de uma sociedade livre e democrática, aos que ainda estão desaparecidos e também aos que sobreviveram à ditadura brasileira, o período mais sombrio do país.As cinzas do tempo jamais vão sepultar a verdade”

 

            Daniela conta o passo a passo para encontrar não apenas o local aonde estava enterrado o corpo de Milton Soares, mas o que aconteceu  e quem foi ele. Sorte que essa história não ficou enterrada em uma cova rasa onde a cegueira forçada de parte da sociedade quer deixar a ditadura, ou fingir que ela não existiu, ou que foi um excelente período para o país, e para essas pessoas eu deixo um recado: se vocês não acham que os crimes cometidos contra a humanidade contam, saibam que a corrupção era absurdamente forte, as ações diplomáticas eram dignas de uma guerra fria e colaboravam com as outras ditaduras latino americanas. Antes de Milton ser encontrado ele fazia parte das centenas de pessoas desaparecidas, e muitas delas ainda estão, apesar de já se ter descoberto inúmeras covas coletivas com ossadas oriundas do período ditatorial. Há ainda mães que partiram sem saber onde estavam seus filhos, ainda existe muita dor e sangue a se respeitar, e jamais deixar de estampar a verdade.

            O livro Cova 312 ajuda a manter essa história latejando, todos os dias… mais uma vez “As cinzas do tempo jamais vão sepultar a verdade”.

            Obrigada, Daniela Arbex, pelo seu jornalismo, e por nos apresentar a história de Milton Soares!

 

Revisado por Carlos Cavalcanti

 

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SOBRE O AUTOR

Da antiga recém criada velha guarda.Amante da atemporal literatura, da boa cerveja, do niilismo...(não! pera...) Saudosista do eterno amor eterno!