Traçando semelhanças entre distopias e a ficção científica

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O presente texto é a tradução de um artigo de opinião escrito por Andrew Milner (Monash University) e publicado originalmente no site The Conversation, não correspondendo necessariamente com a opinião da equipe do Literatortura.

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O futuro, nas ficções científicas num geral, costuma ser apresentado num cenário distópico, como, por exemplo, em Blade Runner, de Ridley Scott, Gattaca de Andrew Niccol e Children of men, de Alfonso Cuarón. Mas por quê?

Uma distopia é um mundo imaginário concebido como um lugar pior do que o nosso; utopias são lugares melhores. Mas muitos mundos da ficção científica não são nem uma coisa nem outra – apenas diferentes.

Um exemplo óbvio é o clássico Star Wars, de George Lucas, que nos apresenta uma história ocorrida há muitos anos numa galáxia distante. Em sua essência, esse universo não é nem pior ou melhor que o nosso, mas certamente tem as suas peculiaridades – no espaço de Lucas, pelo visto, as pessoas podem te ouvir gritar.

Ridley Scott dirigiu outras duas ficções científicas (FCs) além de Blade Runner: Alien e Prometheus, sendo que nenhum deles é de fato uma distopia ou utopia. Esses mundos são uma extensão do nosso, embora tenham melhor desenvolvimento tecnológico e outras diferenças cruciais – formidáveis e hostis espécies alielígenas.

De fato, muitos filmes de FCs se passam em mundos idênticos ao nosso, exceto pela presença de alguma invenção esquisita e seu inventor, geralmente um sujeito excêntrico ou emocionalmente mutilado.

Exemplos notéveis incluem adaptações cinematográficas como:

* Frankstein, de Mary Shelley

* O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson

* A máquina do tempo, de HG Well

Mesmo De volta para o futuro e sua sequência, de Robert Zemeckis, se encaixa bem nesse padrão.

Filmes de FC podem também ser uma boa utopia. O mais famoso filme britânico do gênero dos anos 30, “Daqui a 100 anos”, de William Cameron Menzies, é uma utopia, ao menos em sua resolução.

Exemplos mais contemporâneos certamente incluem os filmes da franquia Star Trek. O universo de Roddenberry – a Federação Unida dos Planetas, a Star Fleet, até a própria USS Enterprise – é indiscutivelmente uma utopia. Trata-se de um cenário em que a inovação tecnológica é efetivamente usada para resolver os problemas da humanidade.

As pessoas viajam pela galáxia usando naves, suas comidas e bebidas são supridas por replicadores, suas fantasias são externalizadas e realizadas por holodecks. Aparentemente, trata-se de uma sociedade sem grandes problemas.

Na Terra, a pobreza, desigualdade e conflitos sociais foram eliminados, ou seja, ambos os gêneros, todas as raças e as muitas orientações sexuais são tratadas como iguais. No restante do universo, a humanidade vive em paz com seus vizinhos aliens e a Federação.

O que se aplica à FC no cinema também se repete na literatura. Novelas de FC num geral também nos apresentam cenários utópicos, a saber:

* Looking Backward, de Edward Bellamy

* Os despossuídos, de Ursula Le Guin

* Pacific Edge, de Kim Stanley Robinson

* A série The Culture, de Iain M. Banks

Há também distopias, obviamente. Por exemplo:

* A Fábrica de robôs, de Karen Capek

  • Nós, de Yevgeny Zamyatin

  • Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

  • 1984, de George Orwell

  • Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

  • O conto da aia, de Margaret Atwood

O mais comum, no entanto, é que elas não se limitem a esses rótulos. Nenhuma das 54 novelas de Julio Verne era uma utopia ou distopia. Dos romances de HG Wells, apenas Nos dias do cometa e Men like Gods são de fato utopias. O primeiro deles – simultaneamente utopia e distopia – foi retirado da coleção Seven Science Fiction Novels, publicada nos EUA.

Em meio a todas essas qualificações e modificações, permanece como verdade o fato de que a FC – e há exemplos interessantes em ambos os meios, literário e cinematográfico – tende mais à distopia. Obviamente, há muitas razões para tal. Contudo, o mais importante a se assinalar aqui é que utopias costumam ser chatas, afinal de contas, nada muito horrível pode acontecer num lugar em que tudo se encontra em ordem.

Escritores de utopias têm utilizado uma gama de recursos para superar esse problema, dentre eles:

* Romances sexuais (Notícias de Lugar nenhum, de William Morris, e Looking Backward, de Edward Bellamy, adotam esse artifício. Ele é utilizado pela vasta maioria das utopias subsequentes)

* A perspectiva distante, de suas extremidades (em Bank’s culture e nos filmes Star Trek a ação acontece nas margens da utopia)

* Ameaças externas à utopia (novamente, os exemplos acima citados)

Mas a persistência dessas estratégias nas utopias para disfarçar o tédio mostra o quão poderoso é esse problema nessa vertente da FC.

Em contrapartida, distopias raramente têm algo de chato, uma vez que seus estoques de bestialidades humanas permanece estranhamente cativante para as nossas pobres sensibilidades pós-apocalípticas. Uma conclusão mórbida, ainda que distopias também tenham algo de bom em seus cernes.

O mais sério dos piores mundos distópicos têm o papel político ou moral de nos alertar contra prováveis tecnologias futuras que terão o seu lado indesejável.

Distopias entram e saem de moda, mas certamente estiveram em voga durante a primeira metade do século XX na Europa – para ser mais pontual, num cenário em que duas guerras terríveis aconteceram, a Depressão de 1929, o Stalinismo e Fascismo. Em suma, tempos em que havia muito para que se advertir contra.

Se as distopias se tornarem novamente uma febre em meio a filmes e literatura, certamente será por que, novamente, teremos muito a refletir sobre o nosso próprio tempo.

SOBRE O AUTOR

Estudante de Letras, atualmente trabalha como tradutor para o Literatortura.