Tempos difíceis: serão os escritores tão valiosos quanto atletas?

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O presente texto é a tradução de um artigo de opinião escrito por Michelle Smith (Deakin University) e publicado originalmente no site The Conversation, não correspondendo necessariamente com a opinião da equipe do Literatortura.

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Quando eu era graduanda em Literatura Inglesa, cursei uma disciplina de escrita criativa. No começo dela, o professor nos explicou que escritores australianos em que nos inspirávamos provavelmente ganhavam com o que escreviam menos do que a gente recebia através da Youth Allowance or Austudy.

Um autor conhecido e respeitado de ficção, nos disseram, vende cerca de cinco mil cópias de um livro, direitos autorais na época estavam entre um ou dois dólares e, para tirar ainda mais o glamour da profissão de escritor de nossas cabeças, ele nos avisou que escritores não costumam publicar livros todo ano.

Rowling pode ser mais rica que a Rainha Elizabeth II graças a Harry Potter, mas um recente estudo feito pela Authors’ Licensing and Collecting Society sugere que a porcentagem de escritores profissionais no Reino Unido capaz de viver de seus livros tem caído gradativamente.

A pesquisa, intitulada “What are words worth now?” (em tradução livre, “Que palavras são valiosas hoje?”), mostra que apenas 11,5% dos quase 2500 autores entrevistados vivem apenas do que escrevem, um número decepcionante, se levamos em conta que ele beirava aos 40% em 2005.

O valor médio que eles receberam em 2013 foi 11 mil libras esterlinas, um número inferior ao valor considerado básico para se ter uma vida mediana, 16850.

Enquanto escrever enriqueceu uns poucos sortudos, royalties têm se tornado mais enxutos, até para autores já firmados no ramo.

Músicos afetados por downloads ilegais encontraram nas turnês maiores uma solução e concordam em fazer lucrativas sessões de meet-and-greet para compensar o prejuízo.

Para escritores, congressos, seminários e o ensino em geral são complementos similares de renda, preferíveis às atividades extras. Alguns autores encontram estabilidade no ensino em universidades, que atraem estudantes que não são dissuadidos pela realidade financeira.

Assim como outras artes criativas, geralmente há pouca simpatia pelo escritor que tanto se esforça para pagar suas contas. Quando realizam um trabalho público interessante, o que ganham é visto como uma recompensa pela renda mínima ou pela ausência de qualquer remuneração.

Durante os últimos anos, sites australianos, incluindo o Mamamia e o The Daily Review, do Crikey, são criticados por falhar em pagar contribuidores, inclusive por um montante simbólico de artigos. Enquanto empresas devem ser rentáveis, não pagar escritores apenas reflete o fato de que, se você não quer escrever, sempre haverá alguém disposto a fazê-lo de graça.

Contudo, nem mesmo pagamentos menores feitos por revistas literárias e alguns sites dão sustento a pais e mães de família. Para cada Bryce Courtenay ou Matthew Reilly e suas grandes vendas internacionais, há muitos escritores australianos que dependem de cônjuges ou outros empregos para continuarem escrevendo.

Os crescentes downloads ilegais de e-books pode potencializar esses números. Muitas pessoas estão se acostumando a ler novos livros de graça, assim como o fazem com filmes e séries.

Concessões esporádicas do Conselho Australiano e prêmios literários provêm assistência a um pequeno número de autores. Entretanto, não há um apoio sistemático ou cursos contínuos para autores da mesma forma que há para atletas do Australian Institute of Sport, por exemplo.

Um programa nacional equivalente para apoiar e mentorear escritores promissores e em circulação pode parecer uma ideia indulgente. Vemos a capacitação de atletas talentosos como uma prioridade nacional, mas não pensamos o mesmo de nossa literatura.

Além dos momentos de orgulho compartilhados quando australianos assistem às Olimpíadas ou aos Jogos do Commonwealth, investimentos públicos em esportistas beneficiam largamente cada breve carreira atlética individual . A escrita, para muitos, contribui para o compartilhamento de cultura e pode deixar-nos um legado duradouro.

Alguns sugerem que, se um escritor é “bom o suficiente”, o mercado os recompensará. Mas não dizemos o mesmo para a maioria dos atletas mantidos pela AIS. Sabemos que um número limitado de atletas tem potencial para ter uma renda significativa e uma pequena proporção deles ganhará remunerações altas.

Mas você não pode produzir um Ian Thorpe sem outros nadadores talentosos ao seu lado. Uma corredora como Cathy Freeman teria sido muito pressionada para se tornar uma campeã mundial por conta própria, sem nenhum tipo de apoio local.

Henry James pontuou que “a flor da arte só desabrocha quando o solo é profundo”. Culturas literárias produtivas, como as esportivas, também necessitam de profundidade para serem saudáveis. Então por que não apoiamos tanto os escritores quanto o fazemos com atletas?

SOBRE O AUTOR

Estudante de Letras, atualmente trabalha como tradutor para o Literatortura.