Quanto vale o quilo da carne… de mulher?! A mulher como sub-produto de mercado

Vitrine-1

 

No cotidiano, os olhos parecem se acostumar com muita facilidade à realidade, da mesma forma que nossas ações acompanham os discursos vigentes sem que haja sobre eles uma reflexão. Assim, seguimos como meros reprodutores ideológicos. Habituados às coisas tal como nos são apresentadas, às vezes precisamos ser chocados para só então compreendermos o que nos rodeia, e é por isso que proponho a reflexão feita no título, sobre o valor do quilo da carne de mulher no mercado. Uma sentença polêmica, que busca deslocar o modo como engrenamos o processo. Não distante das discussões atuais, o objetivo do texto é evidenciar um aspecto contemporâneo que diz muito sobre a condição da mulher no meio social e que nos ajuda a refletir a partir de exemplos concretos, ainda que aparentemente inofensivos, quanto de violência há na condição feminina. Para tanto, foca em um exemplo cotidiano, corriqueiro, que colabora na manutenção de uma condição social. Ou pior: nos diz que no mercado dos homens (espécie), mulher é ser tabulada em preço, transformada em mercadoria.

Você já deve ter assistido a filmes e séries, norte-americanas em geral, em que lindas mulheres chegam a qualquer clube noturno (boates e variáveis), e têm acesso livre, mesmo estando diante de uma fila de dobrar esquinas**. Elas parecem priorizadas, quando elencadas pela beleza, que também é um padrão social, para fazer daquela festa um sucesso. Afinal de contas, qual homem não se interessaria em entrar numa festa com mulheres bonitas, cercado de possibilidades…?! Aqui no Brasil, não é muito diferente. Na minha realidade, as pessoas não costumam esperar em filas para entrar em festas – cidade pequena. Mas, outra forma é comumente utilizada em larga medida: a diferenciação de preços das festas tabelada a partir dos gêneros. E é esta a questão refletida no texto: porque essa diferenciação e como ela camufla uma ideia de benefício?

Para justificar tal condição, existem diversos argumentos utilizados, tais como, por exemplo, justificar preços diferenciados em festas openbar porque mulheres bebem menos que homens. Ou ainda reafirmar a condição do homem como provedor da fêmea, e, portanto, precisando minimizar o impacto em seu orçamento. O rol de desculpas não para por aqui, se deslocando a medida em que novos argumentos surjam… Por outro lado, a rede de ofertas é múltipla: mulheres não pagam ingresso até “x” hora da festa, mulheres tem entrada grátis, mulheres pagam metade do valor do ingresso. Que maravilha, pensam alguns, sem compreender os verdadeiros significados advindos dessa prática: o mercado de carnes.

Em um mundo paralelo, distante do nosso, organizadores estariam pensando:

“- Poxa, as mulheres sofrem consideravelmente com as diferenças em nossa sociedade; imagine só que elas ganham X % menos que os homens executando as mesmas funções. Vamos fazer o seguinte, vamos colocar um preço mais em conta que leve a uma reflexão acerca dessa condição e possibilite as mulheres terem oportunidades iguais de acesso à festa…”.

Mas aí o despertador toca e a realidade é outra, que não só deixa de pensar a mulher enquanto ser desejante, como reforça a ideia de objetificação em torno delas, reafirmando a diferenciação:

“Sujeito A: – Cara, precisamos fazer essa festa bombar!

Sujeito B: – Claro, claro. Vamos botar cerveja barata, porque atrai o povo. Vamos chamar aquela banda que o povo quer ouvir…

Sujeito A: Se liga, cara. Precisamos botar mulher na festa… Taca aí uma promoção daquelas: Mulher só paga depois da meia-noite. A gente arranja meia dúzia das mais gostosas e bota na porta da festa, pra chamar a mulecada.

Sujeito B: Melhor… vamos colocar bebida de graça para as mulheres até a meia noite, que é pra cinderela amolecer o coração quando os caras começarem a chegar.

Sujeito A: Beleza, cara. Vamos botar pra fuder…”

Os dois exemplos acima, claro, são fictícios. Mas até que ponto? Uma festa é uma ação que visa o lucro, na maior parte de seus contextos, e que gera lucro. Torná-la rentável é ampliar a quantidade de ingressos vendidos, de bebida consumida, de gente bonita. Ela precisa ser o point de destaque da galera descolada e do se dar bem. E é claro que as pessoas vão para festas com os mais diversos objetivos, mas, colocá-los no mundo sob essa lógica pré-concebida é inscrever os sujeitos em uma relação de objeto x comprador continuadamente, daquele que caça e daquela que é a caça. Se o objeto proposto é lucrar, por exemplo, o que justificaria abaixar o preço para parte do público, se não a ideia de que aquele público serve de alguma forma como atrativo?

No sentido apresentado, a lógica imposta como habitual e não refletida camufla uma ideia de benefício. Camufla, porque o benefício que seria a redução do valor do ingresso é atravessado pela negação da condição ativa da mulher no meio social. De forma habitual, a lógica da estrutura reforça a condição feminina como ser não desejante, que vai à festa como isca, mercadoria exposta na estante. As relações sociais continuam a tratar a mulher como produto, como corpo a ser consumido, retirando da mulher a condição de ser ativo, independente e pleno de gozo. Assim, o aparente benefício do ingresso mais barato metamorfoseia-se em uma armadilha, qualificando-a e quantificando-a frente ao mercado.

Em tempo, é preciso dizer que tal relação, como qualquer desequilíbrio advindo de uma balança, geram proporções e consequências para a atuação de ambos os gêneros. E que, não só as mulheres arcam com os ecos desse movimento.

** Recentemente o SBT apresentou um programa especial que tratava desta questão, que você pode conferir clicando aqui.

Revisado por Carlos Cavalcanti

SOBRE O AUTOR

"Nada sei desse mar, nado sem saber, de seus peixes, suas perdas, de seu não respirar..." Como diz a canção de Kid Abelha, nada sei desta perda, mas na inconstância deste não saber, tento edificar-me através das palavras. Sei que é um exercício de consciência, e antes de tudo, de sentimento. Enquanto caminho entre as palavras, descubro a razão de ser humano. Gostou do que leu? Curta a página do meu blog pessoal no facebook (Um olhar sobre o tudo e o nada)