Simone de Beauvoir: o amor de uma filósofa feminista

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Existe certa mística associada ao ato de filosofar. Sempre tratando de temas abstratos, aparentemente alheios à realidade imediata, não é difícil que o senso comum conceba o filósofo como uma pessoa estranha, trancafiada em sua casa ou em sua torre de marfim, demonstrando ser tão inútil na vida cotidiana quanto brilhante na intimidade. Isso, contudo, não é mais do que uma grande estupidez. De todos os nomes de filósofos que chegaram até os nossos dias, inclusive aqueles que adquiriram fama por terem se mantido particularmente distantes da esfera pública – fardo odioso que tem que ser carregado por Kant, que apesar de ser obsessivo em sua rotina também era um prodigioso analista sociopolítico -, é difícil encontrar apenas um exemplo que se ajuste a essa visão clássica da profissão. Por quê? Porque apesar de que a filosofia possa ser abstrata, sempre deve remeter a alguma coisa, ao que existe, e para explicar o que existe deve-se conhecer seu objeto antes.

Simone de Beauvoir (1908 – 1986), portanto, é o exemplo clássico desse movimento. Seu ativismo social constante – que a levou a ser a fundadora da Liga do Direito da Mulher -, a fluidez de sua escrita – a qual passa muito longe do obscurantismo que pareciam adoecer outros filósofos próximos a ela, como o próprio Jean-Paul Sartre ou Maurice Merleau-Ponty -, além de sua extensa vida social, às vezes até chegar perto de escândalos para os padrões de sua época, não apenas servem para desmistificar essa imagem absurda que tem o inconsciente coletivo em relação às implicações do ser filósofo, mas também para entender seu pensamento e suas ideias. E o ponto nevrálgico de sua filosofia também é algo que ela experimentaria em sua própria pele: a construção da identidade.

 

 

 

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É possível que todos conheçam o aforismo mais famoso de Beauvoir: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Essa frase, contudo, não se trata de um aforismo propriamente dito. Se seguirmos lendo sua obra mais conhecida, O Segundo Sexo (1949), partindo desse pressuposto, podemos destacar mais à frente que “nenhum destino biológico, psíquico ou econômico define a forma que a fêmea humana adquire no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. Para Beauvoir, portanto, mulher não é quem nasce com ovários, como seu pai tratava de reafirmar desde a sua infância (“esta menina pensa como um homem!”), mas quem é vista como tal. O que significa nada mais que, em termos biológicos, são consideradas socialmente incapazes: a mulher que não tem família é inútil, um trapo, algo que não serve para nada. E, além disso, a mulher que não deseja se casar possui mais dois problemas: ser considerada pela sociedade como menos que mulher (menos ainda do que está abaixo do ser humano padrão, o homem) e ter que preocupar-se com a possibilidade de não ter como se sustentar economicamente no futuro –  já que como é um ser incompleto, também não pode trabalhar fora de casa.

 

Se ao longo da história quase inexistiram casamentos por amor, é porque as mulheres raríssimas vezes tiveram a possibilidade de escolher, de não temer não apenas o ostracismo social, mas a própria chance de não morrer de fome. Em direção a isso, Beauvoir acreditava que o primeiro passo para a libertação da mulher é o trabalho. Aquelas mulheres que puderem ganhar a vida por si mesmas, que sejam capazes de se empoderar mediante o ganho de dinheiro, sem ter que ter medo da possibilidade de ficar sem comida ou teto, terão mais facilidade para tratar os homens e serem tratadas como iguais. Isso significa, portanto, que com a igualdade trabalhista se acaba com o problema? Certamente não. A origem da desigualdade não é crença de que o homem é superior, mas que a mulher é inferior, que entre o macho e o ser castrado, entre o ser completo e o ser incompleto, há algo intermediário, não formado completamente, que seria a mulher. Algo amorfo, útil, repleto de beleza, mas que em nenhum caso é um ser completo e autônomo como é o homem – pensamento que ela procurou dinamitar com sua obra.

 

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Toda essa discussão teórica, contudo, poderia fazer com que algumas pessoas pensassem que Beauvoir deveria ser uma pessoa terrível que se colocava contra o casamento, o amor ou os homens e que, além disso, desejava com todas as suas forças a castração massiva ou a aniquilação total do gênero masculino, mas pelo contrário: além de acreditar que as relações entre pessoas do mesmo sexo deviam ter o mesmo status social das que se davam entre pessoas do sexo oposto –  o que incluía não fazer qualquer distinção de gênero, isto é, não se fechar em preferências sexuais de forma dogática -, era uma firme defensora do amor, ainda que não necessariamente do casamento.

 

 

Mais preconceitos desconstruídos

 

Pensemos em outro preconceito clássico que vai em direção às pessoas dedicadas ao pensamento: o filósofo que nunca consegue formalizar nenhuma relação – ou que, em uma demonstração de egoísmo, acaba morrendo virgem: se temos Kierkegaard para alimentar tal estereótipo, a vida e a obra de Beauvoir trata de desmenti-lo enfaticamente.

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Mesmo tendo passado praticamente toda as suas vidas juntos, Beauvoir e Sartre nunca se casaram oficialmente. Não porque ele não a houvesse pedido, porque ele o fez, ou porque ela não acreditava no casamento, o que não condizia com a realidade, mas porque isso teria mudado radicalmente a natureza da relação que ambos mantinham, já que não é apenas uma mera casualidade que se tenha mencionado acima que suas relações interpessoais eram, muitas vezes, escandalosas para a época. Na relação que ambos construíram sempre foram bem-vindas terceiras pessoas, outros indivíduos para se fazer amizade ou manter relações sexuais sem que surgissem problemas de convivência entre eles. Da mesma forma que se permitiam tomar café ou simplesmente conversar com outras pessoas, também podiam levá-las para a cama. E se isso é um exemplo de como a vida vai empírica e progressivamente marcando o pensamento de cada indivíduo, também estamos diante de um caso particularmente potente em relação ao extremo oposto, ou seja, em relação a como o pensamento pode marcar os modos de vida: seguindo certa terminologia filosófica, Beauvoir considerava sua relação com Sartre necessária, enquanto que todas as suas outras relações eram contingentes. Enquanto ele era o principal, a pessoa mais importante de sua vida depois de si mesma, os demais eram importantes, porém acessórios.

 

Disso, portanto, advém sua visão do amor –  atravessada pelo feminismo, com a busca pela igualdade sempre permeando o seu pensamento, mas em nenhum momento negando a possibilidade de que possa existir esse alguém especial, uma pessoa que jamais se queira fora de sua vida independentemente de quaisquer que sejam as circunstâncias: “No dia em que for possível à mulher amar na totalidade, não na sua fraqueza, não para fugir de si mesma mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal”. Nesse sentido, Beauvoir parecia amar Satre com sua força, nele se encontrava, se afirmava através dele porque ele era necessário, mas isso não a impedia de se permitir a quantas contingências julgasse necessárias e desejasse de verdade – porque isso simplesmente não negava o amor que sentia por ele.

 

 

Essa é a Beauvoir que hoje, 30 anos após a sua morte, gostaríamos de lembrar. Não somente a escritora, a ativista ou a feminista, mas também a pessoa, a filósofa cujo pensamento atravessou toda a sua vida como somente consegue fazer aquele que está iluminado pela própria existência. Porque se alguém, durante o século XX, soube ver mais além, soube libertar-se e criar uma rota de escape para que pudesse alcançar os seus objetivos e sobretudo traçar caminhos possíveis para os demais, essa pessoa certamente foi Simone de Beauvoir.

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SOBRE O AUTOR

Bruno poderia ficar horas escrevendo sobre si mesmo na terceira pessoa do singular. É graduando em Letras pela Unesp/Assis, especialista em divagar sobre o nada, ex-viciado em café e músico de quermesse nas horas vagas. Autor dissimulado & leitor assíduo de bulas de remédio, se dedica quase que integralmente a atividades sem fins lucrativos. Escreve sazonalmente e pretende publicar um sem-número de livros de poesia quando for morar no Uruguai. Niilista declarado, pretende se especializar em dublagem de filmes mudos. Facebook: https://www.facebook.com/bru.know