Para que serve a literatura?

ELARCO

Em certa ocasião, tal como consta nos registros históricos, um repórter perguntou ao grande escritor português José Saramago para que servia a literatura, e o prêmio Nobel respondeu: “A literatura não serve para nada”. E deu graças a Deus (bom, não precisamente ao criador, já que Saramago era ateu, mas agradeceu a algo) por existir, neste mundo tão utilitário, alguma coisa que não possuísse um fim prático.

A pergunta do repórter, contudo, não era particularmente inteligente, tampouco a resposta do escritor. Na verdade, é possível encontrar em outras fontes que um célebre autor norte-americano, outro escritor belga muito famoso e Saramago concordam com a ideia de que a literatura não possui um fim determinado, prático, concreto. José Volpi, por exemplo, estuda a questão. O mexicano, que se empenha em ir contra todos os discursos aceitos pela classe, insiste no fim prático da literatura. Em seu livro de ensaios intitulado Ler a Mente [1], Volpi afirma que, segundo as descobertas mais recentes no campo da neurobiologia e das ciências do conhecimento, é impossível que a literatura tenha sobrevivido tanto tempo como prática da espécie humana sem que sirva para algo. Todos os atos dos seres humanos servem à espécie – isto é, servem ao seu propósito primordial, que é sobreviver e evoluir. Nesse sentido, Volpi afirma que a literatura, que o próprio ato de ler, na realidade é o que nos torna seres humanos.

Volpi também se refere ao livro A Mind So Rare: The Evolution of Human Conciousness, de Merlin Donald, para explicar que um primeiro estado da consciência humana consiste em adquirir um modelo do mundo. Até os pernilongos possuem essa habilidade, que os permite serem capazes de desviar de portas, de pessoas tentando esmaga-los com as mãos e até alcançarem a sua suculenta vitima, repleta de sangue. Em seguida, a segunda habilidade desenvolvida consiste em entender objetos e situações complexas – habilidade que nós, seres humanos, compartilhamos com outros seres vertebrados. Depois, segue-se a “autonomia intelectual do ambiente” graças ao desenvolvimento da memória a curto prazo, que permite relembrar uma ação de cada vez em vez de reagir imediatamente a estímulos que nos cercam. Em seguida, temos o desenvolvimento da inteligência social que, ao que parece, somente os seres humanos e provavelmente as baleias e os golfinhos possuem, o que nos leva a pensar que os outros integrantes da nossa espécie possuem uma vida interior igual a nossa. Por fim, desenvolve-se a “imaginação simbólica”, que é a capacidade de poder viver a partir de uma mente que é formada não apenas por neurônios e moléculas que a compõem, mas também pelas ideias e símbolos que produz.

Roger Bartra denomina como “exocérebro”, em seu livro A Antropologia do Cérebro, essa capacidade humana da imaginação simbólica. Ou seja, a consciência humana também é definida por toda uma série de símbolos, ideias, mitologias e literaturas – sobretudo se entendemos literatura como os mitos da nossa era moderna, tal como definido por Lacan. Tudo o que é imaginado define a mente, a “molda”, é parte de sua matéria. É por isso que ler (ou seja, tomar para si as palavras criadas por outra consciência, ter acesso a um sistema de símbolos que amplia o próprio sistema mediante um contato com memórias e vivências que se somam às próprias) organiza não apenas os modos que temos de pensar, mas a forma como estruturamos nossa própria mente.

Quando lemos literatura (não informação, nem dados concretos, mas literatura – ou seja, textos que partem da consciência de outro ser de nossa espécie para reconfigurar a nossa), nossa mente guarda as lembranças de Emma Bovary como se fossem nossas (“Madame Bovary, c’est moi”), revive as aventuras de Jim ao escapar da Ilha do Tesouro, analisa e sofre as dores da culpa e as intermináveis justificativas que levaram o estudante Razkolnikov a cometer um crime. Assim trabalha nossa mente, imitando outras vidas, armazenando memórias próprias e de outros, aprendendo a partir do jogo que é a vida e de outro jogo que é o simulacro de viver que nos é apresentado pela literatura. É uma forma de ser (não de falar de ou com) o outro, de possuir uma mesma consciência conectada com o todo (ou boa parte do todo de nossa espécie).

Contudo, esse sonho de conexão com a consciência coletiva é real?

No obra Uma História da Leitura [3], o escritor argentino Alberto Manguel afirma que nós, da espécie humana, somos seres que leem. Ler é, no sentido mais básico, interpretar signos. O pescador lê quando coloca sua mão na água e sente a força da correnteza. O astrônomo lê as estrelas, e o astrólogo lê nosso futuro inscrito nelas. O profeta lê olhando as vísceras do cordeiro sacrificado. As mulheres leem seus próprios corpos para saber se estão próximas de seu período fértil. Lemos o clima, os gestos, as palavras. Lemos para nos localizar no mundo, para nos proteger dele, e também para direcionar nossos atos.

Mas então, dirão os mais incrédulos, se existem tantos tipos de leitura e, por fim, tantas maneiras de obter informação e conhecimento, para que ler livros? Por apenas uma razão, única e insubstituível: ao ler, temos acesso a muitas leituras através de olhos diferentes dos nossos. Temos acesso a milhares de experiências através de sentidos e circunstâncias que nos ultrapassam, que nos amplificam. Ler é como viver a vida de outro por um instante e vê-lo decifrando os signos do mundo que o rodeia. Ler é acessar a experiência do outro – seja um correspondente de guerra, um poeta da corte do rei Luis XV, um sábio e astrônomo de Chilam Balam, uma escritora lésbica do período de entreguerras em Paris ou uma freira mística do barroco mexicano. Ler é uma espécie de reencarnação. Quem lê pode ser outro, aprender modelos e padrões através dos olhos dos outros companheiros de espécie. Ler é ter acesso a outros tipos de consciência. Ou seja, quem lê tem acesso a maiores modelos e versões do mundo do que quem não lê, conhece melhor seu entorno e sobrevive melhor, já que pode fazer uso de ferramentas as mais diversas para encarar os problemas (de sobrevivência) que lhe são apresentados. E sente mais do que os demais. Desculpem, mas é a verdade. A leitura cria cumplicidade. Educa um tipo de sensibilidade e a vai levando ao desenvolvimento de uma espécie de individualidade queer.

 Neste ponto, contudo, nos colocamos diante do antigo dilema, e surge o grande problema e a grande promessa que consiste a leitura. Para que o ato de ler funcione e se dê efetivamente, deve haver curiosidade. Deve existir um leitor curioso, como aquele que pedia Cortázar: um leitor cúmplice. Os livros funcionam apenas com pessoas curiosas, não com pessoas medrosas. Só florescem entre indivíduos e culturas que não estão totalmente satisfeitos com seu mundo, com suas experiências, com os prazeres fáceis que conhecem, que têm à mão, e entre os que se atrevem a desejar outra coisa, a buscar algo mais. Ler é para os inconformados – para pessoas que sabem, ou melhor, que intuem que existe algo além da mera experiência “pessoal” ou “aceita”. Ler é para pessoas que querem pertencer a um mundo muito maior do que aquele que conhecem, e que não temem inteiramente o desconhecido.

Mas, para que pertencer a um mundo maior do que o próprio? Talvez não seja suficiente vê-lo pela televisão, pela internet?

Em um ensaio intitulado Diante da Dor dos Outros, a escritora judia Susan Sontag revela uma das verdades mais potentes da nossa era: ver não é a mesma coisa que viver. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. O “ver” (ou, para os efeitos de seu ensaio, o consumir – para colocar em pós-modernês avançado) supõe uma distância que aliena aquele que observa do ato observado. Ter acesso a informações, através da TV ou da internet, dos bombardeios na Faixa de Gaza, não é a mesma coisa do que viver lá, esperando que uma bomba exploda e te parta em pedaços. Nesse sentido, ler tampouco é o mesmo que viver – mas também, menos ainda, ler informação (144 caracteres do Twitter, por exemplo) é o mesmo que ler literatura. Stalin afirmou em certa ocasião: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, mera estatística”. Ou seja, quando um acontecimento mexe com a consciência de alguém, torna-se real, mas quando um acontecimento não passa de um dado, se torna parte “objetiva” do conhecimento. Converte-se em informação, mas não comove. Não consegue traduzir o “qualia”, isto é: a experiência de estar vivo e de interagir com o real.

Os livros (sobretudo os literários) não disseminam informação, nem são necessariamente fiéis à objetividade. Pelo contrário: fazem desaparecer a imagem ou o número – esses entes que comunicam os fatos puros, sem nenhuma mediação da consciência. Com isso, a literatura busca justamente o contrário de informar: coloca o leitor em contato com a consciência de outros indivíduos e de outros povos. Faz com que tais aspectos sejam revividos, utilizando experiências próprias para poder compreender as experiências dos outros. Ou seja, a experiência narrada literariamente (que é diferente do consumo de dados, de informações) não é outra coisa senão uma armadilha, uma forma de conduzir o leitor para fora de si para que ele se volte para dentro de si, em uma viagem de ida e volta para alcançar a si mesmo – ou melhor, um eu modificado. Como já foi dito antes, ler é uma espécie de reencarnação.

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti dizia que “a literatura é uma forma de mentir bem a verdade”. Durante anos fiquei pensando sobre esse paradoxo de Onetti, até que me deparei com a resposta escrevendo um livro de ensaios. A literatura é uma forma de mentir bem a verdade, porque os escritores (e os leitores) acabam a anulando a mentira que é a ficção mediante a identificação. Isso pode ser explicado melhor em inglês com o termo “suspension of disbelief”, isto é, uma espécie de acordo tácito entre leitor e livro quando se lê. Quem lê sabe que está lendo uma mentira, mas ignora esse fato para adentrar no mundo descrito pelo romance ou pelo conto, caminhar por ele, poder “apreendê-lo”, colocar-se no lugar do protagonista. Dessa forma podemos vivê-lo. Somente se o livro foi bem escrito, apenas se a “mentira” que é o romance ou o conto foi bem construída, conseguimos não lembrar que se trata de uma mentira, que se aproxima intensamente da realidade, à verdade dessa realidade.

É como uma espécie de amor.

Todos os livros são um simulacro da realidade. Contudo, e disso temos consciência, tudo o que vivemos é um simulacro da realidade. Ou, como argumentaria Manguel: para viver, devemos ler a realidade, interpretá-la. A realidade, ao menos para os seres humanos, não existe sem uma interpretação, ou seja, sem a reconstrução da experiência que é enfrentá-la. Vivemos em um mundo o qual só temos acesso por meio de nossa mente e de suas “leituras” do todo.

Por isso, o que argumentava o escritor mexicano Octavio Paz acerca da leitura não deixa de ser uma grande verdade: “Cada leitor busca algo no poema. E não é estranho que o encontre: já o levava dentro de si” [5].

Tudo já está em nosso cérebro, e a literatura é um estímulo para que isso possa emergir à superfície, para que possamos aprender novos modelos de organizar a realidade que já vive dentro de nós mesmos.

Mas sem a curiosidade impertinente, sem esse leitor que quer aprender coisas – até as que podem machucá-lo –, não ocorre o milagre da leitura.

 

NOTAS:

 

[1] VOLPI, Jorge. Leer la mente: el cérebro y el arte de la ficcion. Madrid: Alfaguara, 2011, 168 p. [ainda não traduzido para o português]

[2] DONALD, Merlin. A Mind So Rare: The Evolution of Huaman Conciousness. New York: Norton Paperbacks, 2002, 365 p. [ainda não traduzido para o português]

[3] MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, 408 p. Tradução: Pedro Maia Soares.

[4] SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

[5] PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, 330 p. Tradução: Olga Savary.

[Este ensaio é de autoria de Mayra Santos-Febres, e foi traduzido e adaptado pelo autor deste post diretamente do espanhol. A publicação original pode ser lida aqui].

SOBRE O AUTOR

Bruno poderia ficar horas escrevendo sobre si mesmo na terceira pessoa do singular. É graduando em Letras pela Unesp/Assis, especialista em divagar sobre o nada, ex-viciado em café e músico de quermesse nas horas vagas. Autor dissimulado & leitor assíduo de bulas de remédio, se dedica quase que integralmente a atividades sem fins lucrativos. Escreve sazonalmente e pretende publicar um sem-número de livros de poesia quando for morar no Uruguai. Niilista declarado, pretende se especializar em dublagem de filmes mudos. Facebook: https://www.facebook.com/bru.know