Charity Events – sobre o narcisismo da estiqueta

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Subia demoradamente o vidro, exaurindo aquele indistinto som elétrico, tanto em sua ascendência como em sua decadência. Zip… Zip.. Não queria estar ali. Maldita filha que tenho, a muito me atormenta para sair de casa. Fato tão desgostoso para nosso rabugento protagonista quanto lhe fora o solitário exame de próstata, há algumas décadas atrás. Era, de fato, velho.

O trânsito estava estacionado, e estacionado, pois, estava o megalomaníaco utilitário importado em que se encontravam papai e filhinha. Margareth, no banco de couro creme do motorista, segurava a cabeça enquanto apoiava o braço na porta, não mais aguentando essa odisseia a caminho do evento beneficente. “É pra ajudar as pessoas”, mimimizou a maldita amiga que lhe havia vendido os ingressos. Inconformava-se com o estado de espírito de seu pictórico patriarca. Barba por fazer há dias, caracterizava uma rala penugem branca. Cabelo despenteado, confundindo-o com os lunáticos de seu consultório psicológico. E aquele roupão cinza que sempre usava, lhe causa ataques histéricos, apenas apaziguados por seu rivotril e cigarros. Mas em especial, nesse comemorativo dia, ele preferiu traduzir um pouco mais de personalidade em seu estilo sutil, havia colocado pantufas do coelho “fifi”, tão meigas e fofas quanto o nome pode denotar. Pretendia com esse criativo empenho, repetir a cena de sua filha arrancando os belos cabelos dourados, em meio ao jantar que ela realizava, ao vislumbrar nosso indecente personagem despir-se pelancolicamente para os convidados. Afinal, há essa altura da vida, fingir demência lhe proporcionava boas risadas, e ao seu paladar, por vezes, não agradava os comprimidos.

– Papai, tem como parar com isso? Secamente suplicou, após inúmeros empenhos de aumentar o volume do radio.

Zip… Zip…

– Velho impertinente, bufou em um balbuciado sopro, enquanto olhava com os cantos dos olhos para o pai. Se essas palavras fossem distintas por aquelas opulentas orelhas, não teria descanso por todo o dia.

Zip… Zip…

Similar ao jabuti na anedota da lebre, os veículos fluíam tão demoradamente quanto o quelônio vencedor. Todavia, em umas dessas descompassadas aceleradas, e entre elevações e descenções do vidro, dissolveu-se, no gélido ar do carro, nostálgicas palavras. Mãe eu quero, mamãe e. Zip… Zip… Mamar, dá a chupe. Zip…Zip… Na calçada ao lado do carro, o velho observou, após arriscar algumas olhadas curiosas com notas de irritação, um quarteto de músicos cor de chocolate e enrugados logo abaixo de uma via. O do trombone de vara era esguio e alto como o próprio instrumento, boina azulada e olhos cerrados ao sopro bochechado, o que lhe enrubescia a face. Já o cúmplice ao seu lado esquerdo, acariciava o bandolim além de entusiasmar-se como primeiro vocal, era gordo e baixo, enquanto detentor de uma singela barba de algodão doce; sua boina era o ortodoxo nude. Um pouco mais ao leste, atrás de uns escuros óculos de sol perpendiculares, o colorido xilofone exibia seu hermético som açucarado; além de ostentar uma lustrosa careca. Por fim, obviamente que se harmonizava um lustroso trompete, donde a santíssima trina: seu-vizinho, pai-de-todos e fura-bolo revezavam-se tropicalmente por um elegante negro; no mata-piolho se destacava um grosso anel prateado. Vale ainda ressaltar que o quarteto trajava uma alva camiseta de marshmallow.

– Odeio essas marchinhas irritantes, sustenia o mal-amado senhor.

– Papai, não seja tão ranzinza…

Zip…Zip…

A muito me agrada contar que nosso personagem fora quase estapeado pela mulher, que apenas resistiu à tentação, pois havia feito as unhas nessa manhã ensolarada de quinta. Radar reportado à frente, silabicamente importunou Zumira, como carinhosamente Margareth apelidou a voz do Waze, mesmo nome de sua empregada; para facilitar as coisas. Era, digamos, uma mulher prática, arrogante e plastificada, com uma larga boca vermelha, além de bastante magra e mimada, com seus 44 anos, como copiosamente ludibriava quem lhe indagasse. Por fim, era desquitada.

– Essa merda de prefeito que fica colocando radar em tudo. Vai taxar a mãe!

Esse foi o pano da manga que faltava; o velho disparou incontáveis resmungos contra a filha; Assemelhava-se a uma metralhadora no desembarque da Normandia. Pobre mulher. Deveria ter lhe estapeado enquanto ele ainda estava calado, pensava com saudosismo, ao espremer entre os dedos o volante.

– Sua elitista, homofóbica, misógina, racista, xenofóbica e além de tudo, péssima profissional.

– Você só sabe repetir isso, velho chato. Sempre trabalhei como bastante ética e emp…

– Agora você quer falar de ética? E qual a ética que a você teve quando me contou que sua mãe estava me traindo? Por causa disso eu agora estou preso nessa cadeira de rodas. A minha mulher me atropelou quando eu a vi saindo do Motel!

– Muito merecido. Pena que aconteceu há tempos… O senhor está precisando de uns novos tabefes.

Toc… Toc…

– Mas você traia seu marido também, hipócrita! Choramingou.

Toc… Toc…

– Já não pedi pra parar com esse barulho, seu decrépito petulante.

– Decrépito petulante é sua bunda murcha! E não sou eu quem está fazendo esse ruído.

Toc… Toc…

Com o alvoroço todo e os berros ásperos do polido senhor, nenhum dos dois divisou o sujo moleque ao lado do vidro do motorista. De supetão ambos olharam assustados, poderia ser um assaltante. Margareth delicadamente travou a porta com o máximo circunspecto trêmulo possível. Toc…Toc… E a cada empenhada do garoto contra o espesso vidro traduzia um gélido arrepio que subia a espinha, tanto da mulher como, também, de nosso protagonista. Empavidesceram-se.

– Vamos dar tudo que temos, quem sabe ele não nos deixa com vida. Sussurrou Margareth com o canto da boca.

O que na verdade a querida filha desejava era que o pirralho, se fosse para matar um, que escolhesse seu amado pai. Eu sou tão nova, tenho tanta coisa para fazer ainda pela frente, orava para si mesma, enquanto pegava a bolsa para entregar ao menor infrator. Seu coração amargo palpitava, afinal, era uma Prada. Além do mais, com a crise que se encontrava o país, talvez não pudesse comprar outra tão cara. Isso lhe machucava em seu profundo íntimo, mais do que a fome ao molestar o maltrapido guri. O velho, ao seu lado, nada fazia além da sua frígida cara de apático.

Com toda a calma que podia arrebatar com as respirações profundas que seu psicólogo havia recomendado, vibrou o botão do vidro. Zip…

– Aah, agora você pode fazer essa onomatopeia endemoninhada!

– Cale a boca, velho impertinente, bufou em sussurros de Botox, injeções estas que coagiram a maioria de suas expressões faciais.

– Tia, qué drópis?

– Há merda moleque!

Zip…

– Sua elitista, homofóbica, misógina, racista, xenofóbica e além de tudo, péssima ser humano.

Jogou as pupilas para o alto, obviamente não enrugou a testa. Om Mani Padme Hum, repetia em sua mente conforme seu guia espiritual a havia vendido. Era daquelas ricas exotéricas.

Tùlio Santos

Revisado por Juliana Skalkis

SOBRE O AUTOR

Apreciador de uma vida boêmia, nada mais que um hedonista. Ensaísta exagerado, tenta captar a própria realidade de modo real, ou para alguns, de maneira suja. Graduando em Direito na Unesp. Ademais, admirador de um bom humor.