11 mulheres substanciais na literatura latino-americana

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Quando se tratando da literatura latino-americana, não faltam grandiosidades. Apenas no século XX podemos citar Gabriel García Marquez, Mario Vargas Llosa, Júlio Cortazar, Jorge Luis Borges, Roberto Bolaño, Eduardo Galeano, Carlos Fuentes, etc. – isso se deixarmos de incluir nossos compatriotas na longa lista, esses que tanto adicionaram à literatura mundial. Entretanto, ao analisarmos a maneira que os latino-americanos são prezados pelo cenário literário, há carência de conhecimento e visibilidade de escritoras e poetisas, destacando-se, em média, três ou quatro nomes em listas de vinte autores (Clarice Lispector, Gabriela Mistral e Isabel Allende são os mais presentes).

A América Latina, em toda sua pluralidade cultural, religiosa e étnica, não falha em transmitir tal heterogeneidade à sua literatura. Em razão disso, e por um viés mais abrangente de países que se assemelham tanto em seu passado colonizado, criamos uma lista ressaltando escritoras latino-americanas que merecem ser lidas por todo o mundo. No mais, o objetivo é desmantelar o conceito de “literatura feminina” e os estigmas que o circulam para apresentar a literatura feita por mulheres em toda sua diversidade.

1 – Sóror Juana Inés de La Cruz (1651 – 1695) – México

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Nascida em San Miguel Nepantla, no México, Juana Inés de La Cruz foi uma poetisa e dramaturga que viveu a maior parte de sua vida num convento para compor sua obra literária. Autodidata, aprendeu o português e o latim sozinha, além de ler clássicos gregos e romanos na biblioteca de seu avô desde muito cedo. Chegou a ponderar frequentar a universidade fingindo ser um homem, entretanto, decidiu tornar-se monja para evitar um iminente escândalo.

Sempre defensora do direito das mulheres, principalmente de suas capacidades intelectuais, chegou a escrever uma resposta ao bispo Manuel Fernández de Santa Cruz que culminou numa desavença teológica com alguns setores da igreja. Atualmente, é tida como a “Fênix Mexicana” e a primeira feminista das Américas. A tradução oficial de sua obra poética ainda não foi realizada, mas pode-se encontrar alguns de seus poemas no português no apanhado realizado pelo blog Banco da Poesia, neste link. Segue abaixo uma das traduções realizadas pelo site:

HOMENS NÉSCIOS

Argui como inconsequentes o gosto
e a censura dos homens que
nas mulheres acusam o que causam.

Homens néscios que acusais
à mulher sem ter razão,
sem ver que sois a ocasião
do mesmo que vós culpais:

se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
por que quereis que obrem bem
se as incitais sempre ao mal?

Combateis sua resistência
e logo com gravidade
dizeis que foi leviandade
o que fez a diligência. […]

2- Maria Firmina dos Reis (1825 – 1917) – Brasil

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Nascida em São Luís, no Maranhão, Maria Firmina dos Reis é considerada a primeira romancista brasileira e autora do primeiro romance abolicionista do país. Maria, de raízes negras, em “Úrsula” consegue levar a condição dos negros durante o século XIX pré-abolição para a literatura. Foi a pioneira da literatura afro-brasileira e responsável por apresentar uma obra que trata da questão abolicionista sob a perspectiva da pessoa negra, desconstruindo a literatura com as visões masculinas e etnocêntricas da época.

3 – Clorinda Matto de Turner (1852 – 1909) – Peru

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Considerada a precursora do movimento indigenista no Peru, Turner escreve “Aves sin nido” (“Aves sem ninho”, em tradução livre, 1889) para tratar das opressões sofridas pelos índios e pelas corrupções cometidas pelas autoridades. Suas personagens femininas são principais no romance, sendo defensoras da justiça e transgredindo o discurso patriarcal e caucasiano no século XIX. Sendo assim, o livro apresenta dois embates centrais: os índios versus os brancos e as mulheres versus os homens para o desenvolvimento de políticas mais justas.

4 – Alfonsina Storni (1892 – 1938) – Argentina

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Poetisa argentina e uma das maiores vozes da literatura argentina na primeira metade do século XX, Alfonsina Storni também escreveu prosa, peças teatrais e ensaios. A vida da poetisa foi marcada por dificuldades, desde financeiras – trabalhou para o sustento da família como costureira, operária, atriz e professora –como abalos na saúde, descobrindo um câncer de mama em 1935. Seu melhor amigo, o também poeta Horácio Quiroga, cometeu suicídio, o que motivou o seu próprio um ano mais tarde, 1938. Storni tinha apenas 46 e deixou uma obra poética extremamente relevante para a literatura argentina. Seguem alguns poemas traduzidos por Vássia Silveira:

DOCE TORTURA

Poeira de ouro em tuas mãos foi minha melancolia;
Em tuas mãos compridas esparramei minha vida;
Minhas doçuras às tuas mãos ficaram presas;
Agora sou uma ânfora de perfumes vazia.

Quanta doce tortura quietamente sofrida,
Quando, ferida a alma de tristeza sombria,
Ciente de enganos, eu passava os dias
Beijando as duas mãos que me sugavam a vida!

QUADRADOS E ÂNGULOS

Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados.
Casas enfileiradas.
O povo já tem a alma quadrada,
Ideias em fila
E ângulo nas costas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada!

5 – Patrícia “Pagu” Galvão (1910 – 1962) – Brasil

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Militante do partido comunista brasileira e a primeira mulher a ser presa no país por motivos políticos, Pagu também era considerada musa do movimento modernista. Ao longo de sua vida foram mais 23 prisões, a mais longa delas perdurando por 5 anos. Foi escritora, poeta, tradutora, jornalista, desenhista, e, principalmente, uma militante comunista. Seu romance “Parque Industrial” foi publicado sob o pseudônimo de Mara Lobo e o primeiro romance proletário da literatura brasileira, onde trata os excluídos da sociedade paulistana e a desigualdade na metrópole.

6 – María Luisa Bombal (1910 – 1980) – Chile

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Escritora chilena de Viña del Mar, Bombal tem como romance de estreia “A última névoa”, publicado em 1935 em Buenos Aires, onde disseca a clausura da mulher em seu casamento e a tentativa de escapar dessa realidade por meio de seu mundo interno. Sua obra, relativamente breve, trata com ironia a sociedade moderna.

7 – Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) – Brasil

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Nascida em Sacramento, Minas Gerais, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros, Carolina Maria de Jesus deixou a escola muito cedo mas sabia ler e escrever. Após a morte da mãe, migrou para São Paulo, onde viveu na favela do Canindé e trabalhava como catadora de lixo. Construiu sua própria casa com papelão, madeira, lata, tudo retirado do lixo – onde também encontrava folhas e cadernos para escrever relatos sobre a vida na favela. Esses testemunhos foram coletivizados para a publicação do livro “Quarto de Despejo”, obra principal da autora. Teve quatro livros publicados em vida e outros quatro postumamente.

A ROSA

Eu sou a flor mais formosa

Disse a rosa

Vaidosa!

Sou a musa do poeta.

Por todos su contemplada

E adorada.

A rainha predileta.

São perfumadas

Minhas pétalas aveludadas

E acariciadas.

Que aroma rescendente:

Para que me serve esta essência,

Se a existência

Não me é concernente…

Quando surgem as rajadas

Sou desfolhada

Espalhada

Minha vida é um segundo.

Transitivo é meu viver

De ser…

A flor rainha do mundo.

8 – Elena Garro (1916 – 1998) – México

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Considerada por alguns a precursora do realismo mágico com o romance “Los recuerdos del porvenir” (“Memórias do futuro”, em tradução livre, publicado quatro anos antes de Gabriel García Marquez e seu “Cem anos de solidão”, Garro viveu grande parte de sua carreira à sombra do marido Octavio Paz, vencedor do Nobel de Literatura em 1990. Além de escritora, foi poeta e dramaturga, considerada no México um símbolo libertário. Em “Los recuerdos del porvenir”, a autora mesclou política com um olhar fantástico para abordar a Guerra Cristera no México, não deixando de lado sua oposição tenaz ao governo e ao poder patriarcal do estado – e do marido.

9 – Rosario Castellanos (1925 – 1974) – México

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Rosario Castellanos nasceu na Cidade do México e fez licenciatura e mestrado em Filosofia, servindo também como embaixadora do México em Israel. Escritora e poeta mexicana, Castellanos foi uma das principais vozes na literatura pós-guerra. Sua obra antológica “Poesía no eres tu” (“Poesia não é você”, em tradução livre) reuniu seus poemas escritos entre 1948 e 1971 e, portanto, a maior parte de sua produção. Para abordar a questão da mulher no México, a autora escreveu a peça “O eterno feminino”, onde a personagem central, Lupita, em sonho, conhece figuras femininas do país (dentre elas, Sóror Juana Inés) e se converte nelas ao usar suas perucas.

10 – Elena Poniatowska (1932 -) – México

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Com mais de vinte livros publicados, a escritora mexicana apresenta uma gama variada de personagens, dos quais se destacam as mulheres. Aventurou-se por diversos gêneros literários, distinguindo-se a literatura testemunhal. Sua obra mais conhecida, “Hasta no verte Jesús Mío”, nasceu após ouvir uma lavadeira gritar do alto de um prédio na Cidade do México e decidir conhecê-la, entrevistando-a todas quartas-feiras. Constrói, desse modo, a história de Jesusa Palancares, uma mulher de Oaxaca que lutou na Revolução Mexicana e precisa trabalhar como lavadeira, emprega doméstica e médium, uma das personagens mais importantes da literatura de seu país. Entre outras obras da autora vencedora do prêmio Miguel de Cervantes, destacam-se “A pele do céu”, “A flor de lis” e “A noite de Tlatelolco”.

11 – Samanta Schweblin (1978 -) – Argentina

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Já recebendo o título de “herdeira da literatura de realismo fantástico” e “dama da nova literatura argentina”, Samanta Schweblin recusa os rótulos. Seu livro de contos “Pássaros na boca”, a ser publicado no Brasil, fez a autora ser considerada a sucessora de seu conterrâneo Julio Cortázar, entretanto, afirma que o aparentemente fantástico mundo de seus contos não deixa de ser apenas uma realidade perturbadora.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

INFJ caricata, moradora do Litoral Norte de São Paulo e entusiasta da arte que faz chorar de alegria. Quer escrever, dar aula, ter uma escola e viajar pelo mundo. No momento, tenta apenas imaginar se vai dar tempo.