Crônica: O tédio além de todas as dores

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Há algo de extremamente atrativo na autodestruição. Vejo minhas mãos tremerem enquanto tento acender o cigarro que prendo nos lábios. Os cigarros sempre me acompanhavam, melhores amigos dos momentos mais negros. Inalar o veneno me relaxava por garantir minha mortalidade da forma mais explícita. Eu quase podia enxergar meus pulmões negros num raio X de uma memória que sequer havia acontecido. Coloco o último disco do Bowie – aquele póstumo que não foi póstumo – e reflito sobre o presente. Tudo está muito bem. Bem demais, obrigada. Quando você tem transtorno de ansiedade generalizada isso é fim da picada. Você sabe que alguma bomba está para explodir. Às vezes você até acorda pensando – puxa, hoje vou acabar brigando com alguém. E não dá outra: palavras entoadas de forma enfática e desnecessária. Depois volta a ficar tudo bem. Mas o caos precisa existir para quebrar o marasmo. A tempestade no oceano que alça as velas. A asa da borboleta. O tédio sempre me alcançou com uma facilidade tremenda. Não é como se eu não corresse dele, mas ele parece ser mais rápido. E convenhamos, não há nada pior que o tédio. Um pouco de tristeza dá para aguentar. Um pouco de dor – daquelas de bater o dedão na ponta do móvel da sala – até vai. Mas não me deixe sentir esse tal de tédio. Além de corrosivo, o tédio tem a capacidade de invadir suas memórias e tirar tudo o que há de mais sagrado nelas. Quando você se dá conta está cantarolando everyday is exactly the same do Nine Inch Nails enquanto lava a louça como um robô programado para existir naquele momento, naquela hora, cantando aquela música. Você pode até tentar quebrar essa rotina e se convencer de que não é um ser pré-programado fazendo uma pequena dança inusitada na cozinha – ou no meio da sala. Você faz de tudo para se provar que suas escolhas são suas. Tudo mesmo. Você até pensa mais do que deveria sobre sua rotina. Até escreve a respeito. Você acorda, faz xixi, escova os dentes, se arruma para o trabalho e, como sempre, quase tropeça na escada porque ainda está com os olhos manchados de sono. No ônibus você percebe que todos estão no mesmo barco. Todos esperam que algo incrível aconteça. Pode ser até um acidente. Qualquer coisa, qualquer coisinha para fazer o sangue correr um pouco mais rápido. Alguém tropeçando, um barulho de freio… Fugir desse modo Show de Truman. A minha adolescência toda foi assim – a grande espera. Minhas amigas riam porque eu ia para o mesmo bar todos os fins de semana à espera de um milagre. Lá estava eu, provavelmente com a mesma roupa da semana anterior – ou variações, com a mesma bebida, o mesmo Lucky Strike (it’s toasted!), acreditando que a natureza me abençoaria com a visão de algo sobrenatural. Torcendo para que um alienígena estacionasse em frente ao bar e viesse até mim. Porque eu era especial, certo? Eu tinha de ser especial. Mesmo que para tanto eu fosse considerada louca. A definição de loucura não é repetir a mesma coisa e aguardar resultados diferentes?

SOBRE O AUTOR

tem 27 anos e trabalha como Coordenadora de Conteúdo na Agência EaoCubo. É amante de café, chá, astronomia e vive em um mundo fantástico onde letras tem vida. Assim como Borges, acredita que o paraíso é uma espécie de livraria. Escreve para não morrer, ou para viver - não necessariamente na mesma ordem. Tem certo fascínio pelo obscuro e orgulho de ser freak.