7 motivos para Formation de Beyoncé ser uma aula de empoderamento negro

Beyoncé gerou polêmica entre os conservadores norte-americanos ao lançar um clipe com uma crítica bem direta ao racismo enraizado nos Estados Unidos; mais especificadamente à polícia que segue impune após o assassinato de diversos negros - sob situações mais que suspeitas. Esses assassinatos deram origem ao movimento #BlackLivesMatter, que Jay Z e Beyoncé apoiam abertamente.

Entenda, a seguir, porque o clipe de Formation dá um aula ao falar de empoderamento negro e feminino.

 

1 - O que aconteceu com Nova Orleans?

A voz que dá inicio ao clipe é de Messy Mya, gay e ativista negro, assassinado nas ruas de Nova Orleans à tiros.

Formation recria as cenas do furacão Katrina, considerado o fucarão mais letal de toda a história dos EUA e que causou grandes danos à cidade de Nova Orleans. "O que aconteceu em New Wil'ins" pergunta Messy Mya da sepultura, que Beyoncé nos encoraja a ouvir como um questionamento sobre o assassinato não solucionado do ativista negro, bem como um questionamento com relação à cidade e sua população.

O fracasso do governo para proteger o povo de Nova Orleans é visto por muitos como o catalisador de uma nova era de ativismo que critica a desigualdade sistémica e o racismo que ainda existe nos Estados Unidos. A resposta para a pergunta "o que aconteceu depois de Nova Orleans" é injustiça, a morte de muitos negros desarmados nas mãos de policiais, e o nascimento do movimento Black Lives Matter.

"Estou de volta por demanda popular"

2 - Orgulho de sua origem.

My daddy Alabama, Momma Louisiana

You mix that negro with that Creole make a Texas bama

I like my baby heir with baby hair and afros

I like my negro nose with Jackson Five nostrils

Earned all this money but they never take the country out me

I got a hot sauce in my bag, swag

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Meu pai é do Alabama, minha mãe de Louisiana

Você mistura o negro com uma criola e faz uma Texana bama*

Eu gosto da minha herdeira com cabelos de bebê e afro

Eu gosto do meu nariz negro com narinas de Jackson Five

Ganhei todo esse dinheiro, mas nunca conseguiram tirar minhas raízes

*"Bama" era originalmente a gíria pejorativa para trabalharadores negros que saíam do Sul e iam para o Norte, durante a Grande Migração. Bama era um negro que não sabia se comportar "adequadamente" perante os brancos. Essa gíria é tanto classissista, quanto racista, e Beyoncé usá-la em Formation é um tapa na cara da sociedade.

Matthew Knowles, pai de Beyoncé, vem do Alabama, com um património Africano-Americano. A mãe da Beyoncé é descendente de Joseph Broussard, um franco-canadense que liderou uma revolta nativa mal sucedida contra os britânicos no século 18. A milícia derrotado viajou para uma nova vida em Louisiana.

Beyoncé brinca com os estereótipos de afro-americanos e traz sua família, especificamente sua filha, Blue Ivy para a cena. O cabelo de Blue Ivy tornou-se um meme de mau gosto na internet e chegaram a criar uma petição para que a cantora penteasse e alisasse os cabelos da filha. Quando Beyonce diz que gosta de sua herdeira com cabelos de bebê e afro, ela está se referindo a dois elementos do black power enquanto empodera não só a filha, como muitas meninas negras que sofrem pressão social para ter os cabelos alisados.

3 - Empoderamento negro

Em determinado momento do clipe aparecem todas as mulheres de branco e todos os homens de preto. As roupas usada nestas cenas representam um momento antes e depois que escravos foram libertados em torno de 1900.  Nesta época, os escravos eram tecnicamente livres, mas ainda oprimidos.

Por que essa cena é tão importante? Porque em seguida vemos Beyonce toda de preto e cheia de jóias, cercada por negros com ternos elegantes, descaradamente olhando para a câmera na frente de uma plantação. Isso é empoderar brincando com a história. Beyoncé se colocou no poder, levando com ela todos os negros.

4 - Homenagem a Malcolm X.

Na coreografia do clipe, podemos ver que as dançarinas formam um X. Essa coreografia se repetiu no Superbowl causando ainda mais polêmica.

Malcolm X foi um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro nos EUA. Ele conseguiu mobilizar os brancos americanos, fazendo todos refletirem sobre os crimes cometidos contra os negros.

5 - Quebra de estereótipos de gênero: Sugar mama

When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
If he hit it right, I might take him on a flight on my chopper, cause I slay
Drop him off at the mall, let him buy some J's, let him shop up, cause I slay
-

Quando ele me fode bem eu o levo para o Red Lobster, porque eu arraso

Quando ele me fode bem eu o levo para o Red Lobster, porque eu arraso

Se ele fizer direito, eu posso levar ele para um passeio de helicóptero, porque eu arraso

Deixar ele no shopping para comprar algumas jóias, deixo ele fazer compras, porque eu arraso

Nestre trecho da música, Beyoncé inverte os papéis de gênero e se coloca no lugar do homem que banca a mulher. Além disso, ela assume sua sexualidade sem pudores. Enquanto aponta os dedos do meio para a câmera, a artista não hesita em mostrar que está pouco se lixando para o que é esperado pela sociedade. Se ela quiser ser a Sugar Mama, ela vai ser a Sugar Mama. Ah, e ela também deixa o recado de que está a caminho de se tornar um Bill Gates negro - com relação aos bens materiais.

6 - Parem de atirar em nós!

Esta é uma das cenas mais poderosas do clipe.  Um menino negro dança break empolgadamente de capuz preto na frente de uma linha de policiais da tropa de choque. Surge certa tensão.

Quando o menino pára de dançar e coloca as mãos no ar - como quem se curva para a platéia - todos os policiais colocam os braços para cima em resposta. Eis que vem a paz. Uma imagem rápida de um graffiti aparece na parede com os dizeres "Parem de atirar em nós". Outra mensagem ligada ao movimento #BlackLivesMatter

7 - Formação | Formation

Muitos críticos culturais lêem o título da música, e seu vídeo, como uma alusão sobre o lugar das mulheres na luta pela libertação. Como Zandria F. Robinson escreveu:

"Formação, então, é uma metáfora para a luta das feministas negras [...] Para ser bem sucedido, deve haver coordenação, do tipo que coreógrafos e líderes de movimento fazem, o tipo que as mulheres negras fazem em bairros e organizações. Para acabar com a violência do patriarcado e da supremacia branca, devemos começar com a formação adequada. "

Enquanto a coreografia impecável é realizada no clipe, Beyoncé lidera grupos de mulheres afro-americanas em movimentos coordenados diferentes. Eles estão em formação.

Okay, okay, ladies, now let's get in formation, cause I slay
Okay, ladies, now let's get in formation, cause I slay
Prove to me you got some coordination, cause I slay

A ambiguidade do título nos permite observar esse trecho da música de forma completamente diferente, como a busca por informação (in formation) para uma luta bem sucedida. É possível também interpretar como um grito por sororidade, afinal, sabemos o quanto é necessário.

Você pode assistir o clipe de Formation clicando aqui.