Vaidade das vaidades

dino_valls

Olhou-se no espelho sentindo a mais completa sensação da vaidade violentada, ao ver os olhos borrados, as marcas roxas no pescoço. Aquele cheiro de sexo alcoolizado naquela umidade abafada. Jorge fumava um cigarro enquanto via as luzes da madrugada. Soltava baforadas, esparsas, algumas tímidas, outras intensas. Sarah contemplou sua vaidade, cínica, irônica… Deu um riso de sarcasmo, e começou a jogar a água fria no rosto, numa tentativa torpe de tirar toda aquela máscara usada para deixar-lhe bonita. Naquele momento ela não queria mais estar ali, queria calar-se, sozinha, diante da sua beleza desconstruída em metais pesados da sombra preta e prateada das pálpebras, aquele rímel que deixa seus cílios maiores e mais volumosos, queria estar em um mundo paralelo onde as coisas são terrivelmente mais simples e descomplicadas. Seu ex-namorado gostava dos cílios dela, e os olhos claros realçados com lápis à prova d’água, o que na verdade era uma propaganda enganosa. No dia do adeus, a prova d’água foi vencida pela dor. Ela foi embora, olhando pra trás, com os olhos borrados, o branco dos olhos cheios de uma maré enegrecida. De cara limpa, deitou na cama novamente, e chamou Jorge ao seu lado. Ele era um cara aleatório que de vez em quando se encontravam para transar, apenas isso. Eram amigos, sexo era um negócio à parte. Jorge nunca a viu de cara limpa, sempre viu uma Sarah montada, como uma boneca, olhos impecáveis, pele uniforme. Pensou se ela inconscientemente estava submetendo-se a um teste de aceitação, talvez aquele homem ali, fumando e tendo devaneios na janela daquele apartamento de subúrbio seja aquele que vá gostar da Sarah nua e crua… Nua e de cara limpa, sem roupas sensuais, aquela que anda com camisetão velho e calcinha confortável de algodão. Aquela utopia insensata que passeia nos seus momentos de ócio. Sarah permitia-se devanear sobre um ideal de que o amor não era uma moeda de troca, Amor era Amor, e não uma conveniência onde todos fingem gozar juntos e terminam com um falso sorriso no rosto. Sarah tinha tesão por Jorge, e ele a fez gozar. Depois de tantos, ele foi o único, mas Jorge era uma válvula de escape, um acordo mútuo que quando estivessem na vontade de descarregar toda aquela tensão sexual mal resolvida entre seus “teóricos pretendentes”, recorreriam um ao outro. Sarah era bonita, inteligente… Jorge era um homem independente, maduro e muito sexy, e, eventualmente, solteiro. Gostava de fazer sexo com ela, nunca recusou nenhum pedido sórdido de última hora. Numa segunda-feira qualquer, Sarah foi num jantar de negócios e se encantou pelo homem que fumava do lado de fora, de uma maneira elegante, entre goles e outro de cerveja, enquanto ela ouvia os blá blá blás corporativos. E o homem estranho gesticulava e coçava a barba por fazer de dois dias atrás. Passou por ela enquanto ela foi atender um telefone, e deixou um perfume no ar de fragrância pós-barba. Estranhamente ela não sentiu nele aquele cheiro de fumaça de cigarro. Ele a viu, deu um sorriso e acenou com a cabeça, passou no balcão, pagou a conta e olhou pra ela antes de ir embora. Nunca mais o viu, mas a fragrância ficou na memória, como o cheiro de água de colônia que sua mãe deixava nas roupas de cama. Um homem tão banal. Terminada a reunião, ligou pra Jorge, e ele satisfez sua necessidade de se sentir plena, mesmo que falsamente. Naquele dia, não gozou com Jorge, gozou com o homem que viu naquela noite, mesmo sem ter estado com ele. Jorge certamente sabia, era íntimo dos pensamentos dela, mas talvez gostasse de ser um capacho, alimentando os desejos e vaidades que vai na contramão do senso comum. Sarah surpreendia e ela não sabia disso, pelo menos, era o que Jorge pensava. Nas idas e vindas das quatro estações, são 2 anos de sexo casual e sem compromisso. Acordam no dia seguinte, tomam café na padaria, conversam, como se a noite anterior não tivesse sido de gemidos noite adentro. Mas naquela noite em que Sarah desmontou-se, foi uma noite incomum. Jorge voltou pra cama e disse que teve uma ideia enquanto estava entre uma tragada e outra dos três cigarros fumados na janela.

Tive uma ideia para meu livro, quero contar-lhe, aliás, você viu o meu último artigo na revista “Prelúdio”? Vou lhe mostrar, senão me esqueço. Vejo que não está com sono. Dia estranho, geralmente apagamos e acordamos no dia seguinte”

Jorge acendeu a luz e o jogo sedutor de luz fraca do subúrbio e traços de escuridão timidamente resvalada, que fazia Sarah tropeçar nas suas idas à cozinha nas madrugadas que a fome gritava no estômago. Pegou a revista e um pedaço de papel e uma caneta. Sarah levantou-se e sentou ao lado dele, ambos nus, numa noite qualquer, num dia qualquer, apenas mais um teórico dia de ir e vir, mas estava lá uma Sarah de entrega limpa sem resíduos ou traços de beleza de fábrica. Estava natural. E Jorge foi atingido pelo desconforto das experiências incomuns. Notou a quão bonita ela era e que nunca tinha visto Sarah daquela forma. Mas ignorou, fingiu ignorar. Ele não estava a fim de transformar aquela poesia numa prosa, o sexo era bom, Amor poderia estragar. Mostrou-lhe o artigo, desenharam o fluxo do novo enredo que Jorge tinha para seu sempre adiado fluxo. Apagaram a luz. Na manhã de sábado, Sarah ainda dormia. Jorge sentou no sofá e ficou olhando aquela criatura de cabelos emaranhados. Ela sempre acordava antes e estava impecavelmente vestida e maquiada. Era uma perfeição que irritava, muitas vezes, mas pela primeira vez ele realmente teve vontade de dormir abraçado. Mas havia o medo, a perda da liberdade que sempre lutou. Jorge era dúbio, Sarah também. Queriam as vezes um ideal de amor em que pudesse casar e ter filhos, mas viam o casamento como uma algema, uma coleira, uma prisão. Viva o mundo moderno, o poliamor, os relacionamentos abertos, mas batia aquela solidão. Os dois perdidos na eterna luta entre ser livre ou não. Bebericou um café e fumou na janela, mas não estava perdido nas indas e vindas dos carros e transeuntes, traçava uma pintura do esboço de Sarah, deitada nua e crua na cama. Quando ela começou a acordar e dar aquela espreguiçada, ele saiu de sua zona de homem stalker e foi na ponta dos pés para a sala. Sentado no sofá, fingiu que estava lendo as páginas de um velho jornal de três dias atrás. Escutou o chuveiro ligando, dez minutos depois, Sarah descia as escadas de jeans, camiseta e tênis, cara limpa, cabelos molhados.

Vamos para a feira de artistas locais, Zildinha vai expor e podemos ir naquele bistrô novo da esquina”, disse Sarah, enchendo a xícara de café e pingando 5 exatas gotas de adoçante.

Você vai assim?” – disse Jorge, escondendo o encantamento da surpresa que estava a poucos metros.

Sim, eu vou!”

Sarah levou o “Você vai assim?” como uma afronta. Mas não iria discutir, eles não eram um casal. Era apenas sexo. Continuaram se vendo, mas Jorge nunca mais a viu de cara limpa, cabelos em desalinho. Gravou na memória o cheiro e as nuances de uma cena de vaidade natural e minimalista. Ele deveria ter falado o quão linda ela estava naquela manhã que tinha tudo para ser tão estoica…

Vaidade das vaidades, tudo no mundo é vaidade.

SOBRE O AUTOR

Analista de Sistemas por acaso. Um homem, um bicho, uma mulher e talvez a mesa e as cadeiras de um cabaré.