Crônica: Eu estava com você no nada e isso era tudo.

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Existe algo de grandioso no deserto. Os tons e subtons que se encontram no horizonte com o grande azul formam uma pintura que de tão perfeita parece falsa. Não existem nuvens. Não existem dores, tristezas e sequer memórias. A imensidão te domina de um modo que faz você engolir todo aquele todo. O chão craquelado, como aquarela velha e gasta, remetem a um passado há muito perdido. Eu poderia morar ali. Naquele chão. Naquela cabana. Com você. O ar, misto de poeira e vazio, enchiam meus pulmões enquanto faziam uma limpeza em minha consciência. Nosso celular não funcionava, nada eletrônico tinha bateria e, com isso, nos restou o céu. As fotos não conseguem retratar a imensidão do universo que forma aquele teto. Bastava olhar para cima e sentir-se lá. No topo do mundo com os pés no chão. Eu era deus. O meu corpo tremia com o vento gélido, mas minha alma estava cálida. Eu estava com você no nada e isso era tudo

As pegadas dos coiotes não me assustavam, o papa-léguas ia e vinha como um figurante que chamava mais atenção do que deveria. Nós éramos os protagonistas de um roadmovie que tinha como plot principal o amor transcendendo todas as coisas. Tínhamos acabado de sair de uma igreja de Las Vegas e tínhamos alianças nos dedos. Tudo estava em paz e nada nesse mundo poderia nos atingir. Nem mesmo o carro que nos perseguiu pela estrada íngreme, sem farol, poste ou qualquer ponto de luz. O manual do carro em minhas mãos parecia item meramente ilustrativo. Os faróis não acendiam e contamos com a sorte para nos guiar naquelas primeiras horas.

Paramos e o carro atrás também – de tocaia no escuro.

Respiramos o ar do deserto e seguimos em frente. O carro estava ultrapassando todos os limites de velocidade. O farol do carro ligou e avistamos um enorme vão ao nosso lado. Qualquer passo em falso no volante poderia nos levar para um acidente mortal. Poderia cantarolar The Smiths, mas seria forçar demais a barra. Cantamos Queen nas alturas porque não queríamos parar ali. A caminhonete continuava nos perseguindo. Deveria pensar que éramos um casal de bilionários dirigindo o mais novo modelo de um mustang conversível. Naquele momento me senti bilionária, mas meu dinheiro era outro.

Todos os valores, tudo o que eu tinha aprendido fora desaprendido imediatamente quando bati os olhos no deserto. Não havia nada além de nós e as estrelas, e até hoje sonho com esses dias em que todo aquele nada enchia meus pulmões com a mais pura e genuína liberdade.

 

SOBRE O AUTOR

tem 27 anos e trabalha como Coordenadora de Conteúdo na Agência EaoCubo. É amante de café, chá, astronomia e vive em um mundo fantástico onde letras tem vida. Assim como Borges, acredita que o paraíso é uma espécie de livraria. Escreve para não morrer, ou para viver - não necessariamente na mesma ordem. Tem certo fascínio pelo obscuro e orgulho de ser freak.