Mansão Literatortura: Entropia

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Um, dois, três. Três batidas frias e pesadas soaram pela porta. A garota se revirou na cama. Três. Mais três batidas, ela acordou e se sentou na beira da cama calçando as pantufas de qualquer jeito.

Espremeu os olhos com força, tentando afastar os vestígios do sono perturbador que havia tido. Ela sentia-se sedada e letárgica, e uma forte dor de cabeça massacrava suas têmporas.

Percebeu que estava em um lugar que não conhecia. Era um quarto amplo, sem janelas, e as paredes que um dia deveriam ter sido brancas mostravam um tom de marrom encardido, como se estivessem ali há muito tempo. No cômodo só havia uma cama de madeira escura, feita com algum tipo de pinheiro, um guarda roupa envelhecido, em que se desprendiam algumas lascas, e um criado mudo.

Era em cima do criado mudo que a figura mais sinistra que a garota já havia visto habitava. Era uma estátua pequena, mas com feições terríveis, com tentáculos saindo de uma cabeça pontuda. A imagem continuava inerte como uma estranha sentinela, olhar para aquilo lhe deu náuseas, e suas tripas se contorceram.

Um barulho abrupto e a única porta do ambiente se abriu, despertando a garota do devaneio.

– Desculpe te acordar, querida.

A mulher entrou sem pedir licença, portava-se como uma enfermeira, mas estava longe de pertencer a um hospital. Usava um vestido simples de estopa, enquanto os longos cabelos loiros se encaixavam numa trança, não parecia ser velha, mas trazia no rosto a marca de uma vida de trabalho ao sol.

A garota não foi capaz de elaborar nenhuma resposta. A mulher caminhou até ela e se sentou ao seu lado, havia uma espécie de insanidade divertida em seus olhos.

– Vamos, estão todos esperando por você!  A mulher a olhava com esperança e falava com gentileza.

A garota tentou falar mas as palavras tremeram em sua garganta.

– Fique calma, nós comeremos alguma coisa e tudo ficará bem.

A garota aceitou com certa relutância, e seguiu a enfermeira para fora do quarto. Passaram por um corredor extenso, onde um grande carpete vermelho escondia o piso de madeira que rangia a cada passo. No fim do corredor havia uma escada em caracol, num padrão de retorção estranho, errado. Enquanto descia a escada era possível ouvir o barulho dos convidados festejando, falando alto, rindo. Aquilo a despertou um pouco mais. Sentiu cheiro de ervas, e de algum animal sendo assado.

As pessoas se trajavam todas de forma muito parecida, com um tecido de algodão marrom, as mulheres usavam aventais, e tudo parecia pertencer a uma época muito distante.

Não haviam janelas nem portas nesse saguão, apenas uma longa mesa de madeira ocupava o centro, onde pratos eram servidos e retirados, e ao seu redor pessoas conversavam com entusiasmo.

A mulher indicou um lugar para a garota se sentar, ao seu lado estava um homem simples, com grandes olhos azuis. Ele interrompeu sua silenciosa refeição para cumprimentar a menina.

– Fique à vontade. Hilda trará algo para você. _Sorriu.

A garota aceitou o convite e sentou-se, a mulher que aparentemente se chamava Hilda havia voltado, dessa vez com um prato de sopa. Era extremamente cheiroso e estava fumegante.

– Aqui para você, coma tudo. – Hilda sorriu movendo apenas os cantos dos lábios.

A garota observou as pessoas, elas pareciam não se importar tanto com sua presença, então decidiu provar o prato. Encheu uma colher e enquanto levava o alimento a boca alguém bateu em seu braço fazendo com que o líquido quente derramasse e escorresse por seu queixo. Ela pode sentir o ardor na pele, e procurou algum guardanapo, mas foi interrompida por uma estranha movimentação e cantoria que se formava no centro do banquete.

Ela não conhecia aquela canção, não sabia em que língua cantavam, não se parecia com chinês, nem com latim. Não era humano, não se parecia com nada que já tivesse ouvido, não pertencia a este mundo. Entoavam a canção cada vez mais alto, até todos estarem sintonizados naquele coral sinistro.

A garota olhou para o homem dos olhos azuis e percebeu que este mantinha os olhos fechados em sua concentrada cantoria, procurou pela mulher que havia lhe dado comida e não a encontrou. Com a lentidão em seus pés, tentou se levantar e nesse momento uma dor lancinante atingiu sua mão.

O homem dos olhos azuis estava de pé e tinha uma faca cravada na palma da mão da garota. Ela se contorceu de dor, e os olhos azuis se iluminaram como uma chama infernal.

Dois homens se aproximaram dela, o homem dos olhos azuis retirou a faca de sua mão e ela foi levada para um anexo do salão.

Lá havia uma grande estátua, 20 vezes maior do que aquela que estava no quarto. No pedestal da escultura haviam diversos hieróglifos gravados, provavelmente deveriam pertencer àquela língua repugnante em que entoavam a canção.

A mão da garota pulsava de dor, não teve tempo nem de se defender e estava fraca demais para lutar contra os homens que a seguravam. Foi amarrada a um mastro que ficava em frente à estátua e nesse momento soube que não poderia haver medo maior.

A canção voltou fazendo as paredes vibrarem. Um idoso surgiu por entre o salão e começou a se aproximar da garota. Ele era pequeno e atarracado, não possuía cabelo, nem sobrancelhas. Ao contrário dos outros participantes, ele se vestia todo de branco.

O idoso trazia um crânio em uma mão, e na outra uma faca pontiaguda.

Ele se aproximou.

Chegou tão perto que a garota pensou que ele queria lhe dizer alguma coisa. No entanto, sentiu sua respiração falhar. Era tarde demais, viu seu sangue gotejar dentro do crânio e tudo escureceu.

Ela estava em uma praia, e era difícil de respirar, curiosamente se lembrou dos antigos livros de física do seu pai, lembrou das horas que passou tentando entender os tratados sobre entropia. Mas nesse momento tudo fez sentido, percebeu que o caos é sempre a ordem natural das coisas.

A garota começou a se dar conta do seu corpo e do espaço, e então pode vislumbrar algo terrível, inexplicável aos olhos humanos. Uma criatura repulsiva surgia do mar. Ele era feito da mesma matéria que uma luminosa, e seu corpo vibrava em um verde pegajoso.

Ele bateu suas asas e ondas gigantes se formaram. Ela sentia que aquele ser não era daqui. Ele não era humano, embora nós fossemos semelhantes a ele de alguma forma.

A criatura era tão velha quanto universo, ela havia existido antes da consciência, antes de qualquer coisa, era a força que mantinha tudo inconstante, a agitação remota que fazia com que a desordem fluísse.

A garota nunca havia se dado conta de sua própria insignificância, sentia que no fundo tudo ia acabar uma hora ou outra. Tudo. Inclusive a consciência. Ela soube naquela hora que não haviam tais coisas como descanso eterno ou memória. Se sentiu como um roedor que se dá conta do seu destino, que sente a iminência do fim quando o predador o encurrala, quando não existem mais esperanças, quando a única coisa que persiste é o caos.

 

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Yasmin, 20 anos. Tem poucos títulos para ostentar. Se perdeu no meio do caminho e está calculando uma nova rota. Fã de palavras, tornozelos e cachorros bonzinhos.