Mansão Literatortura: Ao apagar das luzes, era uma vez, o fim…

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Se os sintomas da neurose fossem acentuados na vida daquele sujeito, não haveria lhe restado unhas aos dedos, justificativas ao ato ou leituras das situações de forma que não fosse mais que a vítima; mas as culpas por suas ações já não eram mais sentidas. Talvez se o corte tivesse sido dado na própria carne, o próprio sangue tivesse escorrido pelo corpo, ou ainda se o grito estridente, preso na garganta ao final como síncope da dor, o tivessem feito um ser de compaixão, as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas se era ausência o que lhe restava, era preciso aprofunda-la, fazê-la real.
Aquele não era um dia comum, mas fez-se como tal até às dez da noite, hora que por ventura se aventurava ao campo dos sonhos, apesar de rarefeitos e confusos. A cama, reduto de conforto, lhe acolheu o corpo como não fazia há tempos, permitindo-se entregar ao repouso após um longo dia. E, antes que os barulhos vindos do lado de fora pudessem alertá-lo, os olhos caíram em sono profundo. Ao apagar das luzes, era uma vez, o fim…
Primeiro veio a sensação de estranheza que povoava a mente, desperto no sonho para a vida, como se fosse ele próprio a realização desta última. Era noite, e ele acordava com um gotejar sobre o peito, rosto, cama. Seria chuva, questionou-se sonolento, tentando recordar a última vez que reparara o teto. Os dedos foram ao encontro viscoso e quente que lhe tingia o corpo, mas a escuridão em que se encontrava negava-lhe o direito ao reconhecimento. O cheiro ocre e antigo recordava momentos anteriores, mas que se encontravam distantes da santidade de sua casa. Não havia espaço para os cadáveres debaixo dos seus pés, sob o tapete velho.
As mãos buscaram o interruptor tentando trazer luz à escuridão, mas algo de estranho se revelou: as lâmpadas haviam sido trocadas por refletores, fazendo-o foco da cena. As luzes fortes imediatamente chocaram as pupilas pelo forte contraste estabelecido com a escuridão, sendo preciso acomodar os olhos para só então compreender que o teto não estava vazio. Sob o gesso branco um corpo jazia estirado, extirpado, com os olhos abertos impregnados pelo terror e com o sangue escorrendo das feridas abertas, ainda frescas. Seu pescoço, joelhos, braços, barriga e peito estavam envoltos por arame farpado, sustentando-o naquele espaço. O corpo projetou-se contra a cama e o sujeito, reconhecendo-se como em um espelho, agora completamente desperto, afundou ainda mais no colchão. Ao lado do corpo morto, que cedia ao próprio peso a cada segundo, uma mensagem se fazia visível: “O futuro vos pertence em carne, osso e sangue.” Tentou alcançar a lateral da cama novamente e tocar o chão com os pés como que para acreditar na concretude do que se passava, mas já não era possível. Recordou em instantes os últimos dias e tudo que neles havia acontecido. Não fora sua culpa, pensou, não fora… Do lado externo, gritos acompanhavam a mensagem macabra, aproximando-se mais e mais. A sensação de sufocamento aumentava e o ar torna-se rarefeito naquele cômodo, exigindo aos pulmões um suspiro que fosse – negado. Seu corpo era puxado, tragando os lençóis manchados para o centro e envolvendo-o de forma cada vez mais profunda. Mãos percorriam seu corpo em número cada vez maior, gritos cobriam-lhe os ouvidos, quando a própria boca era silenciada pelas mãos, impedindo-lhe o socorro sonoro. Quando estava próximo a perder os sentidos, mergulhado no próprio tormento, caiu.
Caiu e novamente encontrou-se desolado. O corpo solto, sem chão, deslizando no ar e ganhando velocidade, percorrendo o vazio e imenso espaço negro que o acolhia. Não havia em que se agarrar, até encontrar o chão em um baque seco e audível: novamente de volta ao quarto. Ao se levantar, deixando a dor da pancada e das costelas quebradas, como quem busca despertar do pesadelo em que se encontra, alcançou a porta, acreditando estar livre, para só então perceber o quão perdido estava. Ao atravessá-la, se deparou com outras tantas portas, distribuídas nos corredores vazios e imensos, ecoando seus medos, outros medos.
As portas se apresentavam em infinitas possibilidades, enquanto ele andava pelos corredores em busca de uma única saída – e diante de tantas portas, a certeza de que não haveria escolhas seguras. Percorria aqueles corredores com a mesma intensidade com que se busca a salvação, mas as pernas faltavam-lhe em algum momento, o cansaço o retirava de cena, e ainda que fosse impossível distinguir em qual daquelas opções restava-lhe a saída, o acordar daquele pesadelo, ele escolhia aleatoriamente, pensando no repouso do corpo já esgotado. Todas elas revelavam, ainda que não lhe fosse consciente, o mesmo quarto adentrado na noite anterior, livre de todos os males e surpresas. Era assim que, a medida que o corpo encontrava-se cada vez mais cansado de percorrer os corredores vazios e testar tantas portas, ele se encontrava cada vez mais tentado a experimentar a cama e repousar as dores e cansaços do dia anterior. Por fim, encontrava-se novamente à cama para repousar o corpo e enfim perceber que tudo não passava de um sonho.
A cama, reduto de conforto, lhe acolheu o corpo como não fazia há tempos, permitindo-se entregar ao repouso após um longo dia. E, antes que os barulhos vindos do lado de fora pudessem alertá-lo, os olhos caíram em sono profundo. Ao apagar das luzes, era uma vez, o fim…

Revisado por: Jady Araújo

Esse texto faz parte do projeto Mansão Literatortura. Para acessar outros textos do projeto, acesse:
Ignorância Vital
A sala do traidor

SOBRE O AUTOR

"Nada sei desse mar, nado sem saber, de seus peixes, suas perdas, de seu não respirar..." Como diz a canção de Kid Abelha, nada sei desta perda, mas na inconstância deste não saber, tento edificar-me através das palavras. Sei que é um exercício de consciência, e antes de tudo, de sentimento. Enquanto caminho entre as palavras, descubro a razão de ser humano. Gostou do que leu? Curta a página do meu blog pessoal no facebook (Um olhar sobre o tudo e o nada)