Um passeio de bicicleta

bicicleta

Em homenagem ao mês do horror, resolvi fazer algo diferente e contar um caso que aconteceu comigo alguns anos atrás. Pouca atenção costumamos dar às histórias mais regionais e mesmo às lendas brasileiras nessa época de Halloween. No entanto, elas podem às vezes entrar em nossas cabeças com muito mais força do que os monstros de outros países, e é sobre isso o caso que vou contar.

Eu cresci numa pequena cidade do interior de São Paulo com cerca de 40 mil habitantes. Saí de lá em 2008 para a faculdade e estou em Campinas desde então.

Numa de minhas visitas a meus pais e amigos, 4 anos atrás, combinei com um amigo e com meu irmão de fazermos um passeio de bicicleta, mas não se tratava de um passeio qualquer: nosso destino era uma igreja abandonada que ficava numa antiga vila de trabalhadores em uma fazenda e, para deixá-lo ainda mais emocionante, decidimos sair às 11 horas da noite.

Deixamos minha casa depois de um pequeno atraso, levando conosco bastante água e comida. O lugar não era tão longe, mas não estávamos acostumados a pedalar tanto e planejamos um lanche no meio do caminho.

Tudo corria bem apesar de a bicicleta do meu amigo não estar lá essas coisas. Quando saímos da rodovia para entrar na estrada de terra que nos levaria até a igreja, começamos a duvidar que seguíamos o caminho certo (visitar o local com antecedência foi uma ótima ideia que não tivemos), mas continuamos em frente.

Envoltos em um breu absoluto, nos acompanhavam as vacas, bem acordadas, pastando ao nosso lado e, vez ou outra, algum barulho estranho nos assustava. Eis que surge uma luz vindo em nossa direção por trás de nós. Era uma moto. Ali, de madrugada, no meio do nada, é claro que só pensávamos na infinidade de maldades que poderiam fazer com a gente ali sem se preocuparem com nada. A moto foi chegando mais perto e nos ultrapassou, seguindo na mesma direção em que íamos.

Quando já devíamos estar chegando, alcançamos um pequeno morro e descemos das bicicletas para subi-lo. No caminho, ainda com as vacas ao redor, eu e meu irmão íamos contando histórias de nosso avô, que morou na roça por muito tempo e nos falava de casos estranhos como quando um boi teria falado a um conhecido seu que iria matá-lo numa sexta-feira santa. Meu amigo, que já estava tenso, ficou ainda mais nervoso enquanto eu e meu irmão dávamos risadas que logo se calariam.

Terminando a subida, começamos a descer ainda empurrando as bicicletas. A igreja apareceria ao nosso lado a qualquer momento, mas a escuridão não nos deixava vê-la. A única coisa que víamos era um ponto de luz oscilante bem ao longe que parecia fogo. Foi então que, ainda atiçados pelas histórias assustadoras e tensos pela situação, meu irmão fez o comentário da noite ao se referir ao fogo: “É a mula sem cabeça!”, e exatamente no instante em que ele termina a frase, ouvimos um relincho muito alto vindo da direção da luz.

Sem trocar uma palavra sequer entre nós, imediatamente demos meia volta e saímos correndo morro acima com as bicicletas. Assim que possível, as montamos e pedalamos rapidamente até que achamos seguro parar e nos acalmar por algum tempo.

O ocorrido ainda nos assustava e, enquanto não chegamos na rodovia, tivemos que lidar ainda com outras luzes estranhas e com a moto, que apareceu novamente para mexer com nossas cabeças.

No dia seguinte, descobrimos que no ponto em que vimos a suposta mula sem cabeça, estávamos a poucos metros da igreja. Desde então, 4 anos se passaram, prometemos que completaríamos o passeio numa outra madrugada, mas até hoje, por algum motivo, nunca o fizemos.

Revisado por Maria Eduarda Campos

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.