Mansão Literatortura: Ignorância Vital

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Você acorda num pequeno quarto sem se lembrar de absolutamente nada, apenas de que é um ser humano, de que existe. É estranho isso, nunca nos damos conta de que um dia tivemos que aprender que somos alguém, entender que existimos, apesar de jamais compreendermos a existência. Neste momento, no entanto, é tudo que você sabe.
Não há nada ali além de uma lâmpada no teto e uma porta à sua frente. Passando por ela, você encontra um corredor imenso cheio de portas. Para qualquer lado que olhe, é impossível enxergar seu fim.
Você decide seguir para um dos lados em busca de alguma saída daquele lugar. As portas não se abrem. Numa delas a maçaneta chega a virar e a porta se move alguns centímetros até que algo a empurra bruscamente de volta.
O desespero surge e faz o coração acelerar. Você bem que tenta se acalmar. Por alguns segundos parece mesmo ficar em paz. Então ouve um grito… e outro… e mais um. Você corre. Os gritos só crescem. O som de passos surge atrás de ti, mas você se vira e não vê ninguém. Os passos parecem se aproximar. Você tenta sem sucesso abrir outra porta e acelera a corrida, tropeça e cai. Os passos te alcançam. Um frio intenso e a escuridão tomam conta de ti. Os gritos se convertem num silêncio absoluto. Você então grita e, apesar de esvaziar os pulmões, também não ouve seus gritos. Finalmente voltam o calor, as luzes e o som do seu grito em meio aos demais. Os passos que ouviu ainda estavam lá e seguiam adiante.
Você fica no chão por alguns minutos tentando se recompor, sentindo a maciez do carpete vermelho que cobre todo o piso. Não demora muito tempo e os gritos param. Levantando-se, você resolve continuar sua caminhada na tola esperança de sair de onde está.
Os detalhes do local passam a chamar a atenção. Tudo é luxuoso. As portas, de madeira maciça, possuem gravuras únicas: são vampiros, lobisomens, e várias outras figuras que você sequer consegue identificar. As maçanetas são de ouro, assim como os lustres que iluminam o caminho.
Passam-se horas sem que nada aconteça, você continua andando sem avistar qualquer sinal do fim do corredor, até que uma porta te atrai o olhar. Diferente das demais, que não possuíam qualquer cor além do marrom natural da madeira, esta é amarela e possui a gravura de uma coroa. Você gira a maçaneta e, para a sua surpresa, a porta se abre. O quarto não é muito diferente daquele de onde você saiu, com exceção de ser completamente amarelo.
Os passos ressurgem trazendo consigo os gritos de outrora. A porta se fecha com força te impedindo de sair. Do lado de fora, o som das pisadas vai ficando cada mais alto. Até que desaparece. Você vê a maçaneta girar e a porta se abrir enquanto os gritos chegam ao ápice de seu desespero. À sua frente não se vê nada, mas você sabe que o dono dos passos está ali. Ele caminha para dentro do quarto, então você o vê, um rei todo vestido de amarelo com uma máscara que lhe cobre o rosto. Novamente vêm o frio e o silêncio. Dessa vez, no entanto, a luz permanece.
O rei toca-te a testa com seu cetro e você deixa também de enxergar. A sensação é a de flutuar em sua própria consciência. As memórias perdidas começam a voltar uma a uma até a sua mais remota infância, mas não param por aí. Experiências estranhas te vêm à mente, visões cósmicas, uma viagem até o início do universo. Isto te faz maravilhar-se por um momento, apenas por um momento, pois logo no instante seguinte sua consciência se expande a todo o cosmos. Você tem a revelação de tudo, do nada, da imensidão inimaginável, da insignificância absoluta. Você compreende, afinal, a existência, e essa revelação te leva a um desespero que somente ela poderia.
O rei se afasta e você volta a si. Pelo reflexo em seus olhos você vê este desespero no teu olhar. Um grito ecoa mudo dentro de ti. Tudo que você deseja então é a morte, é simplesmente não mais ser. Mas você sabe que nem a morte pode te salvar, e mesmo o sabendo pede ao rei que te mate, implora-lhe que te salve daquilo que te foi revelado. Ele se afasta, ri por debaixo da máscara, e acerta seu centro com força em sua cabeça, você cai inconsciente.

Você acorda num pequeno quarto sem se lembrar de absolutamente nada.

Revisado por Juliana Skalski

Você pode ver a introdução a essa série aqui, e o primeiro conto, A Sala do Traidor, aqui.

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.