Mansão Literatortura: Fossa Coletiva

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São Paulo, 1927

– Amém.

– Mamãe, me passa o frango, importunou o menor. A louça inglesa do aparelho de jantar já se via lascada nas quinas e gasta em seu miolo, situação esta que pouco se assemelhava ao estado dos talheres, um pouco escurecidos; afinal, eram de prata.

Agradava ao filho maior a ideia de seu pai ter acelerado as orações antes das refeições. Não que não gostasse de rezar, pelo contrário, era um temente a Deus, e principalmente ao filho menor, contudo sempre tivera bastante fome e as preces de outrora pareciam intermináveis. O bem da verdade é que ele estava certo, as súplicas haviam, de fato, sido encolhidas e esvaziadas; o que pouco incomodava a mãe. E o tilintar da prataria esbarrando na louça solenizava-se por toda obscurecida sala de jantar; talvez fosse o excesso de ébano em sua arquitetura, ou o simples acúmulo de pó. A reforma inacabável do palacete apenas corroborava a sua peculiar trepidez.

Não chovia nem fazia frio, mas a corrente de ar que deturpava as imensas cortinas do cômodo, e obrigava o filho menor a tossir, incomodava ao pai. Apesar da relativa indiferença, tal qual descrita pelo eufemismo de sua esposa, as expirações barulhentas do infante lhe estorvavam a cada roncar.

– Feche a cortina, sinalizou para a sua única empregada, preta. Tinham que se manter com o resto, e a mãe não poderia se ocupar com os afazeres da serventia, ia ao salão semanalmente.

O diuturno silêncio que se seguira foi quebrado pela saborosa insistência do filho menor para com o filho maior, espetando-o com o garfo de sobremesa. Era ágil, mas a boca chorosa do irmão não havia como não o denunciar. O que pra ele não significava muito, sabia que era o preferido. Pelo menos era o que sua infantil consciência afirmava com relação à mãe; o pai nunca demonstrara muito afeto, a não ser pela música. Por fim, as mastigadas rangiam pela mesa do jantar.

Cutucando-os, na penumbra da já esfarelada toalha de linho, com o dedão do pé, a mãe dava a ordem de silêncio novamente. Não tinha mais a disposição para proferir bronca nas crianças, quiçá seu empático âmago estivesse opaco. Entretanto, o paciente pai preferiu uma abordagem menos furtiva.

– Pare de chorar filho, conformou.

Obviamente que parou de imediato. Sua face ardia, carimbada pelo macio espalmo paterno. O choro engolido lhe sufocava, ao passo que seus lábios superiores eram banhados pela coriza salgada. A mãe não se moveu muito, apenas ergueu as sobrancelhas e deglutiu o alimento mastigado após um trago da bebida. Vinho ruim. Algumas gotas de suor escorriam da enrugada testa do pai, avermelhado pelo quentume de seu infeliz descontrole. Não era tão compreensivo.

O filho menor se assustou com a investida do pai, contudo, já havia se acostumado a espiar o irmão em suas seções de palmatórias costumeiramente insuportáveis; ao menos para o traseiro gordo do menino. Às vezes, quando as nádegas já se encontravam rasgadas de vergões, o pai flagelava-o nas roliças pernas. Eram os dias em que ele mais se deslumbrava com o espetáculo torturoso. Como de costume, o diálogo logo se normalizou, manifestação do caráter cotidiano desses empecilhos domésticos. Era uma família feliz.

– Mãe, quero um cachorro, choramingou o menor.

– Você deixou o outro morrer.

– Ele não morreu, só parou de se mexer, mamãe.

O filho menor tentou balbuciar algumas palavras, contudo, em vão. O choro entalado não permitia. Pouco importava, todavia, sua manifestação, a conversa já estava fadada ao fim, e o pai não falava mais com frequência. Na verdade, a única vez que se ouvia sua rigorosa voz eram em certas aulas de violino que lecionava. Nestas, sentia seu tão esplendoroso talento de outrora, macerado, juntamente ao seu invencível ego derrotado. Não mais gostavam de admirá-lo, extasiados pelo jazz. Criolos malditos. Ademais, tal frenesia sonora desconfortava seu pretérito tumor passional. Recordava-se daquelas belas mãos tocantes às cordas do contrabaixo.

A amargura que lhe suscitava fora menosprezada pela delirante torta de morangos ao seu prato. Era a sobremesa. Preferiu não colocar nela, não queria ter esse desgosto de lembrança póstuma. Com crosta macia, e recheio cremoso, cortava-a com o garfo de forma incisiva; queria apenas devorá-la demoradamente. Sua esposa, pele lisa, e maquiada, preferiu não comer doce, tinha que manter as aparências para o velório.

Cada um arrastou sua cadeira maciça, tendo, todavia, o filho menor certa dificuldade, o que resolveu fácil, pediu ajuda ao irmão maior. Não havia mais empregados para isso. Iam ouvir música na sala de estar.

Costumeiramente, o patriarca coagia a família a deleitar-se com boa música após o jantar. A regra era ele tocar violino, mas desta vez, preferiu colocar um vinil. Mozart, Réquiem em D menor, não que gostasse muito do gênio músico, preferia os russos; todavia cria ser assaz cabível. A empregada lhe trouxe as taças, a jarra de suco e a garrafa de vinho, beberiam algo para se refrescarem com a morna noite de verão. O pai lhes serviu secamente, enquanto preferiu ficar de pé, fumando seu velho cachimbo, que encontrara em cima da mesa, já com fumo. As crianças se recostaram no sofá vermelho, balançando as pernas, levemente, tal qual o doce sonar de musicalidade; e a mãe posicionou-se sensualmente na poltrona à frente.

As medíocres obras pintadas pela jovial mulher testemunhavam a mórbida cena. Ela nunca fora uma vanguardista, não se distanciando dos traços maçantes realistas, o que, todavia o fazia com certo reconhecimento artístico, afinal era dona de uma singular beleza alva. O pai caminhava pesaroso, de um lado ao outro da lareira, tentando não encarar muito o rosto de sua esposa. Não era permitido falar nesses momentos, restando apenas a possibilidade de deleitar-se com as agoniantes notas cuspidas da vitrola, e os passos monótonos do homem.

As crianças logo se estiraram ao chão, tremulando espasmos doloridos, totalmente em desarmonia com a música. Era a estricnina. Colocara bastante para não haver empecilhos. Mal haviam terminado o refresco, que caíra sujando o gasto tapete persa. Os progenitores pouco se impressionaram, apenas aguardavam o consolo teleológico da vida, cada um com sua catarse egoísta. Virou-se para se fascinar com sua apaixonante mulher mais uma vez. Não conseguia materializar nenhuma lembrança que expressasse qualquer amor por ela, todavia, era a única pessoa que lhe restara para dividir sua decadência e menosprezo. Poderia falar para eles vomitarem o veneno de rato, tinham tempo ainda.

Ao rotacionar seu corpo, com o único sopro de existência restante, deslumbrou-se, entretanto, com um sorriso hediondo cravado na face de sua esposa, quase paralisada na poltrona. O barulho de seu corpo esmurrando o encosto do móvel ia aumentando, conforme sua picante boca sangrava. Havia dilacerado a língua. A Lacrimosa solenizava-se, com seu pesar mórbido, pelo cômodo chacinado, confundindo-se com os urros agudos da mãe, que ao contrário das crianças, não descansara de forma rápida.

Mal conseguiu virar seu corpo inteiro para a lastimável cena, e também sucumbira ao chão, sentindo nas próprias entranhas a benevolência causada. Berrava como um infante mimado, sacudindo-se em um contorcimento digno circense. E, tal qual o compositor austríaco, desviveu na miséria; tal qual Sócrates, finou-se por veneno; talvez fosse acometido pela síndrome de Jacinto, mas diferente deste, preferiu um método menos ortodoxo que o campo.

A empregada já se via longe daquele decesso coletivo, levando com ela o máximo de prataria que conseguisse acobertar em seu corpo gordo, deixando para trás os quatro cadáveres ao chão da sala. Não iria limpar aquela merda sórdida.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Apreciador de uma vida boêmia, nada mais que um hedonista. Ensaísta exagerado, tenta captar a própria realidade de modo real, ou para alguns, de maneira suja. Graduando em Direito na Unesp. Ademais, admirador de um bom humor.