Cultura pop nipônica em perspectiva: como os mangás e animês revolucionaram a indústria cultural – parte 2

j-world-shonen-jump-theme-park-tokyo

O fascínio dos brasileiros pela cultura pop nipônica vem de longa data, desde a década de 1960, pode-se perceber a presença dos quadrinhos em estilo mangá publicados pela Editora Edrel (Editora de Revistas e Livros) e a série National Kid exibida pela TV Record. A Edrel foi a grande responsável por abrir as portas do mercado editorial para os desenhos com estética japonesa. Seus fundadores, Minami Keizi, Claudio Seto, Fernando Ikoma e os irmãos Paulo e Roberto Fukue, entre outros, tiveram grande influência estética de dois grandes mangakás nas publicações da Edrel, que são Osamu Tezuka (Astro Boy) e Shirato Sanpei (A Lenda de Kamui), dentre as obras produzidas pela editora destacam-se: “Ninja, o Samurai Mágico”, “O Samurai”, “Ídolo Juvenil”, “Flavo”, “Maria Erótica”, entre outros. (PEREIRA, 2008; SATO, 2008).

Contudo, mesmo com a grande importância das histórias em quadrinhos da Edrel para a história dos impressos no Brasil e do fenômeno da série National Kid, a cultura pop nipônica consolidou-se como cultura de massa com a expansão dos Tokusatsu e dos Animês a partir dos anos 1980 e 1990.

 A televisão brasileira, na década de 1970, foi influenciada por vários seriados e animações japonesas, entre eles: “(…) Ultraman, Ultra Seven, Robô Gigante, Speed Racer, A Princesa e o Cavaleiro, Sawamu, Fantomas, e outros, especialmente exibidos na TV Record e na extinta TV Tupi.” (NAGADO, 2007: 97). Cada vez mais foram criando espectadores que tinham preferência pelos seriados japoneses por causa de sua narrativa exagerada e seus efeitos especiais toscos tornando-os cômicos.

Na década de 1980, relativamente poucos animês foram lançados, em iniciativas tímidas e sem que houvesse um grande fenômeno. Com poucos títulos disponíveis em vídeo e menos ainda tendo ido para o cinema, a TV sempre se mostrou o veículo mais popular para os desenhos animados japoneses. (NAGADO, 2007: 72-73).

Mesmo com toda a dificuldade que as animações japonesas sofreram para se firmar na cultura brasileira, temos que relatar o avanço que ocorreu, ainda na década de 1980, com a regularização das exibições das animações japonesas que veio com a criação da Rede Manchete em 1983, que deu espaço privilegiado para os desenhos japoneses. A Rede Manchete, para atrair mais telespectadores, começou a investir na aquisição de filmes e seriados estrangeiros para tentar competir por audiência com a Rede Globo que tinha o domínio dos telespectadores brasileiros na época com as grandes produções de telenovelas.

Se houve um canal de TV brasileiro identificado com heróis japoneses, foi sem dúvida a extinta TV Manchete, que alavancou manias nacionais puxadas por Jaspion e Cavaleiros do Zodíaco na década de 1990. Alguns anos antes, a emissora exibiu produções que, se não foram ícones pop como as duas séries citadas, chamaram a atenção do público infanto-juvenil na metade da década de 1980, época em que poucos seriados nipônicos eram vistos na TV. (NAGADO, 2007: 88).

O público brasileiro, na década de 1980, passou a se interessar cada vez mais pelos seriados japoneses, sendo atraído pelo estilo tokusatsu, entre eles Jaspion que se tornou um dos seriados japoneses mais famosos até hoje no Brasil. Esses seriados acabaram trazendo uma série de produtos licenciados produzidos pela Bandai e que o mercado informal começou a vender nas principais cidades do Brasil.

Em 1984 foi criada, em São Paulo, a Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações) que tinha como intuito reunir pessoas que apreciavam o mangá para divulgação e aprimoramento desse estilo de quadrinhos. O nome da associação foi uma sugestão da professora Sonia Maria Bibe Luyten, que achou interessante inserir o termo mangá, então desconhecido pelo público em geral, para diferenciar de qualquer outra instituição cultural. (SATO, 2008).

No final da década de 1980 foi traduzido e publicado no Brasil o primeiro mangá japonês. Tratava-se da obra Kozure Okami, Lobo Solitário, um mangá voltado para o público adulto apresentando várias cenas de grande violência gráfica e dramática que foi publicado pela editora Cedibra. Em 1990, veio Akira do Katsuhiro Otomo, publicada pela Editora Globo. Essas duas obras pegaram carona no sucesso das graphic novels norte-americanas que estavam fazendo grande sucesso na época. Todavia, Lobo Solitário não teve uma boa aceitação do público e mesmo Akira tendo seu longa-metragem com fama internacional a publicação de mangás no Brasil estava fadada ao fracasso. Podemos atribuir ao preconceito do público adulto em consumir histórias em quadrinhos ou mesmo à não familiaridade com a estética mangá, com isso o mercado editorial não incentivou a publicação de novas obras. (OKA, 2005: 85-86).

No início da década de 1990, as emissoras de TV exibiam seriados e animações japonesas de forma esporádica e instável. Mesmo tendo alguns títulos de grande sucesso, as emissoras não se preocupavam com a regularidade de horário e nem com a cronologia das obras. De maneira geral, as produções japonesas eram tratadas como “tapa buraco” das emissoras. “Nos anos 90, parecia que os animês estavam fadados a ficarem cada vez mais restritos. No segundo semestre de 1994, pela TV Manchete, o título Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986) iniciaria a maior explosão do animê no Brasil, de maneira devastadora e definitiva.” (NAGADO, 2007: 73).

O animê Cavaleiros do Zodíaco provocou uma mudança na perspectiva das animações japonesas que antes eram elenco de apoio das emissoras, agora tornaram-se protagonistas e responsáveis pelo crescimento da cultura pop nipônica em terras tupiniquins. Seguido ao sucesso de Cavaleiros do Zodíaco, outro fenômeno midiático, e de tendência mundial que consolidou de vez a presença da cultura pop nipônica no Ocidente foi pokémon – desenho inspirado num jogo de game boy –, que apareceu em diversas mídias e proporcionou a venda dos mais diversos produtos.

Com o grande sucesso dos animês, entre 1999 a 2001, quando animês como Pokémon, Samurai X, Dragon Ball Z e Sakura Card Captors viraram mania na TV aberta brasileira. Isso criou um ambiente propício para reanimar o retorno das publicações de mangás. A editora JBC (Japan Brazilian Communication) lançou em 2001 quatro títulos: Samurai X, Sakura Card Captor, Video Girl Ai e Guerreiras Mágicas de Rayearth. Atualmente, o mercado editorial de mangás lança em média 30 títulos por mês tendo como principais responsáveis quatro empresas: JBC, Panini, Nova Sampa e New POP. (OKA, 2005).

No final dos anos 1990 e início do século XXI, começaram a surgir os primeiros “eventos anime” no Brasil. Em 1996 foi realizado o MangáCon (Convenção Nacional de Mangá e Animê), em São Paulo, organizada pela Abrademi. No total foram realizados cinco MangáCon, sendo que o último ocorreu em 2000.

Por fim devo ressaltar que essa pequena síntese sobre a história da cultura pop nipônica no Brasil mostra a gama de elementos que esse microcosmo apresenta em sua composição. Ter a chance de observar como os elementos dessa cultura são incorporados e ressignificados é uma forma de observarmos a nós mesmos. Pois, como nos informa o antropólogo Clifford Geertz (1989), “[…] pode ser que nas particularidades culturais dos povos – suas esquisitices – sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é ser genericamente humano. ” (GEERTZ, 1989: 78).

Referências:

GEERTZ, Clifford. Interpretações das culturas. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989;

NAGADO, Alexandre. Almanaque da cultura pop japonesa. São Paulo: Via Lettera, 2007;

OKA, Arnaldo Massato. Mangás traduzidos no Brasil. In: LUYTEN, Sonia M. Bibe. Cultura pop japonesa. São Paulo: Ed. Hedra, 2005. p. 85-94;

PEREIRA, Paulo Gustavo. Almanaque dos seriados. São Paulo: Ediouro, 2008;

SATO, Cristiane A. Japop – o poder da cultura pop japonesa. São Paulo: NSP-Hakkosha, 2008.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Fred Pedrosa, professor de História e Mestrando em História Social da Cultura Regional pela UFRPE. Valorizo a cultura nordestina, mas também sou aficionado pela cultura pop nipônica e sul-coreana. Sou cinéfilo, mas prefiro os blockbuster do que o cinema alternativo.