5 álbuns psicodélicos da música nacional nos anos 70

A música psicodélica é uma conhecida vertente do rock criada nos anos 60, nos Estados Unidos, sendo difundida pelo resto do mundo a partir daí, chamando atenção de músicos com sede por experimentações, já que o gênero sempre teve como principais temas o consumo de drogas, a loucura, o transe e a transcendência do estado de espírito. É muito provável que sua origem tenha berço na Geração Beat, quando Jack Kerouac começou a descrever experiências jazzísticas repletas de substâncias alucinógenas, o êxtase dos instrumentos nas noites de Denver, Frisco e Nova York e a relação entre o transe da consciência e a música.

Ao fim dos anos 60, e início dos 70, a música psicodélica chegou ao Brasil. E como não poderia ser diferente, as terras tupiniquins fizeram dela algo ainda maior e mais intenso. Com influências modernistas, antropofágicas e tropicalistas, a música psicodélica nacional reuniu elementos tradicionais do gênero com brasilidades únicas, toques regionais e experimentações diversas, misturando desde o rock experimental paulista à música tradicional pernambucana ao caldo psicodélico que vinha se formando.

Apresento, então, 5 álbuns dessa fase da música brasileira. Essa lista, no entanto, precisa de um adendo bem esclarecido antes de ser lida: esses não são os 5 melhores álbuns da música psicodélica nacional. Não são sequer os 5 álbuns mais conhecidos. São apenas 5 álbuns que eu, pessoalmente, considero interessantes, e acho que todos são merecedores de um pouco de atenção ao apreciá-los. Digo isso porque sei que muitos outros nomes não estão aqui (Egberto Gismonti, A Barca, Sá Rodrix & Guarabyra, O Terço, etc), mas isso não quer dizer que também não o mereçam. A escolha foi completamente pessoal, e não está aberta para discussões. Além disso, acredito que também não esteja passível de discussão a qualidade dos álbuns tomando uns aos outros como referência. Dizer, por exemplo, que Dark Side of the Moon é o melhor álbum de rock psicodélico da história é completamente equivocado porque “o melhor álbum” não existe. Existem os melhores, e estes são bons de maneiras distintas e singulares. Pink Floyd peca, sim, em algumas coisas que outras bandas não pecam. Mas também acerta em cheio em pontos que ninguém mais consegue.

Depois de ter isso esclarecido, vamos finalmente à lista (clique no botão ali no canto direito escrito "PRÓXIMO" para começar):

1 - Som Nosso de Cada Dia – Snegs (1974)

“Snegs” é o primeiro álbum da banda Som Nosso de Cada Dia, grupo paulistano formado nos anos 70 por Manito (teclado, saxofone e flauta), Pedrão (guitarra e baixo) e Pedrinho Batera (bateria e vocais). A banda consegue, com uma formação bastante simples, unir todos os elementos do clássico rock psicodélico, acrescentando ainda uma clara influência do Black music e o funk da década de 70.

Dentre os integrantes, talvez apenas Manito tenha alcançado reconhecimento como músico, e hoje o Som Nosso de Cada Dia não é muito lembrado. Mas o som vale a pena conferir, apesar de não ousar tanto nem conter tanta influência da música brasileira como os álbuns que vêm a seguir.

2 - Mutantes – Tudo Foi Feito Pelo Sol (1974)

Considerada por muitos a banda definitiva de rock psicodélico nacional, Os Mutantes já estavam nas últimas quando lançaram “Tudo Foi Feito pelo Sol”, contando apenas com o guitarrista Sérgio Dias da formação original. A banda que agora já assinava como “Mutantes” apenas seguia o caminho para o rock progressivo definido no álbum anterior, “O A e o Z”. Reza a lenda que o álbum foi gravado apenas em um take.

É, sem dúvida, um som mais maduro da banda, causado provavelmente pela nova formação e toda a bagagem de shows e experiências por tantos países. “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, ainda sim, não perde os traços da música brasileira, apesar de, claramente, ter sido concebido com outro foco.

3 - Bixo da Seda – Estação Elétrica (1976)

Formada nos anos 70 em Porto Alegre, Bixo da Seda ainda tinha muita influência da música estrangeira. O primeiro nome da banda foi Liverpool e somente após 1971 tornou-se Bixo da Seda. A partir daí, o que era claramente uma influência direta do rock inglês passou a apresentar uma roupagem nova, carregada de elementos psicodélicos e característicos do rock progressivo.

Ao ouvir Estação Elétrica você duvida que Bixo da Seda iniciou a carreira fazendo cover dos Beatles. Apesar de muitas vezes bastante contidas, as músicas experimentam da maneira certa, sem exageros. Não surpreende, mas não decepciona: Estação Elétrica é perfeito para ouvir, apreciar e orgulhar-se da música psicodélica nacional. É exatamente o que se espera de uma criação brasileira psicodélica de boa qualidade.

4 - Som Imaginário – Matança do Porco (1973)

Esse é pessoalmente meu favorito da lista. Som Imaginário foi formada para acompanhar Milton Nascimento no início da década de 70. O time não deixava a desejar: Wagner Tiso, Fredera e Zé Rodrix compunham a banda ao lado de Tavito e Robertinho Silva. Lançaram três álbuns: os dois primeiros ainda carregando muito das influências inglesas que eram bastante comuns em praticamente todo o cenário do rock nacional – o que não os torna ruins, mas também não permite que sejam considerados originais;

Mas Matança do Porco, o terceiro e último álbum, é perfeito. Com vocais de Milton Nascimento e belíssimas composições de Wagner Tiso, o álbum poderia muito bem ser visto como um clássico da música nacional. Psicodélico e experimental na medida certa, distingue-se claramente os elementos jazzísticos, as influências nacionais e estrangeiras e as loucuras progressivas que tornam cada segundo do álbum único. Matança do Porco consegue, em muitos pontos, bater com facilidade até mesmo composições do Pink Floyd. E o melhor: é música genuinamente brasileira.

5 - Ave Sangria – Ave Sangria (1974)

A experiência definitiva de metamorfose entre o rock progressivo e a música nacional se encontra em Ave Sangria. O único álbum em estúdio da banda, também chamado de Ave Sangria, foi um dos principais expoentes do cenário psicodélico em Pernambuco nos anos 70, conseguindo mesclar com maestria a música regional e a psicodelia que permeava o resto do mundo na época. Mudou o nome de Tamarineira Village para Ave Sangria por sugestão uma cigana que os integrantes conheceram no interior da Paraíba.

O grupo foi alvo da censura do governo militar fazendo com que a ilustração da capa do primeiro e único disco sofresse severas modificações, sendo definida pelos integrantes como um "papagaio drag queen". Ave Sangria, de 1974, é a prova de que a música nacional casa perfeitamente com o rock psicodélico. Deixa também, infelizmente, uma pontinha de tristeza depois de ter ouvido os outros 4 álbuns, para quem seguiu a lista. Fica claro que, ousar e apostar nessa mistura não teria sido tão ruim, e talvez tornasse cada uma das obras ainda mais originais. Claro que isso não desmerece nenhuma delas, só nos deixa com essa inquietação: a vontade de ver um pouquinho mais do tempero brasileiro.