10 livros que seu amigo disse que leu (mas na verdade não leu)!

Publicado na nossa filial Indique um Livro

Amigos são amigos, claro! No entanto, todos temos amigos de muitos jeitos: uns meio malucos, outros mais nerds, alguns até viciados por livros e que deixam de sair para ficar ao lado de seus outros amigos personagens. Acontece que, algumas vezes, todos temos amigos que podem não mentir, mas exagerar um pouco na sua capacidade de ler tantos livros em pouco tempo. Aí você fala de um autor e ele já leu, fala de um livro e ele leu a coleção. Há que se desconfiar, não? A verdade é que ele NÃO LEU todos os livros que disse que leu e, provavelmente, está mentindo para você. O Indique um Livro, então, resolveu listar 10 livros que, caso seu amigo tenha dito que leu, é bem possível que ele não tenha lido e esteja só tentando se mostrar intelectual.

Confira a lista:

1- O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien

Assim como As Crônicas de Nárnia, muitas pessoas sentem uma genuína vontade de ler O Senhor dos Anéis. Talvez pelo aspecto fantástico interessantíssimo da obra, talvez pelo sucesso dos filmes baseados na obra. A pessoa vê o filme e sente, quase sempre, vontade de saber mais sobre aquele universo. E vai para os livros. Só que aqui, ao contrário dos livros de C. S. Lewis, a linguagem é arcaica, difícil. Não é uma leitura tranquila. É tudo extremamente descritivo, contado passo a passo. Aí as pessoas desistem da leitura, pela dificuldade imposta. E o pior: o universo d’O Senhor dos Anéis é composto por vários filmes. Os três principais, O Hobbit, O Silmarillion e por aí vai. E a maioria é de leitura complexa mesmo.
Enfim, não é fácil ler um livro da obra de Tolkien. Mas quando o leitor consegue entrar nesse universo, não sai mais. Afinal, a imaginação fica para sempre povoada por hobbits, anões, magos e toda a criatividade de Tolkien.

Por Matheus Mans Dametto

2- A Bíblia

A Bíblia é um livro extenso, cheio de inferências, parábolas e fábulas que servem de manual de moral e conduta para uma boa parte do mundo. O livro considerado sagrado pelos cristãos e judeus, contém relatos do Velho Testamento, com lendas que prevem desde a criação do universo até sua destruição, no apocalipse. Sua segunda parte,  o Novo Testamento, considerado apenas pelos cristãos, relata a história do Deus que vem para a terra, em forma de homem, para perdoar os pecados dos homens e celebrar novas formas de vida.

Por ser um livro imenso e cheio de histórias que rumam em muitas direções e por ser utilizado basicamente para cultos, missas e celebrações, é muito comum sua leitura fragmentária. O teórico Auerbach fala da Bíblia como um livro cheio de elipses, buracos, que pode ser preenchido de diversas formas de interpretação. Acontece que grande parte delas são dogmáticas e regradas por um “líder”. Assim, a Bíblia é um livro sempre cheio de objetivos que, no fundo, quase ninguém realmente leu. Nem os ateus que dizem que leram para criticar.

3- Hamlet, de William Shakespeare

Essa peça clássica que influenciou boa parte da cultura ocidental dos dias de hoje é famosa por ser citada por muitos que nunca a leram. Quem nunca ouviu falar da famosa cena do príncipe Hamlet segurando uma caveira enquanto diz “Ser ou não ser, eis a questão”, certo? Pois é, essa cena não existe. Isso é uma mistura de duas cenas chave do texto original. Hamlet segura uma caveira, sim, e diz essa frase, mas em momentos diferentes. Enfim, se você ainda não leu, leia (se já leu, é provável que já tenha relido, porque não tem motivos para não reler essa peça, mas releia de novo) e conheça um príncipe melancólico, cujo fantasma de seu pai o perturba – em espírito e mentalmente – e cujas reflexões sobre o sentido de ser ou não ser são atemporais e sempre permanecerão como fonte de novas reflexões e discussões. A poesia das falas e a complexidade dos diversos personagens, exposta puramente através de diálogo, é digna de um trabalho de gênio – por isso essa é uma das peças de Shakespeare que mais elevam sua fama de gênio literário e com louvor.

Leia a resenha completa: http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/06/06/shakespeare-hamlet-e-a-vida/

Por Amanda Leonardi 

4- Os Sertões, de Euclides da Cunha

Os Sertões está entre as melhores obras que li, mas assumo: não sem esforço. Foram aproximadamente 4 meses debruçado sobre a hora, dia a dia, mantendo-me atento a minuciosa etnografia feita pelo engenheiro Euclides da Cunha. A divisão da obra em suas três partes: A Terra, O Homem, a Luta, dá um caráter absolutamente descritivo às duas primeiras partes: uma traçando passo a passo como seria a árida terra do sertão com suas plantas minguadas, suas veias da seca na terra e a outra descrevendo os homens, os sertanejos vistos por si só como “fortes”, sempre reduplicando, na pele a aridez da terra, desidratados. Quando chegamos na parte d’a Luta – em que se descrevem os ataques dos militares nacionalistas por sobre Canudos e Antonio Conselheiro a narrativa flui com mais facilidade, mas também perde a potência do começo.

Trata-se de um dos melhores livros da literatura brasileira, mas também um desafio: A Terra e O Homem são pura poesia, se realizam na literatura com potência, mas testam nossa capacidade contemporânea de concentração. A Luta, narra uma guerra e como toda guerra, qualquer uma, sangra. Os Sertões é um desafio vencido por poucos.

Por Luiz Ribeiro

5- Lolita, de Vladimir Nabokov

É comum, atualmente, muita gente apontar o livro “Lolita” como seu preferido, ou um dos – ainda mais depois de sua publicação numa coleção de livros feita por um jornal (esbarramos com uma edição de dez em dez minutos em qualquer feirinha ou sebo que visitemos), da música homônima de Lana del Rey e do filme clássico dirigido por Kubrick. A problemática em relação à esta obra, porém, é que boa parte desse tanto de gente que faz essa afirmação nunca leu o livro, quando muito assistiu à adaptação cinematográfica, e pouco sabe do que ele trata, pois não se tornou capaz de compreender os desvãos profundos dos pensamentos apaixonados de Humbert Humbert em relação à sua jovem Lo-li-ta. Mesmo assim, sem conhecer de fato a história, há quem se permita, numa roda de amigos, falar sobre o livro com intimidade, mas sem reconhecer o amor e o ciúme como peças fundamentais da história, e tratando a relação apresentada como doentia e criminosa (isso quando a conhece, porque há quem fantasie ainda mais). Nabokov escreveu, de maneira lúcida, realista e direta, um clássico primoroso sobre o amor e a juventude, cujo tema provocou, e ainda provoca, muita polêmica; daí sua importância, além de seu estilo que fez escola. Todavia, devemos reconhecer que este não é um livro fácil, e podemos deduzir que reside aí a dificuldade que muitas pessoas têm em falar a verdade, dizendo que nunca o leram. Mas o status cult que a obra vem ganhando nos últimos anos está tornando-a difusa e fazendo com que ela perca cada vez mais sua profundidade nas mãos de quem é levado por simples modismos.

Leia a resenha completa: http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/07/02/lolita-de-vladimir-nabokov/

Por João Meireles 

6- Dom Casmurro, de Machado de Assis

Dos clássicos em língua portuguesa, Machado de Assis é, sem dúvida, figura cativa nas mais variadas listas que são feitas e na biblioteca básica de qualquer bom leitor/estudioso que se prese. E além de ser considerado o maior escritor da literatura brasileira, é também figura controversa: amado e idolatrado por uns, odiado e tratado como “mais um” por outros. Todavia, há quem diga que adora as obras instigantes desse carioca sem nem saber que Bentinho é o Dom Casmurro, narrador e personagem título de um dos seus romances mais famosos e importantes. Escrita na primeira pessoa, a história gira em torno da suspeita do adultério de Capitu, mas nunca revela o que de fato aconteceu, porque quem conta o episódio é o próprio marido que se acredita traído, e sabe apenas parte dos fatos – nos quais acredita, embotado pelo ciúme e pela raiva. E com essa história aparentemente banal, Machado reinventou a forma de se escrever no Brasil, e criou um livro que muitos já foram obrigados a ler na escola, mas poucos o fizeram. Mas há que se ser justo: a linguagem usada já foi há muito ultrapassada, os cenários já não são os mesmos, a inocência da novela acabou; contudo, não podemos negar que a obra é muito bem costurada, e se abre para todos que se dedicam à desbravá-la. Portanto, não são necessárias mentiras, dizer que leu sem ter lido, mas sim se permitir abrir o livro e conhecer um pouco mais do passado – afinal, Machado se interessava pelo popular, e suas histórias são verdadeiras crônicas do final do século XIX.

Leia a resenha completa: http://indiqueumlivro.literatortura.com/2014/09/10/dom-casmurro-de-machado-de-assis/

Por João Meireles

7- As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis

Quando se fala em literatura fantástica, nomes como Tolkien, Rowling, Julio Verne e C. S. Lewis aparecem naturalmente. São clássicos, e nem todo mundo já leu a obra prima desses autores, mas provavelmente já ouviu falar e até mesmo tem algumas em casa enfeitando a prateleira. Um desses livros pode vir a ser As Crônicas de Nárnia, o que é algo engraçado, pois o livro possui uma linguagem fácil, narrativa dinâmica e personagens claros. Com essa internet maravilhosa possibilitando uma aquisição mais econômica, o livro com “a capa bonita da cara do leão” aparece em muitas estantes e mesas sem nunca terem sido sequer abertos; mas “já leu?”, “já, é muito bom.” Talvez exatamente pelos boatos de que a leitura é fácil, os quase-leitores de Nárnia acham que não vale a pena perder seu tempo com um livro tão grande e bobo; “mas é um clássico, então devo ler, mesmo que eu não leia de verdade”. Mais um fator para 90% das pessoas que possuem o livro nunca terem passado do sumário, se deve pelo fato de que não há uma história propriamente contínua narrada – são pequenas histórias com personagens reincidentes. O que me chama a atenção e surpreende positivamente, é que vez ou outra uma pessoa realmente lê essas histórias, e vem me dizer o quão são boas, maravilhosas e perfeitas; “mas não já tinha lido?”, “é que eu li de novo.”

Leia as resenhas: http://indiqueumlivro.literatortura.com/?s=n%C3%A1rnia

Por Italo Machado

8- Problemas de gênero, de Judith Butler


Qualquer um familiarizado com o feminismo e com a Teoria Queer provavelmente já ouviu falar no nome de Judith Butler. A professora de Teoria Literária é famosa por suas contribuições aos debates de gênero, porém seu pensamento é bastante complexo e pode causar bastante perturbação, pois fundamenta-se em uma crítica à forma como o feminismo vem encarando as questões de gênero. Sendo uma pensadora influenciada por Foucault, Deleuze e Derrida, Butler falar do gênero como construto discursivo e, desta forma, aponta que o feminismo deveria focar-se não em uma “crítica ao patriarcado” – que, segundo a autora, mantém os binarismos de gênero que estão na base das desigualdades entre “homens” e “mulheres” – mas sim nas estruturas discursivas de poder que constroem os gêneros e que se beneficiam através da manutenção do sistema binário e heternormativo. Acontece, porém, que as leituras que se fazem de Butler são, na maioria das vezes, equivocadas – o que se dá, em grande parte, pelo fato de poucos e poucas terem, realmente, lido suas obras até o final. E, no caso de as terem lido, é muito comum retirar suas proposições de contexto e usá-las como lhes convêm. Poderia-se dizer que Butler é algo como a Clarice Lispector do feminismo: mal lida, mal interpretada e abusivamente citada nas redes sociais.

Por Luisa Bertrami D’Angelo 

9- Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau

Não é incomum encontrar textos, falas e referências em filmes que exaltam o conceito de bom selvagem de Rousseau, mas, muitas vezes, nem foi feita a leitura do ensaio O discurso da desigualdade entre os homens. Publicado em 1755, o ensaio de Rousseau não pretende retomar o ideário de um bom selvagem. Na verdade, quando ele analisa a genealogia da desigualdade, é pelo bom selvagem que se enfatiza como a sociedade apresentou as suas etapas até a forma do homem corrompido. Foi o momento em que o homem passou a delimitar sua propriedade é que iniciou-se o afastamento deste ideário – que é impossível de apontar o exato instante em que houve, na história. Desta maneira, como forma de exposição de sua origem, o trabalho do filósofo foi demonstrar que, mesmo os exemplos que reconhecemos como sociedades “primitivas” já se encontram nos primeiros momentos de formação de um grupo social, com suas próprias organizações, não sendo, assim, exemplos do bom selvagem. Ou seja, filmes que buscam retratá-lo entre tribos já caem no erro, pois ele estaria numa “etapa” anterior e intangível.

Por Marina Franconeti 

10- Vigiar e Punir, de Michel Foucault

Certamente são muitos os livros teóricos e acadêmicos que poderiam fazer parte desta lista. Um dos principais, creio eu, seria o clássico Vigiar e Punir, em que Foucault traça a história das prisões e da construção do que ele chama de “lógica punitiva” como método não só jurídico, mas de toda a vida social na modernidade. O autor relata as alterações na forma de compreender o crime, o criminoso e, claro, a pena – desde os suplícios até o Panoptico (modelo arquitetônico no qual há altas torres de vigilância voltadas para um pátio central). O livro, que é referência para as ciências sociais, a psicologia e o direito, é denso e, de modo bastante foucaultiano, permeia diversas discussões concomitantes, o que exige bastante do leitor. Por ser um clássico, é utilizado na maioria das leituras sociais focadas na questão do poder. Mais difícil do que o livro em si, porém, é achar quem o tenha lido até o final.

Por Luisa Bertrami D’Angelo