10 grandes beijos da literatura mundial – pela nossa equipe

081208capitu

Dia 13/04 foi comemorado o dia do beijo. E que forma melhor de comemorar o dia do que beijando escolhendo os melhores trechos literários que descrevem ou que tem o beijo como encontro entre duas almas? A lista é longa, mas aqui escolhemos apenas 10. As citações não serão comentadas, pois, as descrições valem por si mesmas. Se você não encontrou aquela que mais gosta, compartilhe conosco nos comentários. A lista que segue contou com a colaboração de Isaura Souza e Jamile Merces (colegas de estudo); Luiz Fernando, Guilherme Carmona e Cecilia Garcia (colaboradores do Literatortura); e outros.

;)

1 – O Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de frangância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água.

2 – Senhora, José de Alencar

- Um instante! disse Aurélia.

- Chamou-me?

- O passado está extinto. Estes onze meses, não fomos nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar, e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já não é meu marido. Somos dois estranhos. Não é verdade?

Seixas confirmou com a cabeça.

- Pois bem, agora ajoelho-me eu a teus pés, Fernando, e suplico-te que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te.

A moça travara das mãos de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés a cruel afronta.

- Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando seu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.

Seixas ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.

- Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.

A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu ao toucador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.

- O que é isto, Aurélia?

- Meu testamento.

Ela despedaçou o lacre e deu a ler a Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.

- Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse naquela noite, disse Aurélia com um gesto sublime.

Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.

- Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for bastante, eu a dissiparei.

* * *

As cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.

3 – Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só
ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia porque nome chamar; eu exclamei me doendo: – “Meu amor!...”.

4 – Dom Casmurro, Machado de Assis

Capitu virou de costas para mim, voltando-se para o espelho. Peguei seus cabelos e comecei alisá-los com o pente, mas não estava dando certo. Era um pouquinho mais alta que eu, e isso atrapalhava. Pedi que sentasse.
-Sente-se, é mais fácil.
-Vamos ver o grande cabeleireiro - riu novamente.
Sentou-se. Continuei a alisar seus cabelos, com todo o cuidado, e o dividi para compor as duas tranças. Fiz isso bem devagar, saboreando cada um dos fios, que eram parte dela. Cometi besteiras, algumas vezes sem querer, outras querendo, para que o trabalho ficassse ainda mais lento. Meus dedos roçavam em sua nuca, ou em seus ombros. No entanto, por mais que eu quisesse que aquilo durasse para sempre, os cabelos foram acabando. Enfim, terminei. Ainda juntei as duas tranças com um laço, como se fazia na época, dei uns ajustes, apertando aqui, puxando ali, até que exclamei:
-Pronto!
-Ficou bom?
-Veja no espelho.
Mas ela não olhou. Continuava de costas para mim e curvou a cabeça para trás. Inclinou-se tanto que fui obrigado a segurá-la, antes que caísse de costas. Pedi que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Mas ela não se moveu.
-Levante a cabeça, Capitu!
Não me obedeceu, e ficamos assim, olhando um para o outro, por alguns momentos. Até que ela abriu os lábios, e eu também abri os meus...
Foi uma sensação incrível, fiquei tonto, sem fala e, porque não dizer, meio assustado. Meus olhos ficaram nublados, e, quando quando consegui ver de novo, percebi que Capitu estava de cabeça baixa. Não fui capaz de falar nada. Queria dizer-lhe essas palavras de carinho e afeto típicas dos namorados, mas não pude.

5 – Romeu e Julieta, Shakespeare

Ato 1 – Cena V
Romeu [A Julieta] Se minha mão profana o relicário/ em remissão aceito a penitencia; / meu lábio, peregrino solitário, / demonstrará, com sobra, reverencia.
Julieta: Ofendeis vossa mão, bom peregrino, / que se mostrou devota e reverente./ Nas mãos dos santos pega o paladino./ Esse é o beijo mais santo e conveniente.
Romeu: Os santos e os devotos não têm boca?
Julieta: Sim, peregrino, só para orações.
Romeu: Deixai, então, ó santa! Que esta boca/ mostre o caminho certo aos corações.
Julieta: Sem se mexer, o santo exalta o voto.
Romeu: Então fica quietinha: eis o devoto./ Em tua boca me limpo dos pecados. [Beija-a]

 

6 – Harry Potter e o enigma do príncipe, J. K. Rowling

Harry olhou para os lados; lá estava Gina correndo ao seu encontro; tinha uma expressão dura e intensa no rosto ao atirar os braços ao seu pescoço. E, sem pensar, sem planejar, sem se preocupar com o fato de que cinquenta pessoas estavam olhando, Harry a beijou. Decorridos longos minutos, ou talvez tenha sido meia hora, ou possivelmente vários dias ensolarados, eles se separaram.

7 – O ano da morte de Ricardo Reis, Jose Saramago

Ricardo Reis pega-lhe a mão direita, não para a cumprimentar, apenas quer guiá-la neste labirinto doméstico, para o quarto nunca, por impróprio, para a sala de jantar seria ridículo [...] seja então para o escritório, ela num sofá, eu noutro, entraram já, estão enfim todas as luzes acesas, [...] então Ricardo Reis diz, Vou beijá-la, ela não respondeu, [...] Ricardo Reis avançou um passo, ela não se mexeu, outro passo, quase lhe toca, então Marcenda solta o cotovelo, deixa cair a mão direita, sente-a morta como a outra está, a vida que há em si divide-se entre o coração violento e os joelhos trêmulos, vê o rosto do homem aproximar-se devagar, sente um soluço a formar-se-lhe na garganta, na sua, na dele, os lábios tocam-se, é isto um beijo, pensa.

8 – Primo Basílio, Eça de Queiroz

 

Estavam de pé, no meio da sala.

— Não te vás! Basílio!

Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.

— E para que queres tu estar só comigo? — disse ela. — Que tem que venha gente? — E arrependeu-se logo daquelas palavras.

Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os ombros, prendeulhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente.

Ela soltou-se a tremer, escarlate.

— Perdoa-me — exclamou ele logo, com um ímpeto apaixonado.

— Perdoa-me. Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luísa! Tomou-lhe as mãos com domínio, quase com direito.

— Não. Hás de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por ti, como dantes, a mesma coisa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica, feliz. Não te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é! Foi por isso que te escrevi aquela carta, mas o que eu sofri, as lágrimas que chorei!

Luísa escutava-o imóvel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquela voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Basílio penetravam com o seu calor febril a substância das suas; e, tomada de uma lassidão, sentia-se como adormecer.

— Fala, responde! — disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.

— Que queres que te diga? — murmurou ela.

A sua voz tinha um tom abstrato, mal-acordado.

E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:

— Falemos noutras coisas!

Ele balbuciava com os braços estendidos:

— Luísa! Luísa!

— Não, Basílio, não!

E na sua voz havia o arrastado de uma lamentação, com a moleza de uma carícia.

Ele então não hesitou, prendeu-a nos braços.

Luísa ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados — e Basílio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para trás, beijou-lhe as pálpebras devagar, a face, os lábios depois muito profundamente; os beiços dela entreabriram-se; os seus joelhos dobraram-se.

[...]

9 – O sol também se levanta, Ernest Hemingway

 

‑ Para que são aqueles relógios todos? ‑ perguntou ela.

‑ Dão as horas da América inteira.

‑ Vá intrujar outro.

Virámos para a Rue des Pyramides, atravessámos o movimento da Rue de Rivoli e, por um portão sombrio, entrámos nas Tulherias. Ela anichou‑se contra mim e eu passei‑lhe um braço. Levantou o rosto para ser beijada. Tocou‑me com uma das mãos e eu desviei‑lha.

‑ Deixa lá.

‑ Mas o quê? Está doente?

‑ Estou.

‑ Toda a gente está doente. Também eu estou doente.

[...]

O táxi subiu a calçada, atravessou a praça iluminada, penetrou no escuro, sempre a trepar, depois avançou por uma rua escura por detrás de Saint‑Étienne‑du‑Mont, desceu suavemente pelo asfalto, passou pelo arvoredo e o autocarro parado na Place de la Contrescarpe, e virou para a calçada da Rue Mouffetard. De cada lado da rua havia bares iluminados e lojas ainda abertas. íamos sentados longe um do outro, e os balanços ao descer a velha rua faziam com que nos roçássemos. O chapéu de Brett caíra. Levava a cabeça encostada para trás. Vi‑lhe o rosto à luz das lojas abertas, depois voltou a escuridão, e só voltei a ver‑lhe claramente o rosto quando entrámos na Avenue des Gobelins. A rua estava em obras e homens trabalhavam nas linhas dos carros, ao clarão de lanternas de acetileno. O rosto de Brett era branco e o longo contorno do seu colo distinguia‑se à luz forte dos focos. A rua ficou de novo escura e beijei‑a. Os nossos lábios ajustaram‑se com firmeza, até que ela os desviou e se apertou contra o canto do assento, tão longe quanto podia. E a cabeça pendia‑lhe.

 

 

10 – Jane Eyre, Charlotte Bronte

– Devemos voltar – disse Mr. Rochester. – O tempo está mudando. Eu poderia ficar sentado assim, comvocê, até de manhã, Jane.

“E eu com o senhor” pensei. Teria dito isso em voz alta, talvez, se um relâmpago lívido e nítido não tivesse brilhado na nuvem para a qual eu olhava. Houve um estrondo tremendo e um trovão retumbou perto de nós. Pensei apenas emesconder meus olhos amedrontados no ombro de Mr. Rochester.

A chuva desabou. Ele me conduziu apressadamente pela alameda e através dos jardins, até chegarmos a casa. Quando finalmente cruzamos o limiar da porta estávamos encharcados. Mr. Rochester me ajudava a tirar a capa no vestíbulo, sacudindo a água dos meus cabelos, quando Mrs. Fairfax surgiu, vinda da saleta. Eu não a vi a princípio, nemele. A lâmpada estava acesa. O relógio ia bater meia-noite.

– Corra e tire essas roupas molhadas – ele disse. – Mas antes que se vá, boa-noite... Boa-noite, minha querida!

Beijou-me repetidamente. Quando olhei para cima, ao sair dos seus braços, vi a viúva – pálida, grave e assombrada. Apenas sorri para ela e corri para a escada.

“As explicações ficarão para outra hora” pensei.