O dia em que me despedi de meus livros

Book alone

Por Danilo Venticinque

Acumular livros é diferente de amá-los. Inconscientemente todos sabemos disso, embora seja difícil evitar a confusão sentimental quando olhamos para uma bela estante, com livros cuidadosamente escolhidos e organizados ao longo de muitos anos. Imagino que você sinta orgulho da sua estante. A minha era invejável, não vou mentir. Bonita e com conteúdo, do tipo que fazia sucesso tanto com os decoradores de plantão no Instagram quanto em conversas com amigos metidos a literatos.

Como você deve ter reparado, estou falando de minha estante no passado. Acabo de me desfazer dela.

A despedida começou há três meses, quando me mudei de país para fazer um mestrado. Minhas malas eram grandes, mas qualquer amante da leitura sabe que nenhum espaço é espaço o bastante. Passei semanas enrolando para escolher os livros que levaria comigo. Acabei decidindo por impulso, poucas horas antes de embarcar. Levei apenas dez, no que considerei um gesto supremo de desapego. Ainda assim, sentia um certo conforto por saber que os outros estariam esperando por mim quando eu voltasse. Enquanto aquela estante existisse, eu poderia me considerar um leitor – mesmo tendo apenas dez livros enfiados numa mochila.

Por motivos que só caberiam num livro, voltei na semana passada ao meu apartamento para encaixotar minha vida e preparar minha mudança. O plano inicial era desmontar minha estante e armazenar meus livros num depósito. Um destino inglório, para dizer o mínimo. Lá, eles aguardariam minha volta para recuperar a dignidade roubada.

Assim que me reencontrei com minha estante, vi que meu plano não fazia o menor sentido. Meus livros seriam muito mais úteis se encontrassem outros leitores na minha ausência. Tê-los prendido na estante há tanto tempo em vez de passá-los adiante já era uma decisão questionável. Enfiá-los num depósito longe de olhos humanos por um ano beirava o irracional.

Olhar para a estante com algum distanciamento também me fez perceber o quanto meus interesses tinham mudado desde que comecei a acumular livros. Obras que eu havia lido com atenção não faziam mais o menor sentido. Outras, que comprei por impulso e esperavam a hora de ser lidas, não me despertavam mais nenhum interesse. Vi livros que eu nem me lembrava que tinha. Não pude deixar de me sentir um estranho num lugar que eu considerava familiar. Se aquela coleção não fazia mais sentido para mim, não havia motivo para continuá-la.

Metade dos meus livros acabou nas mãos de amigos que gostam de ler. Pedi que viessem para minha casa com sacolas vazias. Saíram de lá entusiasmados, com elas cheias de livros que eu não leria no ano que vem – talvez nunca.

Dos livros que sobraram, separei alguns para levar comigo na viagem e guardei um ou outro que quero mostrar aos meus filhos, caso um dia os tenha. Doarei todos os outros em breve. Uma estante que construí por mais de dez anos evaporou em dias.

Não deixei de gostar de ler. Muito pelo contrário. Em três meses longe de minha estante, li mais do que em um ano ao lado dela.

Redescobri alguns prazeres da leitura. É libertador poder comprar um livro sem sentir culpa pela falta de espaço ou por ter muitos livros não lidos em casa. Em vez de me prender a escolhas que fiz no passado, posso pensar no que faz mais sentido agora.

Também me livrei do olhar inquisidor de livros que comprei para ler mais tarde, mas nunca tive tempo ou coragem de começar. Ainda pretendo ler Ulisses, claro, mas não terei de lidar com o desprazer de encarar todos os dias, na minha própria casa, essa falha na minha formação literária. Quando achar que for a hora, certamente encontrarei outra cópia, na estante de alguém que também não o leu.

A vida de um leitor sem estante é divertida e cheia de descobertas. Voltei a frequentar bibliotecas e deparo todos os dias com títulos cuja existência eu desconhecia. Também comecei a trocar livros com amigos, que sempre têm boas indicações. Passei a conversar mais sobre literatura. Por mais paradoxal que pareça, sinto que tenho mais livros agora do que quando minha estante estava cheia deles.

Descobri que a leitura pode preencher a vida sem ocupar espaço. Ter milhares de livros não torna alguém um leitor apaixonado. Só é possível amar um livro de cada vez.

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Danilo Venticinque é jornalista cultural especializado em livros. Está no Reino Unido desde setembro cursando um mestrado em Tecnologias Digitais, Comunicação e Educação na Universidade de Manchester com a bolsa de estudos Chevening

SOBRE O AUTOR

idealizador e administrador do site, do canal e da página Literatortura; seu primeiro livro: "ovelha - memórias de um pastor gay" será publicado em agosto de 2015, pela Geração Editorial.