O erotismo e a sensualidade presentes em A Missa do Galo, de Machado

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Durante a preparação desta matéria literária, já era de entendimento do autor que o título em voga seria adjetivado, no mínimo, como instigante. Afinal, que história é essa de discorrer sobre traços eróticos presentes na obra dum dos mais respeitados representantes da literatura nacional?

Frente a esse (possível) choque inicial, faz-se importante separar uns poucos parágrafos para diferenciar dois termos que, por circundarem a temática do sexo, não raramente são confundidos pelo senso comum: erotismo e pornografia.

A) Diferindo erotismo de pornografia

A linha que separa um do outro é extremamente tênue, o que dificulta dizer precisamente se um material é erótico ou pornográfico. É possível, entretanto, apresentar os caminhos pelos quais os termos seguem.
Segundo o psicólogo Cláudio Picazo (1999), a abordagem pornográfica é marcada pela construção imediata de excitação sexual. Para isso, um fator de destaque é a exibição dos órgãos genitais. Aqui, o sexo explícito ocorre sem uma razão clara de ser, ou por uma razão bem rasa. Por conseguinte, a afetividade fica em segundo plano.
O erotismo, por sua vez, tem como intuito destrinchar os aspectos da sexualidade. Diferentemente da objetividade pornográfica, o material erótico pode tanto ascender a chama da excitação sexual de modo gradual, como também pode conter-se em representar um conjunto de atos, posturas e afetos sexuais. Mesmo que apresente sexo explícito, o erotismo encontra sua maior força na sensualidade, não na sexualidade.

B) Missa do Galo e o Erotismo

Missa do Galo é uma obra-prima da contística brasileira e foi genuinamente publicada no livro machadiano Páginas Recolhidas, em 1889.

Caso haja interesse em ler o conto antes de continuar, é possível acessá-lo no link a seguir, retirado do Domínio Público. É curtinho; vai lá:

Clique aqui! 
(O conto em questão começa na página 27)

Em Missa do Galo, Nogueira, um homem já com certa idade, relembra uma conversa que teve em sua juventude, aos 17, com uma senhora de 30 anos.
Logo de início, Machado imerge o leitor em pura ambiguidade quanto aos fatos relembrados pelo narrador; uma vez que inicia seu conto com a seguinte afirmativa:

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos […]”

Com tal informação, o leitor sabe que não se pode ter 100% de certeza quanto a sequência de fatos narrados ao longo do conto; isto é, sempre haverá uma sombra de dúvida quanto aos fatos relembrados.
De caráter introspectivo, Nogueira vivia com seus “livros, poucas relações, alguns passeios”. Tal trecho reforça o caráter eufemístico das coisas que o narrador pode dizer quanto à sua lembrança.
Logo no início do conto, são apresentados os integrantes da família com a qual vive Nogueira. É nesse momento que o leitor descobre que o escrivão Meneses, patriarca da família em questão, ia ao teatro sozinho toda semana, só voltando no outro dia. Confira o trecho:

“Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. […]ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte.”

Machado logo explica, no próprio conto, que tal expressão era um “eufemismo em ação”, deixando claro que o homem “trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana”.

Conceição, por sua vez, é apresentada como dama de “temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lástimas. Nem grandes risos”. É ressaltado que, com tal passividade, a mulher “não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar”. E, por tais características, Conceição aceitava a traição do marido sem mais alarmardes.

Numa certa noite em que Meneses vai ao “teatro”, Nogueira combina de ir, junto a um vizinho, à Missa do Galo – missa de tradição católica celebrada na Véspera do Natal (que inicia à meia-noite do dia 24 de Dezembro). Como decidira por não dormir, Nogueira diz-lhe que o acordaria em tempo. Até o momento de partir para o evento, o protagonista aprecia a leitura de Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas) na sala de estar.

Quando eram 23h, o protagonista ouve passos no corredor e declara ver o vulto de Conceição. A partir desta primeira referência à Conceição em tal noite, Machado de Assis intensifica a ambiguidade presente em cada verbete, o que abre precedente para a leitura erotizada da situação.

De acordo com as lembranças de Nogueira (o narrador), Conceição “entrou na sala, arrastando as chinelinhas de alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica”.
Após observar as vestes íntimas mal atadas de Conceição, Nogueira prontamente perde o interesse pela leitura, imergindo na vivência do mundo real, sozinho com Conceição bem à sua frente. O rapaz pergunta-lhe se ele a tinha acordado com algum possível barulho, mas ela logo rebate que havia “acordado por acordar”. E então vem a ponderação de Nogueira:

“Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.”
OBS: Cômico como – diferentemente da época em que o conto foi escrito – o adjetivo “boa”, quando relacionado à figura feminina contemporânea, tem uma conotação a mais.

Por tais pensamentos, fica claro que Nogueira foge por ato de vontade a uma análise mais sistemática da situação. Mesmo sabendo da inverdade na afirmação de Conceição, o jovem faz vista grossa.
Mais adiante, Conceição faz algo considerado sexy até nos dias de hoje: sem tirar os olhos de Nogueira, a dama umedece seus lábios. A sensualidade de seus atos continua:

“(Conceição) tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite”.

A instigação de cunho erótico segue seu caminho quando a mulher apoia os cotovelos no mármore da mesa, porque “não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderia supor.”

OBS II: Lembrando aqui que o mostrar dos braços, à época em voga, era coisa de gente “sem juízo”…

O narrador ainda relata que Conceição chamava-lhe a atenção quando ele começava a levantar um pouco a voz: “- Mais baixo! Mamãe pode acordar”, o que demonstra que os dois já tinham algum tipo de intimidade.

Tão vidrado estava Nogueira na conversa com a mulher de Meneses que “ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”.
De modo sublime, Conceição chega a tocar na questão da libertinagem hedônica presente na sociedade da época. Isso ocorre no momento em que critica quadros pendurados na sala; bastante “vulgares”. Assim diz a moça:

“Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro. […] imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas”.

No final das contas, o companheiro de Nogueira é que o chama. Isso porque o narrador ouvia “o que ela (Conceição) contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à sua alma e fazia esquecer a missa e a igreja”.

Em Missa Do Galo, vê-se que a personagem feminina é apresentada como enigmática para o homem, sendo inviável decifrar-lhe as oscilações da alma. Por meio de ambiguidades, metáforas, metonímias e eufemismos, a criação textual de Machado implica interpretações polissêmicas. Para o conjunto dessas características dá-se o nome de escrita erótica em hipo (diferente da escrita erótica em hiper, marcada pela figura da hipérbole, por um vocabulário que apresenta os aspectos eróticos de forma evidente, clara, sem rodeios.)
Como diz o literato Antônio Cândido: por meio de alusões, eufemismos e subentendidos, Machado de Assis sugeria “as coisas mais tremendas da maneira mais cândida”.
É assim que, de modo indireto, Machado chama o leitor para fazer parte daquela noite – para cobrir os espaços em branco deixados pela ingenuidade de Nogueira.

Ouve-se mais tarde que Meneses havia morrido e Conceição, se casado com o escrevente juramentado do marido, que, com certeza, pescou com mais destreza o que Conceição pôde ter deixado nas entrelinhas. É aí que mora o impasse da trama entre Nogueira e Conceição. Seu respeito excessivo para com a figura feminina o impediu de responder às insinuações da dama.

REDIGIDO POR CAIO PASSAMANI

Revisado por Carlos Cavalcanti

SOBRE O AUTOR

Fascinado por Linguística e Literatura. Seu maior deleite é, sem sombra de dúvidas, ler um livro enquanto suas papilas gustativas confraternizam com a sacrossanta cafeína. Certa vez, disse-me que escreve para viver, e que vive para escrever. Perguntei o porquê disso. Respondeu: o dito é efêmero, mas o escrito permanece. Estuda Jornalismo na FAESA. Aqui estão suas válvulas de escape: www.literaturvo.blogspot.com.br e www.innerowl.tumblr.com