O romantismo da música brasileira através das décadas

romantismo

Sou um admirador profundo da música brasileira. Apesar da maioria das pessoas não a respeitar e preferirem músicas estrangeiras, acredito que a nossa possui uma riqueza ímpar. Porém, a música nacional atual está perdendo todo seu brilho. As letras estão cada vez mais fracas e a melodia mais pobre. Tudo em nome do dinheiro. Atualmente, ao se compor uma música, visa-se o lucro que ela irá obter.

Tal objetivo atual não surgiu de um dia para o outro. Ele foi se transformando ao decorrer das décadas. Caso analisadas separadamente, é possível observar uma transformação relativamente lenta e gradativa, culminando no que temos nos dias atuais: uma letra sem sentido e melodia fraca. Claro que ele sempre esteve presente, porém com intensidades distintas. Isso é perceptível caso se analise um tema em especial durante as décadas. Para isso, escolhi o romantismo nas letras das músicas. Irei analisar, da maneira sucinta, como o amor é tratado na música brasileira a partir da década de 60 até chegar aos dias atuais.

Década de 60

Nesse período surgiu no cenário musical Roberto Carlos e a música Como é grande o meu amor por você. É claro que havia interesse econômico por trás. Mas esse não era o objetivo principal. Além disso, ele não influiu em quase nada na obra. No máximo uma melodia um pouco mais pegajosa. Porém, a letra está intocada e a mensagem é passada.

Na canção de Roberto, é perceptível a forma sublime que o amor é colocado, em um patamar elevado de outros sentimentos. O amor é algo incomparável.

Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você

Década de 70

A década de 70 é, provavelmente, a mais frutífera da música brasileira. Belíssimas canções foram compostas e talentosos cantores surgiram no cenário musical brasileiro. Entre eles, Tim Maia. Dono de belíssimas canções de amor, Não Quero Dinheiro foi uma de suas músicas dançantes de maior sucesso.

O caso desta canção é que, apesar da belíssima letra, a força e a importância do amor parecem já estarem com menos força. Além disso, a mensagem em si deixa de ser o único atrativo da música, como na de Roberto Carlos. Em Não Quero Dinheiro, o ritmo e a melodia são essenciais para a efetivação do sucesso.

Vou pedir pra você voltar
Vou pedir pra você ficar
Eu te amo
Eu te quero bem

Vou pedir pra você gostar
Vou pedir prá você me amar

Década de 80

Pode-se dizer que foi na década de 80 que a música começou a sua maior comercialização. Grandes bandas surgiram e a internacionalização atingiu níveis maiores. Além disso, músicas românticas e com o amor como tema central praticamente sumiram.

A Blitz, com Evandro Mesquita, é um bom exemplo das bandas que surgiram na década de 80 com fortes traços de músicas norte-americanas e um claro objetivo econômico por trás. Você não soube me amar é um bom exemplo para ser analisado aqui.

O amor é algo bem superficial, apesar de ainda representar alguma coisa para o eu lírico. A melodia é boa. É o início do que vemos hoje.

No começo tudo era lindo
Tá tudo divino
Era maravilhoso
Até debaixo d’água
Nosso amor era mais gostoso
Mas de repente
A gente enlouqueceu
Ah! eu dizia, que era ela
Ela dizia, que era eu…

Década de 90

É o surgimento do sertanejo como conhecemos. Apesar de músicas românticas ressurgirem, é algo muito ruim. Assim como no início do século, por volta das décadas de 10 e 20, o amor possui uma visão unilateral. O homem é o centro das letras e é o que mais sofre, sem dar espaço ao outro lado. Letras sem sentido, como Na Boquinha da Garrafa e os sucessos do grupo É o Tchan, surgem.

A dupla ‘Leandro e Leonardo’ estoura em todo o Brasil com Pense em mim. O amor é plano de fundo. A melodia é pegajosa, a letra é fraca e o objetivo comercial é claro.

Pensa em mim

Chore por mim
Liga pra mim
Não, não liga pra ele

 

 

Década de 2000

É a partir dos anos 2000 que a música brasileira perde totalmente o rumo. Apesar de ter uma ou outra música bonita, que retrate bem o amor, como ‘Tribalistas’, a maioria das canções de sucesso não possui letra. A atenção é quase completamente voltada à melodia dançante e ao possível sucesso que a música venha a ter.

Neste período, vários modelos cabem. ‘Bonde do Tigrão’, Latino e outros MCs são exemplo claro disso. Aqui, um trecho de ‘Festa no Apê’. O romantismo sumiu. O amor já não é mais tema das músicas de sucesso.

Hoje é festa lá no meu apê
Pode aparecer
Vai rolar bundalelê
Hoje é festa lá no meu apê
Tem birita
Até amanhecer

Dias atuais

Enfim, chegamos aos dias atuais. Está tudo um caos. Como disse certa vez em meu blog, acredito que vivenciamos uma espécie de dadaísmo. É dito, na maioria das músicas de maior sucesso atualmente, frases e palavras sem sentido algum. Só não é um dadaísmo completo por não passar mensagem alguma, ao contrário do movimento modernista.

O amor, tema central da análise, foi completamente banalizado. A mulher é tratada como um objeto. Não tem importância. É utilizada e depois jogada fora. Isso na maior parte das músicas de grande sucesso. Naldo, Gusttavo Lima e o sertanejo universitário em geral.

Gata, me liga, mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular que hoje vai rolar.

Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tchereretchê
Tchê, tchê, tchê,

Gusttavo Lima e você

Eu poderia aqui ficar massacrando a música brasileira atual. Falar que está sem sentido, com objetivos puramente econômicos e que não passa mensagem alguma. Porém, prefiro deixar isso para a reflexão de todos que estão lendo e pensando sobre como a música brasileira está sendo tratada.

E, para terminar, quero deixar uma ressalva. Não se deve generalizar nunca. Em todas as décadas aqui citadas há exceções gigantescas. Na década de 60, assim como tínhamos belas canções, algumas outras, tão sem sentido quanto as de hoje, figuravam no cenário musical brasileiro. E hoje temos vários grandes cantores e compositores com uma qualidade excelente e que fazem relativo sucesso. Foi feita uma análise das músicas que fazem muito sucesso e são ouvidas pela grande massa.

 

 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da totalidade da equipe do literatortura.

 

Revisado por Carlos Cavalcanti

SOBRE O AUTOR

19 anos. Estudante de jornalismo que, nas horas vagas, é crítico literário, cinematográfico e musical. De vez em quando, tem ataques literários e se arrisca a escrever uma crônica ou um conto. Além disso, um devorador voraz de livros e obcecado por música brasileira de qualidade.