Ensaio revela fotos proibidas de Hitler: com quantos passos se constrói um ditador

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Quantos passos são necessários para criar-se um ditador? De artista frustrado a ditador alemão, conheça a construção do Führer. Como diz sabiamente Harvey Dent em “Batman: O Cavaleiro das trevas”: “O coringa é um cachorro louco, eu quero quem tirou a coleira!”. Bom, Hitler se encaixa nessa situação pois, convenhamos, soltaram a coleira dele. Ele não chegou ao poder sozinho, ele batalhou muito por isso e foi ajudado e fomentado por muito mais gente e situações do que se imagina.

Em 1925, após ser libertado da prisão de Landsberg, na Baviera (Sul da Alemanha), Adolf Hitler pede a seu amigo e confidente Heinrich Hoffmann que o fotografe em seu ensaio meticuloso frente ao espelho. As fotos revelam a forma teatral desenvolvida por Hitler para conquistar as massas, que incluía discursos inflamados, transbordados de ódio, e muita gesticulação com os braços.

O futuro ditador, na época com 36 anos, não gostou do que viu, tanto que pediu a seu amigo fotógrafo que destruísse os negativos, mas tal ordem não foi cumprida e após o fim da Segunda Guerra, as fotografias chegaram a ser publicadas em um dos muitos livro de memórias de Hoffmann sobre Hitler, mas que, devido à pouca circulação, acabaram se dispersando nas várias coleções. Esse ensaio fotográfico não retrata apenas um mero estudo teatral de tomada de poder, ele revela planos ambiciosos e mostra os bastidores da construção da imagem de um louco em potencial e de um futuro ditador. Somente agora essas fotos foram reunidas e divulgadas novamente:

 

Ensaio de Hitler dez ano antes tomar o poder pelas lentes de seu amigo Hoffmann

Nascido em Fürth, próximo a Nuremberg, em 1885, Heinrich, assim como Hitler, era um artista frustrado, que tinha sido proibido de cursar artes plásticas pelo pai. Em 1913, o fotógrafo abre seu próprio ateliê de fotografia em Munique tendo como assistente Eva Braun, a qual viria a se tornar a esposa de Hitler. Em 1923, conhece Adolf de forma nada amigável: ao descobrir que o homem tentara beijar sua filha, Hoffmann vai atrás dele para cobrar satisfações, mas o problema parece ter sido resolvido, já que a amizade entre os dois durou até 1945, ano da morte do ditador. Ele não era apenas um fotógrafo, ele encenava tudo o que se propunha a  fotografar e foi um dos responsáveis pela criação da imagem de Hitler como um fenômeno capaz de levantar uma nação inteira, além de ter sido o responsável pelos documentários de Leni Riefenstahl sobre os congressos do partido nazista alemão.

Hitler já no poder com homens de sua confiança

Ainda em 1923, ano em que conheceu Hoffmann, Hitler ensaia seu primeiro putsch (golpe), em Munique, mas acabou preso novamente até 1924. O tempo que passou na prisão só serviu para impulsionar seus planos e, quando foi libertado, o livro “Minha luta” já estava com seu manuscrito pronto, tendo sido publicado em 1925. O historiador Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim, e autor de “Paranoia e política”, lembra que: “O livro era o seu programa, mas o culto à personalidade de Hitler era ainda mais importante para os seus adeptos”.

Heinrich – junto com o cineasta Leni Riefenstahl e outros – formou a imagem carismática do Führer,o qual naquela época ainda tinha um carregado sotaque austríaco e não possuía passaporte alemão. Após ter sido artista desempregado, ter pintado cartões postais e os vendido para turistas,  pedido esmola na rua para sobreviver e ter sido recusado duas vezes pela Academia de Artes de Viena, o futuro ditador integrou o exército da Baviera na Primeira Guerra Mundial como voluntário. Richard Westwood-Brookes, da Mullocks Leilões, que leiloou em 2010 alguns dos quadros de Hitler, deu ao jornal Telegraph sua opinião sobre Adolf como pintor: ” Ele simplesmente não era bom o suficiente. Principalmente quando desenhava pessoas, a perspectiva era incorreta… Os investigadores acreditam que, por ter sido rejeitado, pode ter transformado a frustração em profundo ressentimento e ter se tornado o monstro que se tornou”. O plano de virar um artista bem sucedido foi por água abaixo e suas obras de retratos não eram dignas de galeria, muitas vezes pecando na perspectiva e pondo o realismo, objeto de sua obsessão, de lado. Confira algumas de suas obras:

 

 

 

 

 

Retrato de Eva Braun, musa e namorada de Hitler

 

A sensibilidade ao pintar um cachorro e a falta de técnica

A partir do momento em que entrou para o exército, sua vida política deslanchou, tendo ele criado em um curto prazo o movimento nazista e, em menos de 20 anos conseguiu chegar ao poder, dando início ao maior movimento de extrema direita na Alemanha, o Nazismo. Sua ascensão política só foi possível porque a Alemanha, durante a República de Weimar, estava caótica, com seis milhões de desempregados, além de confrontos violentos entre extrema direita e extrema esquerda nas ruas e sem a menor ordem política e social. É nesse caos que surgem os loucos e oportunistas, e qualquer um que defenda a moral e faça falsas promessas tem vez, logo Hitler era a esperança de salvação para uma Alemanha esfomeada e sem um Norte. Funke afirma ainda: “As encenações da sua imagem feitas pelo fotógrafo Heinrich Hoffmann e, depois, pela cineasta Leni Riefenstahl, ajudaram no fortalecimento do entusiasmo dos alemães pelo falso messias”.

A criação da imagem do Führer contou com um verdadeiro time de artistas, financiadores, políticos, empresários – entre eles Thyssen (da firma Thyssen), Edwin Bechstein (proprietário da fábrica de pianos Bechstein), Siegfried, Winifred Wagner (filho do compositor Richard Wagner), sua esposa e o americano Henry Ford, tendo este doado por concordar com seus ideais antissemitas, além do escritor Dietrich Eckart, que escrevia os discursos políticos do ditador e alimentava o ódio racial contra os judeus. O dinheiro investido era usado para impulsionar ideologias, para financiar o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e para criar um herói (ou um monstro). Dentre todos estes, poucos eram os que de fato tinham uma amizade com Hitler, como era o caso de Hoffmann e Eckart, nos quais ele confiava cegamente. Segundo Funke, Eckart foi o “descobridor” de Hitler por ter percebido seu dom  teatral de agitador e por ser um inconformado e ambicioso, sendo ele considerado a cara ideal para  a ideologia. A partir desse momento, com tantos inimigos, junta-se mais um, o bolchevismo.

Um dos desfiles militares do partido Nazista e a saudação dos alemães

No dia 10 de abril de 1924, Adolf escreveu “A nossa luta precisa e vai terminar na vitória” e, em 30 de janeiro de 1933, ele chega ao poder. Seu amigo Heinrich ficou rico após sua posse, tornando-se responsável pela comissão que confiscava e reutilizava as obras de artes dos judeus.

Com o fim da Segunda Guerra, com milhões de mortos em nome de uma supremacia ariana e com a morte de Hitler, Hoffmann e Riefenstahl afirmaram não saber nada sobre os crimes e atrocidades cometidos no período de guerra, mas o fotógrafo foi condenado a pouco menos de cinco anos de prisão e em 1950 já exercia novamente sua profissão, apesar da conclusão do juiz Josef Purzer em 1947: “As suas obras são brilhantes e ajudaram na psicose que surgiu no povo alemão através da glorificação de Hitler por meio das fotos, que apresentavam tudo o que era grande e bonito. A realidade era inteiramente diferente. E o seu trabalho teve um papel essencial na ação de enganar o povo.”

O ex- fotógrafo pessoal e amigo particular do Führer  morreu uma década depois, aos 72 anos de idade, mas deixou fotografias e relatos que mostram os bastidores da criação de um ditador.

Na verdade, não julgo atitudes. Em um momento de desespero, o povo alemão viu uma esperança em Hitler, que se dizia cheio das boas intenções. O foco aqui é como moldam uma pessoa e como uma pessoa se deixa moldar na falsa afirmação de atender a uma necessidade real, uma Alemanha arrasada, além de usarem disso para manipular populações inteiras e para matar milhões em nome de uma causa. Que fique bem claro que não defendo Hitler como um “pobrezinho” que recebeu inúmeros “nãos” ao longo de sua vida. Ele era sim uma pessoa maldosa e ambiciosa e, como muitos fazem, se aproveitou de uma situação para chegar ao poder. Mas sejamos francos, ninguém vira ditador do dia para noite sozinho. Inúmeros acordos e pessoas são necessárias para se criar uma ideologia e um sistema político no nível do Nazismo.

Fonte.

 

SOBRE O AUTOR

Clariana Touza é uma entusiasta de qualquer tipo de expressão artística. Estudante de Artes Cênicas, encontrou sua essência criativa na montagem de cenários e figurinos. Pessimista, metódica, perfeccionista e chata assumida, tenta ler o maior número de livros e revistas que seu sono permite. Leitora voraz de Stephen King, fã do gênero terror/suspense nas telonas e louca por um drama.