ENEM REDAÇÃO | Estudantes escrevem Hino do Palmeiras, Receita de Miojo, “Rasoavel”, “enchergar”, “trousse” e tiram boa nota:

Por Gustavo Magnani,

Quando eu comecei a escrever esta matéria, o Hino do Palmeiras não estava incluso. Assim como, imagino eu, até eu postá-la, outras coisas aparecerão. Sei lá… a oração do Santo Anjo, um tutorial de como estourar espinha ou até uma lista de vídeos com gatinhos engraçadinhos. Divirei esse post em 3 “etapas”, duas que tratam do mesmo assunto [deboche] e outra que se foca nos erros da gramática normativa. Caso você já tenha lido as notícias, pode apenas relembrá-las, ou pulá-las. Para manter um padrão, selecionei tudo o que aqui está do jornal O Globo. 

 

RECEITA DE MIOJO

Nos dois primeiros parágrafos, o vestibulando chega a comentar a questão da imigração. Mas, no parágrafo seguinte, o candidato descreve o modo de preparo do macarrão instantâneo:

“Para não ficar muito cansativo, vou agora ensinar a fazer um belo miojo, ferva trezentos ml’s de água em uma panela, quando estiver fervendo, coloque o miojo, espere cozinhar por três minutos, retire o miojo do fogão, misture bem e sirva”.

Como se nada tivesse acontecido, o candidato retoma o tema da imigração no parágrafo seguinte e conclui que “uma boa solução para o problema o governo brasileiro já está fazendo, que é acolher os imigrantes e dar a eles uma boa oportunidade de melhorarem suas vidas”. Das 24 linhas da redação, quatro foram reservadas apenas para descrever o modo de preparo da massa.

Embora haja critérios para se tirar nota 0 na redação no Guia do Participante, como a fuga total do tema e impropérios ou atos propositais de anulação, o vestibulando em questão tirou 560 em 1000.

O candidato recebeu 120/200 (60%) na competência 2 da correção, em que são avaliadas a compreensão da proposta da redação e a aplicação de conhecimentos para o desenvolvimento do tema. Pela nota, o Ministério da Educação (MEC) entende que o estudante abordou o tema de forma “adequada”, embora “previsível” e com “argumentos superficiais”. Na competência 3, na qual é avaliada a coerência dos argumentos, o candidato recebeu 100/200 (50%).

Em nota, o MEC afirmou que “a presença de uma receita no texto do participante foi detectada pelos corretores e considerada inoportuna e inadequada, provocando forte penalização especialmente nas competências 3 e 4”. O órgão entende que o aluno não fugiu do tema nem teve a intenção de anular a redação, pois não feriu os direitos humanos e não usou palavras ofensivas. […] Para o coordenador de Língua Portuguesa e Redação do Colégio pH, Filipe Couto, os critérios de correção não são claros.

– O edital do Enem diz uma coisa e a banca faz outra. Para ele tirar 120 na competência 2, é como se não tivesse se desviado do tema e o abordasse adequadamente, mas não foi o que aconteceu – afirmou Couto. [retirado de oglobo]

 

HINO DO PALMEIRAS

[…] Apesar de dedicar dois dos quatro parágrafos à canção, o estudante tirou 500 pontos num total de 1000. O aluno até aborda o tema “Movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI”, mas nos parágrafos de desenvolvimento se dedica à paixão por seu clube.

O autor do texto é o paulista Fernando Maioto, que já havia sido aprovado em Medicina na Faculdade Faceres, em São José do Rio Preto. Ele conta que sua intenção foi a de testar a banca de correção do Enem.

— Sempre escutei histórias de pessoas que fizeram a redação e colocaram receitas de bolo. Como eu sabia que este ano a redação poderia ser visualizada, resolvi escrever o hino do meu time. Mas o grande intuito mesmo era mostrar que os corretores não leem completamente a redação — diz Fernando, que acredita que merecia zero na redação.

No segundo parágrafo, após a frase introdutória “As capitais, praia e as maiores cidades são os alvos mais frequentes dos imigrantes”, ele começa a escrever parte do hino: “porque quando surge o alviverde imponente […]”. Depois do trecho do hino, ele retoma o tema da imigração, ainda no mesmo parágrafo, com a frase “Por este o principal motivo de invasão de imigrantes”.

No parágrafo seguinte, o estudante acrescenta a conjunção adversativa “entretanto”, antes de voltar ao hino com o trecho “defesa que ninguém passa […]”. Como o hino chega ao fim, ele fecha o parágrafo com “Fazendo com que muitos imigrantes se tornem escravados (sic) do século XXI”.

Em nota, o (Inep) esclarece que os avaliadores identificaram a impertinência do texto inserido, o que trouxe para a redação palavras e expressões sem sentido e em estilo inadequado ao tipo textual exigido na prova. Segundo o Inep, a redação obteve nota 500, tendo nota baixa especialmente nas competências I e II. De acordo com a nota “desconsiderada a inserção inadequada, o texto tratou do tema sugerido e apresentou ideias e argumentos compatíveis. O texto indica compreensão da proposta da redação, não fugiu ao tema por completo e não feriu os direitos humanos”.

[…]

Ex-corretor da banca, o professor Wander Lourenço afirma que exemplos como esse texto devem ser desconsiderados pelo avaliador.

— Esses casos mostram uma grande crise de ética. Eles têm o propósito de enganar a banca — argumenta. [retirado de  O Globo]

Quanto ao deboche:
Como disse o estudante paulista, não é raro ouvir alguém dizer que já tenha escrito receita de bolo e tudo o mais. Com as redações sendo divulgadas neste ano, muitas coisas ficaram às claras. Principalmente uma: a incompetência avaliativa do INEP. O Enem só não é um fracasso oficial, porque muitas coisas aqui no Brasil – e em tantos outros lugares do mundo -, a gente vai “levando” até, ou dar certo, ou continuar fingindo que um dia dará certo. A prova do Enem já está muito mais pra segunda opção. 
É raro ver universidades propensas a destinar todas suas vagas ao Exame Nacional – e isso já diz muito. A credibilidade do Enem é muito baixa para isso. Quanto aos defensores das notas dadas aos torcedores e aos cozinheiros, me parece uma piadinha de mau gosto, um deboche do deboche. O grande problema é que quem fica sem achar graça nenhuma é o estudante dependente do Enem.
Fiz a prova em duas ocasiões. Na escola, sempre me “destaquei” por uma redação coesa e bem escrita. No Enem, tirei, nas duas ocasiões, uma das piores notas da classe. Triste, levei os textos aos professores e as notas concedidas por eles sempre foram bem maiores do que as recebidas pelos corretores. Quero deixar muito claro, isso não é algo para “me aparecer”, tenho certeza que se você já não viveu essa situação, conhece alguém – aliás, todo o sistema da redação é muito questionável. Enfim… 
Em 2011, no último ano que fiz a redação do Enem – ainda bem – tirei uma nota risível, MENOR do que a de quem escreveu Hino do Palmeiras e Receita de Miojo. Foram 420 pontos. Minha média despencou. Não me trouxe problemas, pois eu já estava encaminhando na federal do paraná. Mas, e se não estivesse? Um estudante que escreveu o Hino do Palmeiras para testar os corretores teria sido mais bem avaliado do que eu. 
E olha, é excelente que o estudante paulista tenha feito isso. O que mais me deixa triste é saber que o INEP está se justificando. Ou seja, ao invés de assumirem o erro e irem atrás de soluções, tentam explicar o inexplicável. Se vamos aceitar, no Exame Nacional, coisas semelhantes, ficará muito difícil para os futuros estudantes.

“ERROS DE PORTUGUÊS”

 

“Rasoavel”, “enchergar”, “trousse”. Esses são alguns dos erros de grafia encontrados em redações que receberam nota 1.000 no Exame Nacional de Ensino Médio 2012 (Enem). […] Além desses absurdos na língua portuguesa, várias redações continham graves problemas de concordância verbal, acentuação e pontuação.

Apesar de seguirem a proposta do tema “A imigração para o Brasil no século XXI”, os textos não respeitavam a primeira das cinco competências avaliadas pelos corretores: “demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita”. Cada competência tem a pontuação máxima de 200 pontos.

Segundo o “Guia do participante: a redação no Enem 2012”, produzido pelo MEC, os 200 pontos na competência 1 são atingidos apenas se “o participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. (…) Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta”.

O manual aponta, entre os desvios mais graves, erros de grafia, acentuação e pontuação. Na mesma redação em que figura a grafia “rasoavel”, palavras como “indivíduos”, “saúde”, “geográfica” e “necessário” aparecem sem acento. E ao menos dois períodos terminam sem o ponto final.

Em outro texto recebido pelo GLOBO, aparecem problemas de concordância verbal, como nos trechos “Essas providências, no entanto, não deve (sic) ser expulsão” e “os movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI é (sic)”. O mesmo candidato, equivocadamente, conjuga no plural o verbo haver no sentido de existir em duas ocasiões: “É fundamental que hajam (sic) debates” e “de modo que não hajam (sic) diferenças”.

Uma terceira redação nota 1.000 apresenta a grafia “enchergar”, além de problema de concordância nominal no trecho “o movimento migratório para o Brasil advém de necessidades básicas de alguns cidadãos, e, portanto, deve ser compreendida (sic)”. Em outro texto, além da palavra “trousse”, há ausência de acento circunflexo em “recebê-los” e uso impróprio da forma “porque” na pergunta “Porém, porque (sic) essa população escolheu o Brasil?”.

Pós-doutor em Linguística Aplicada e professor da UFRJ e da Uerj, Jerônimo Rodrigues de Moraes Neto diz que essas redações não deveriam receber a pontuação máxima.

[…]Logo que o MEC liberou a consulta ao espelho da redação, em fevereiro, o site do GLOBO publicou uma reportagem pedindo que estudantes enviassem redações com nota 1.000, junto com seus comprovantes. O objetivo era expor os bons exemplos no site. Porém, ao ler as redações, a equipe percebeu erros gritantes em várias dissertações. Foram enviadas ao MEC, então, quatro delas. Para não expor os alunos, os textos foram digitados, e as informações pessoais (nome, CPF e número de inscrição), omitidas. O GLOBO perguntou se os desvios não desrespeitavam os critérios estabelecidos pelo manual do MEC, e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep) alegou que não comenta redações: “por respeito aos participantes, a vista pedagógica é dada especificamente a quem prestou o exame”.

Segundo o Inep, “uma redação nota 1.000 deve ser sempre um excelente texto, mesmo que apresente alguns desvios em cada competência avaliada. A tolerância deve-se à consideração, e isto é relevante do ponto de vista pedagógico, de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”.

Sobre os critérios usados na correção da redação do Enem 2012, estabelecidos pela coordenação pedagógica do exame, a cargo de professores doutores em Linguística da Universidade de Brasília (UnB), o Inep informa que a análise do texto é feita como um todo. Segundo a nota, “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. [retirado de O Globo]

Quanto aos “erros de português”

Logo de cara, precisamos fazer uma separação interessante. Sou o tipo de estudante da língua que luta contra o preconceito linguístico e tenta fazer com que as pessoas entendam o quão infeliz é julgar uma ideia pela forma de falar do indivíduo. Inclusive, ontem cometi um erro adicionando crase onde não deveria. Uma leitora, gentilmente, me alertou do problema e corrigi. Mas, questiono: deveria a matéria ser descreditada por isso? Para mim, jamais. Porém, alguns estudantes pensam da devida maneira. Enfim… estamos falando de uma prova. E a diferença é óbvia.

Discutir quais devem ser os critérios da prova é uma coisa. Outra, é esses critérios estarem estabelecidos e os corretores descumprirem. Acredito, pessoalmente, que nesses casos é necessário haver o bom senso [o problema é que o bom senso é subjetivo, e aí, complica…] entre “erro comum” e “erro grosseiro”. Mas, reitero: os parâmetros de avaliação dizem que a redação devem cumprir as exigências do padrão da norma culta portuguesa. Isso é oficial. Isso está no MANUAL. Como, portanto, ir contra? 

É errado? Então, abra-se a discussão e seja mudado [ou não] os cristérios. Mas, por hora, eles existem e deveriam ser cumpridos. Não adentrarei em toda a questão do “erro” ou desvio da norma, para isso já escrevi algumas matérias, a qual vale, por citação, uma resenha do livro do professor Sírio Possenti: Por que (Não) Ensinar Gramática Na Escola?

Em suma, se há algo que quebre os critérios de avaliação, o avaliado deveria ser, justamente, punido. Se os critérios são ruins ou errados, aí é outra discussão. E vocês, o que pensam? Não esqueçam de comentar! 

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Gustavo Magnani, estudante de Letras da UFPR, proprietário do literatortura. Está revisando o primeiro livro, mas sente dificuldades hercúleas para escrever uma bio. [e, como pode-se notar, adora metalinguagem]

 

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SOBRE O AUTOR

idealizador e administrador do site, do canal e da página Literatortura; seu primeiro livro: "ovelha - memórias de um pastor gay" será publicado em agosto de 2015, pela Geração Editorial.