Canto do Conto | Caio Fernando Abreu – “Aqueles Dois”

Por João Victor,
“Quando eu estava aqui, vce não ligou. Agora que fui embora, vcê chora a saudadi. Pra aprendê: um peixe pode viver muitus anos num akuário. Mas, se o dono tratar ele mal, ele não vai pensar duas veses antes de nadar pru oceano.”
Esse é o tipo de coisa atribuída a Caio Fernando Abreu na internet. Triste? Muito. Uma vez, vi uma leitora dizer que achava-o muito brega e cheio de sentimentalismo, e que, por isso, não o lia. Eu tive certeza que ela nunca abrira um livro do escritor. Caio Fernando Abreu está muito longe de ser brega e cheio de sentimentalismo. O que colocam na internet em nome dele é. Mas ele não é isso. Como o Gustavo fez com Clarice Lispector outra vez, venho hoje numa tentativa de mostrar o quanto Caio é um puta escritor, e que merda gigantesca fizeram com ele na internet.
Caio Fernando Abreu nasceu em 1948, e morreu em 1996. Foi jornalista, dramaturgo e escritor. Seus livros são marcados por amor, sexo, morte e solidão. Destaque para “Morangos mofados”, livro de contos do qual tiro a história de hoje, e também para “Os Dragões não conhecem o Paraíso”. Caio abandonou o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para ser jornalista e escritor. Declarava-se abertamente como homossexual, e isso durante a ditadura militar. Foi perseguido e exilou-se na Europa por um ano, voltando ao Brasil em 1994, no mesmo ano em que descobriu ter aids. Faleceu em 25 de fevereiro de 1996.
O conto que escolhi chama-se “Aqueles dois”. Não falarei muito sobre ele. A história fala por si própria. Segue, abaixo, link do conto na íntegra, e, logo, depois, meus breves comentários.
Caio Fernando de Abreu – Aqueles Dois

É bonito. Essa história é daquele tipo que não dá vontade de dizer nada além de: puta merda, que bonito. A delicadeza com que Caio descreve o sentimento crescente entre “aqueles dois”, a beleza do acaso que os reúne, a firma, o café, o atraso no trabalho, o cinema, tudo é de um lirismo invejável. Nada é exacerbado. Não há exagero de reações, é tudo bem comum mesmo, um sentimento que nasce em meio ao café durante o expediente. Os filmes. Mesmo o sexo é tratado de forma delicada. Não há sexo. Há apenas previsão de sexo, e mesmo assim, o lirismo permanece.
E a repressão. Há maledicência e preconceito, mas há também os dois permanecendo fiéis um ao outro. E indo embora juntos. E a repartição sendo infeliz. Tudo isso, no conjunto, torna “aqueles dois” um conto magnífico. A narrativa flui, Caio emenda o pensamento do personagem dentro do que o narrador diz com uma naturalidade que não vacila, o que contribui ainda mais para a leveza e vivacidade do texto. Reparem: não há aspas para o pensamento dos personagens, que é jogado dentro do que diz o narrador, assim como em:
Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti.
Isso é destreza narrativa. Já li histórias que tentam usar esse recurso, mas falham por inabilidade do autor. Mas Caio domina isso. O conto evidencia sua técnica e talento.
Como eu disse, não tenho muito a dizer. A história fala por si mesmo. Só quis destacar esse aspecto da linguagem bem trabalhada, da leveza do texto, dos recursos bem usados, do lirismo e delicadeza pouco vistos e tão originais.
Caio Fernando Abreu não foi um escritor de frases sem sentido e pretensamente fofas da internet. Ele fez obras de qualidade literária inegáveis. Basta ler. Espero que, com esse Canto do Conto, eu tenha conseguido despertar nos leitores o interesse por esse escritor maltratado pela era da internet.
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João Víctor O. Gomes é estudante de filosofia da UNB. Ocupa seu tempo livre tentanto descobrir a Pergunta Fundamental (a Resposta, nós já temos) sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais. Da filosofia e de seus livros adquiriu problemas de visão, nenhuma perspectiva de um futuro financeiro promissor e muitas dúvidas.
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Coisa linda ler isso. Orgulho de caio, felicidade por saber que existem pessoas que sabem lê-lo e apreciar sua obra literária. <3
Foi exatamente isso que eu pensei enquanto lia!
Caio F. é bem mais que um “Que seja doce”