CINEMA | O Mágico “Indomável Sonhadora” e o Surpreendente “As Sessões”

Por Maurício Vassali,
Caros leitores, hoje trago as impressões que tive dos filmes “Indomável Sonhadora” e “As sessões”. Vi os filmes há uns dias, mas atrasei em escrever por motivos acadêmicos. Aguardo opiniões.
EM EXIBIÇÃO: INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild)
Vencedor no Festival de Sundance e com o nome nas principais categorias do Oscar 2013, Indomável Sonhadora, que teve estreia na último dia 22 no país, conta a história de sobrevivência da garota Hushpuppy antes e após o alagamento do vilarejo em que vive. Sem mãe e com o pai adoecendo cada vez mais, a menina ainda enfrenta criaturas pré históricas que surgem a partir da catástrofe. Obviamente, o longa lida não somente com uma realidade americana pouco vista, mas também com o fantástico.
O roteiro consegue misturar os universos com eficiência e o espectador é testemunha, na maior parte do tempo, da forma como vive uma pequena comunidade da Louisiana, em condições precárias devido à represa que a separa do resto do mundo. Até por isso, a sensação que se tem é de estar frente a um filme pós apocalíptico, o que contribui na exploração da faceta onírica do projeto. E o fato de Hushpuppy estar inserida num contexto de isolamento é favorável ao desenvolvimento de folclores intrínsecos daquela comunidade e, se levado em conta ainda o fator de a protagonista ser uma criança, essa nuance mágica da obra ganha mais fluidez.
O roteiro de Behn Zeitlin e Lucy Alibar também merece méritos por não permitir que o longa se entregue ao sentimentalismo exagerado. As ações e diálogos evocam no público sentimentos genuínos que dispensam o drama artificial. E que bom que a dupla percebe isso, criando um texto bastante sóbrio neste sentido. Entretanto, a inicialmente interessante narração de Hushpuppy, claramente inspirada no panteísmo, acaba se excedendo a partir de determinado ponto do filme. Particularmente, a sensação é de que os roteiristas não estavam certos quanto a clareza da mensagem em off, insistindo no discurso de que toda parcela do universo tem fundamental importância no todo. O problema não é a ideia em si, que é linda, mas sim o aborrecimento causado pelo seu excesso de afirmação durante a projeção. Um detalhe, contudo, dentro de uma obra tão graciosa.

O coletivo Court 13, liderado por Behn Zeitlin, comanda a direção predominantemente contemplativa do projeto, investindo na câmera subjetiva que insere o espectador no lirismo do filme. Assim, desde as cenas em que Hushpuppy tenta escutar os animais colocando-os bem próximos ao ouvido, até o momento icônico em que a comunidade faz uma celebração com fogos de artifício, as escolhas visuais de Indomável Sonhadora expressam um caráter que vai da poesia à fábula com primor. E, num efeito não apenas complementar à bela direção, a trilha sonora também funciona perfeitamente de maneira a colocar o público em estado de admiração diante da jornada da protagonista.
Falando nisso, Quvenzhané Wallis [escrevi certo?] encarna a pequena Hushpuppy com muita categoria. A menina tinha pouco mais de seis anos quando o longa foi rodado e, realmente, é de ficar encantado com tanto talento. Ela demonstra força e sensibilidade em um papel que exige bastante, não apenas pela complexidade da personagem, mas também pela narrativa não convencional. Wallis acabou sendo a atriz mais jovem a ter sido indicado ao Oscar por este papel e, aqui, compartilho a ideia de alguns críticos ao considerar a escolha um tanto inoportuna. Primeiro pela própria forma diferenciada como os atores mirins trabalham e, segundo, pela precocidade da indicação que pode levar a criança a certas frustrações. De qualquer maneira, a indicação é um reconhecimento do belo trabalho de Quvenzhané.
O legal de Indomável Sonhadora é que ele transita bem entre realidade e fantasia e ainda consegue ser multifacetado na sua abordagem, que vai da crítica ambiental às leves mensagens moralistas. Ainda que a narração em off seja, às vezes, incômoda, o roteiro mantém os pés no chão no desenrolar sofrido, porém jamais piegas, da trama. A condução perfeitamente calculada junto das belas atuações faz de Indomável Sonhadora uma obra muito honesta para ser ignorada.
EM EXIBIÇÃO: AS SESSÕES (The Sessions)

Não são comuns as películas que abordam a temática do sexo com propriedade. Pensando rapidamente, me vem em mente obras como Tudo o que Você Sempre Quis Saber sobre Sexo mas Tinha Medo de Perguntar e Kinsey como bons exemplos. Tratar o sexo como um ato natural e, sem muitos pudores, evitar de cair na armadilha da chanchada é um dos grandes méritos do novo filme de Ben Lewin. Entretanto, As Sessões, que teve estreia no último dia 15 no país, vai muito além desta abordagem e o resultado é um drama adulto com muito bom humor e doçura.
O filme conta a história de Mark O’Brien, um poeta de quase quarenta anos que decide perder a virgindade depois de muito tempo. Vítima de poliomielite, Mark tem não apenas na doença um obstáculo para sua realização sexual, mas também (ou principalmente) nas suas crenças religiosas que o fazem considerar o casamento algo imprescindível. Isso até Mark tomar coragem e, com influência de um trabalho acadêmico e apoio do padre local, conhecer a terapeuta sexual Cheryl, uma bela senhora que surge para mudar a sua vida. O longa, que é inspirado em uma história verdadeira, baseia-se num ensaio escrito pelo próprio O’Brien sobre sua experiência.
Num equilíbrio de tons de fazer inveja, o roteiro e a direção de Ben Lewin atingem um nível tal que nada, em As Sessões, parece fora do lugar. Com temas principais delicados como o sexo e a deficiência física, o longa consegue ainda trabalhar questões como religião e casamento de maneira exemplar. E ao mesmo tempo em que o filme arranca incontáveis (e sinceros) risos do público, ele também comove e algumas lágrimas são inevitáveis.

No papel principal está John Hawkes, tão maravilhoso que até agora eu não entendi como foi ignorado pela Academia neste ano. Hawkes não é o tipo galã nem o ator de papeis muito intensos, mas tem uma carreira recheada de bons personagens. Aqui ele confere a Mark muita expressividade e inocência, e o espectador é convencido da grande pessoa que o ator encarna. Como a terapeuta Cheryl está Helen Hunt, indicada ao Oscar pelo papel. A atriz está ótima e balança bem as nuances de sua espirituosa personagem, demonstrando muita simpatia e afeto de maneira bastante comovente.
Enfim, As Sessões é o tipo de filme leve e até quadradinho na sua narrativa, mas que acaba soando original pela escolha de temas e sua abordagem eficiente. Seus personagens muito bem construídos e atuações talentosas o elevam a um patamar de qualidade surpreendente, ainda mais se considerado seu tratamento adocicado. Não lembro de ter me comovido tanto no cinema com, bem, sexo.
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Maurício Vassali, mestrando em Ciências Ambientais pela UFRRJ, nasceu em uma cidade com 5 mil habitantes, viciado no termo gauchesco “bah” e tem uma dissertação pra escrever, mas não sai do cinema.
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