As Condições de Trabalho na Idade Média e a Economia do Mercado Medieval;

Por Gabriel Rossi,

Bem, hoje falarei um pouco sobre as condições de trabalho na idade Média. Escolhi algumas, porque me parecem bastante interessantes e também diversificadas. Além disso, é uma informação pouco veiculada para o público e, como traz a Idade Média, assunto favorito de muitos, acho que vale a pena. Vamos lá:

 

A condição dos Trabalhadores e uma economia de mercado medieval.

No Século XIII, em Paris, existiam menos de 32 estabelecimentos de banhos públicos mistos, é estipulado que eles têm autorização de pedir dois preços de entrada: 2 dinheiros para um banho de vapor e 4 dinheiros para um banho quente de tina. O inventário de roupas da época fazia propaganda para uma peça de tecido que protegia o corpo de farpas das tinas.

Os proprietários desses estabelecimentos tinham o direito de aumentar seus preços conforme o preço dos combustíveis para os banhos quentes aumentasse também. Conforme lei, esses estabelecimentos de banhos públicos não podiam se transformar em verdadeiros bordeis. Por esse motivo os proprietários tiveram que começar a discernir entre banhos para homens ou para mulheres.

Em conseqüência das crescentes desordens, esses locais passaram por certas dificuldades financeiras, decaindo de preços conforme os anos para se atrair clientes, até fecharem suas portas. É o fim da Higiene na Sociedade Medieval. A partir disso, podemos estabelecer duas ligações: A vida do trabalhador e a distribuição de renda perante o trabalho.

Não se pode falar em revolução industrial sem que se pense nos artesãos, que no caso são os maiores responsáveis pela mesma. Com a preocupação de aumento de produção a Idade Média mudou diversas formas de formas de trabalho e relação com trabalhadores levando em conta principalmente relações de força. As vantagens Concedidas aos Mineradores, por exemplo, era uma constante degradação ambiental que, contanto que gerasse lucros, era tida como direito daquele trabalhador tal “conseqüência ambiental”, quase como se os fins justificassem os meios [sem nada de maquiavélico, aqui a frase se aplica corretamente].

 

                                                                                                       Direitos e Privilégios dos Mineiros

 Os mineiros tinham o privilégio de pesquisar e escavar o solo que quisessem, com exceção de cemitérios, terras da igreja, pomares, estradas etc. Isso desde que fosse provado que tal feito seria indispensável para um bom funcionamento e aproveitamento da mina. Esses mineiros eram acusados pela população de passar dos seus limites, de invadir propriedades, desviarem curso de rios para terrenos já cultivados, destruindo plantações.

Essa população queixosa raramente ganhava na sua causa. Pelo fato de que os suseranos da Europa tiveram a ideia de uma administração mineradora independente das autoridades locais, visando garantir o máximo de rendas. Eles possuíam seus próprios tribunais de justiça que eram dirigidas por um Bergmeister e também pelos próprios mineiros, onde se tinha assento 12 ou 14 mineiros, isso fazia com que as autoridades locais se incluíssem nos problemas desses profissionais, impedindo e afastando um risco em uma parada na produção e, consequentemente, uma queda no rendimento e na renda.

Os mineiros estavam livres de certos impostos, pedágios e do serviço militar. Tudo que um mineiro descobria pertencia-lhe vitaliciamente: era negociável e até passado para seus herdeiros. Na Alemanha, as minas que prosperavam, tinham os status de “Cidades Mineradoras”. Além de privilégios particulares, os habitantes das comunidades mineiras foram liberados da tutela das corporações, podendo assim tirar proveito de usar as instalações da cidade para fazer o que se entendesse.

 

 Direito e Privilégios das Minas de estanho

 

Na idade Média, o estanho ligado ao cobre, fornecia o bronze em que se fundia os símbolos da igreja. Mais tarde forneceriam canhões e, ainda mais tarde, em combinação com o chumbo, se tornariam cerâmica – que era material de grande exportação inglesa.

As Minas de estanho tiveram maior influencia alemã. Por exemplo, as da cidade de Cornualha e Devon eram conhecidas desde a idade do bronze. Sua exploração é bastante antiga, inclusive, os mineiros que ali atuavam eram reconhecidos pela grande competência.

Em 1198, o Rei Ricardo, vendo os autos lucros das minas de estanho, as Stanneries, decidiu reorganiza-las. Favoreceu e concedeu privilégios aos mineiros com o intuito de, assim obter deles um melhor rendimento, aceitando conselhos de especialistas escolhidos pelos próprios trabalhadores. Seguindo esse mesmo raciocínio, o Rei João Sem Terra em 1201, reconsiderou o antigo direito dos mineiros de escavar pra procurar estanho onde quer que fosse. Só os representantes das Stanneries teriam, a partir de agora, o direito de julgar e administrar a justiça dentro da mina e entre os mineradores.

Essas condições extremamente favoráveis conduziram a um aumento na produção, consequentemente na renda do estado e um aumento de imposto. Além dos ganhos consideráveis para os ducados [por exemplo, em 1214, rendeu até 799 libras. Antes, a renda não ultrapassava 500 libras. Em 1306, o imposto atingiu1726 Libras. A administração real tinha o aproveitamento do direito de todo estanho produzido pelos ducados de Cornualha e Devon].

Todo esse privilegio concedido aos mineiros, fizeram crescer o olho dos trabalhadores rurais, que deixaram o campo para uma migração para as minas. Gerando descontentamento entre os senhores desses trabalhadores. Todavia,  tal descontentamento foi em vão, pois os mineiros continuaram com seus privilégios – até abusando dos mesmos.

 

Os operários Têxteis

 Os privilégios dos mineiros da Idade Média entram em grande contraste com a situação de trabalho dos operários das fabricas têxteis. Os mineiros eram homens livres, enquanto os operários eram como uma classe proletário-escrava do sistema capitalista.

Até a segunda metade do século XIII, a indústria têxtil da Europa Ocidental estava centralizada nas cidades flamengas de densa população. Essa indústria dependia dos produtores de além-Mancha para comprar lã, afinal, eles eram os melhores produtores da Europa.

Conforme mudanças em condições econômicas [a indústria passou por várias crises], a lã inglesa ia ficando mais rara e mais cara, fazendo com que os compradores entrassem em colapso. Para aumentar a renda do Rei Eduardo I, o parlamento fez cumprir um imposto sobre a lã, piorando a situação dos operários.

Em1297 afome gerada pela falta de lã foi particularmente desastrosa: milhares de trabalhadores em busca de alimento invadiam e saqueavam campos. Houve revolta dos operários têxteis sobre o capitalistas donos das indústrias. Houve também, na cidade de Douai, uma primeira greve estourou em 1245. Começaram a aparecer outras: em 1274 os tecelões abandonaram a cidade de Gand e mudaram para a cidade vizinha em sinal de protesto. O maior deslocamento houve em 1280. Durante o verão, os operários têxteis pegaram em armas em Ypres; em setembro foi em Bruges eem Outubro Douai, massacres e pilhagens foram seguidos de repressões. Em 1271, Henrique III decreta que todos os operários têxteis podem voltar para sua terra em segurança com o objetivo de fabricarem pano. E ainda são isentados de cinco anos de impostos.

A Inglaterra dos séculos XII e XIII explorava com toda a força a lã, fazendo dela a cabeça da indústria mundial de têxteis. As causas dessa mudança vem do século XI e advém das taxas de exportação, que dá aos produtores ingleses um valor pago na lã muito inferior  ao que eram pagos pelos flamengos. Somou-se a isso o afluxo de funcionários especializados e as técnicas revolucionarias da época. Por exemplo, a introdução do moinho de pisoar e a roda de fiar, que aumentaram consideravelmente o rendimento da produção sem exigir aumento da mão de obra empregada. Essas técnicas fizeram com que a exportação gerasse mais lucros [devido à diminuição do número de fardos – produto feito de lã – e o aumento da quantidade de pano]. Quanto mais a quantidade de fardo diminuía, mais pano era conseguido ser exportado.

Devido intervenções dos banqueiros italianos, a indústria foi decaindo no final do século XIII. A introdução de métodos modernos e eficazes e a invenção de novas técnicas bancárias e administrativas, explicam o êxito dos florentinos. A excelente lã inglesa viu-se desviada das praças flamengas para o mercado florentino. As mudanças na indústria têxtil florentina foram imediatas.

Os banqueiros mantinham em servidão a maioria dos 30.000 trabalhadores da indústria têxtil florentina, ao quais eram recusados todos os direitos profissionais e políticos. A mão de obra foi super explorada na Europa do século XIV, já que o crescimento enorme da produção exigiu uma exploração super-intensiva da mão-de-obra, a fragmentação máxima do trabalho e a mecanização das máquinas.

A divisão do trabalho foi levada ao extremo: produzir uma peça de pano necessitava de 26 manipulações diferentes, cada uma delas executada por um operário especializado. Esse trabalho de linha de montagem, como se faz no século XX, reduz o operário a uma simples tarefa, tirando dele até a possibilidade de ver o produto completo.

Os patrões florentinos do século XIV, para manter seus operários praticamente “amarrados” ao trabalho, implantaram um sistema de pagamento de mercadorias, que se propunha a fazer com que sue operário tivesse que pagar adiantamentos e empréstimos com horas extras de trabalho. A mão-de-obra representava 60% do preço final do pano, assim, pagando aos funcionários o salário mais baixo possível, se adquiria o lucro da produção. Os funcionários não tinham direito algum, assim mantendo-se calados quanto ao abuso e salários baixíssimos. Acredite ou não, as corporações tinham suas próprias prisões, a fim de castigar funcionários queixosos.

 

Os Operários da Construção Civil

Mais uma vez há bastante contraste nas relações de trabalho. Enquanto os operários têxteis não tinham quase direito e mantinham uma servidão devido às formas de pagamento etc, os operários da construção civil podiam se deslocar de um canteiro de obras para o outro como bem entendessem. Também podiam recusar os salários, se assim desejassem. Havia greves no setor civil, de operários que surravam outros operários que aceitavam salários menores [pois é]

Analisando a situação desses operários na Idade media, nota-se que não se mudou muita coisa desde o século XII até o Século XX. As greves por falta de pagamento e a volta ao trabalho após esse pagamento ainda mantém as mesmas concepções.

 Os patrões pagavam os operários por tarefa, isso era vantajoso, pois evitava confusões entre os operários, fazia-os trabalhar verdadeiramente e não causava gastos incontroláveis. Mas nunca funcionou para se financiar as grandes construções.

Naquele período havia muita despreocupação com o trabalho, os operários faltavam e até furtavam material. Não era só pelo cansaço que se davam essas decorrentes faltas e desordens no século XIII, havia mais dias de folgas oficiais do que nos dias de hoje.

Os operários tinham bastantes feriados durante o ano, trabalhavam até 5 dias e meio durante a semana. Entretanto, seu dia de labuta era extremamente longo, desde o nascer até o por do sol, com exceção de algumas horas para almoço e jantar. No verão chegavam a trabalhar até doze horas e meia por dia. No inverno a carga era reduzida para 8 horas e três quartos. Tal diferença de trabalho fez com que as autoridades estipulassem dois salários: o de verão e o de inverno, e em certos casos, até quatro salários: uma para cada estação.

Não havia uma regulamentação entre os canteiros de obras, com exceção de Londres, onde os operários tentaram esse regulamento desde o século XIII. Mas, num geral, os canteiros podiam pedir o salário que quisessem [de acordo com seus conhecimentos técnicos, logicamente, óbvio], cabendo ao patrão aceitar ou não a oferta.

Apesar de tudo, a mão-de-obra medieval era relativamente bem paga. O salário mais humilde era do servente de pedreiro que recebia 1,5 e 2 dinheiros, e o mais alto era do arquiteto ou mestre-pedreiro que chegava a receber até 12 dinheiros.

Vendo por outro ângulo, a condição de vida de um operário de construção civil não era tão ruim [lembrem-se que estou comparando com a qualidade de vida na Idade Média], caso ele fosse solteiro ou tivesse até um filho. Acima disso a situação seria mais precária com um salário tão limitado. Já os donos de pedreiros tinham uma vida estável, sem sombra de dúvidas.

A peste negra, que matou 30% da população européia, transformou a mão-de-obra especializada cada vez mais escassa. Até mesmo os serventes estavam mais raros no mercado de trabalho. A Lei de oferta e procura fez o com que os salários subissem tanto que uma lei decretada em 1349 e depois em 1351 fez proibir qualquer exigência maior de salário dos que eram pagos antes da Peste Negra.

O salário do operário aumentou, mas não valeu de muita coisa, decorrente da inflação que se seguiu. O salário que chegara a 6 dinheiros, passou para 10 em 1540. Mesmo com o salário subindo 40%, a condição de vida do operário se manteve, pois o preço dos alimentos chegou a subir 33%. No século XVI ocorre o inverso, e o salário fica menor que os altos preços dos alimentos. Meio paralelo com o século XX e XXI, não?

 ******

Bem, espero que tenham gostado da abordagem que tentei trazer para as condições de trabalho. Tentei sintetizar algumas coisas, mencionar mais outras etc. Deixem seus comentários e claro, não esqueçam de curtir/compartilhar. Obrigado! :)

_______________________________________________________________________________________________________

Gabriel Barbosa Rossi cursa História pela UNIOESTE; Não, não sei todas as datas, Não sei todas as capitanias e seus donatários e muito menos se realmente Hitler se suicidou.

SOBRE O AUTOR

idealizador e administrador do site, da Revista e da página Literatortura; blogueiro por escolha própria e escritor por escolha própria também - já que nunca acreditou muito no conceito de destino. No momento, revisando o primeiro livro e tentando solidificar este incrível projeto literário/cultural que é o Literatortura.

Comentários

  1. Bruno Tadeu disse:

    Parabéns pelo texto Gabriel Barbosa muito interessante mesmo. Adoro história e também adoro economia; quando se intercala os dois temas então acho fascinante. Esse tema tratado por você, em particular (e esse período histórico) me interessam muito. Com relação as informações sobre as condições de trabalho nesse período eu li algo a respeito principalmente nos livros do historiador Eric Hobsbawn (As eras…) gostaria de saber se você pode me indicar outros ons autores e bons trabalhos nessa linha. Abraço e, mais uma vez, parabéns.

  2. brand disse:

    Hi Site owner. My partner and i actually enjoy the particular writing and also your web page all in all! That article is actually extremely clearly composed and effortlessly understandable. The Blog theme is amazing as well! Would definitely be good to learn where My partner and i are able get it. Be sure to hold up the good job. All of us require much more these site owners such as you online and much less spammers. Great man!