O sentido que as coisas têm. [Sentido? Será mesmo?]

 

Por João Victor,

Desde o início do pensamento humano, podemos perceber um pressuposto básico que norteia toda a investigação humana, seja ela filosófica ou científica; mais ainda, esse pressuposto norteia a vida humana em geral: um pressuposto de racionalidade do mundo.

Trata-se do seguinte: agimos, normalmente, como se as coisas devessem fazer sentido. Como se, no mundo, houvesse alguma espécie de racionalidade que podemos acessar. É esse o princípio que motiva a investigação científica, por exemplo: pensamos que o universo e o que ele contém é inteligível, que podemos entender como ele funciona, e que esse funcionamento dá-se de forma racional – visto que tentamos entendê-lo racionalmente.

Na Filosofia ocorre a busca pela verdade, pela sabedoria. De qualquer modo, pressupõe que temos um mundo que pode ser compreendido; que, se fizermos nosso trabalho direito, poderemos entendê-lo, mesmo em questões tão profundas como aquelas tratadas pela filosofia.

No nosso cotidiano, a mesma situação se apresenta. Se um homem mata um colega de serviço com uma faca, buscaremos um motivo para isso. Tentaremos dar sentido. Pois tem que fazer sentido. Ninguém mata outra pessoa sem motivo. Mais uma vez, achamos que podemos entender racionalmente o que levou um homem a matar outro.

Chegando neste ponto do texto, espero ter esclarecido um pouco o que entendo por pressuposto de racionalidade, ou seja, a ideia de que as coisas acontecem obedecendo a certo sentido, a uma certa lógica. E, se não houver sentido na situação, algo está errado. Ou ela não aconteceu, ou nós não encontramos ainda o sentido dela. O erro existe em algum lugar, na situação ou em nós, que a observamos.

Mas, o que dizer desse pressuposto? Bom, obviamente, ele é necessário. Sem essa ideia de inteligibilidade do mundo, a investigação científica cairia por terra. Como pode um astrônomo trabalhar sem a ideia de que os corpos celestes se comportam de um modo que pode ser descoberto por ele – e, ainda, ser previsto, depois de codificado em leis da natureza?

Além disso, o pressuposto é, a meu ver, positivo e merece algum crédito. Claro que ele próprio parece não ter fundamento racional. Nem poderia ter, pois é necessário para a própria fundamentação racional de algo. Mas, depois do enorme sucesso da ciência em compreender o universo, ele parece bastante sólido e fica ainda mais, ao passar do tempo.

No entanto, já houve quem duvidasse desse tipo de princípio. David Hume é um bom exemplo disso. Em sua opinião, a noção de causa e efeito, por exemplo, era invenção nossa e não estava na natureza. De fato, segundo ele, não havia leis da natureza, e o que chamamos com esse nome são apenas descrições de como as coisas se comportam, sem corresponder a nada tão forte como uma lei, ou seja, como uma determinação de como as coisas acontecem e acontecerão.

Mas essa realmente parece ser uma posição extrema. É o velho problema da indução novamente, ao qual se aplica o problema apresentado aqui. Mas, do mesmo modo como no problema da indução, continuamos firmes no pressuposto de racionalidade, pois ele tem dado bons frutos e é, além disso, indispensável.

Por outro lado, há um aspecto negativo nesse pressuposto que sempre me incomodou: a facilidade que temos em definir o racional como aquilo que é racional para nós, em determinado momento. Muitas vezes, recusaríamos a veracidade de qualquer coisa que não se conformasse à nossa lógica, sem pensar que, talvez, seja a nossa lógica que esteja errada. Pois, afinal, mesmo que consideremos certo que há racionalidade no mundo, isso não significa que estejamos sendo racionais o tempo todo [nem que estejamos raciocinando corretamente]. Mas esse é um problema nosso, da nossa incrível capacidade de fecharmos nossas mentes para o não estabelecido. Algo no qual deveríamos nos focar, penso, para evitar consequências desagradáveis, como o atraso em alguma área importante do conhecimento.

Alguns, corretamente, podem pensar em religião, afinal, é uma das áreas mais acusadas de “mentes fechadas”. Mas também nos lembremos da política: dá pra acreditar que existem pessoas [muitas, inclusive] que colocam a mão no fogo pelo “seu” partido político? Ou marca que gosta. Já parou pra pensar o quão estranha pode ser uma discussão fervorosa sobre MARCAS de produtos? Nike x Adidas? Carmin x Colcci? Bem, poderíamos ficar aqui elencando inúmeras situações, no mínimo, estranhas, da sociedade humana. Mas acho que deu pra esclarecer meu ponto de vista.

E o que vocês acham? Um pressuposto válido e correto, ou uma invenção nossa que deveria ser desconsiderada?  O texto serve apenas como incentivo à discussão, que certamente o enriquecerá. Por isso, não deixem de curtir e comentar, registrando sua opinião. E claro, se puder, vote no literatortura para TOPBLOG2012!

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João Víctor é estudante de filosofia da UNB. Ocupa seu tempo livre tentanto descobrir a Pergunta Fundamental (a Resposta, nós já temos) sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais. Da filosofia e de seus livros adquiriu problemas de visão, nenhuma perspectiva de um futuro financeiro promissor e muitas dúvidas.

SOBRE O AUTOR

idealizador e administrador do site, do canal e da página Literatortura; seu primeiro livro: "ovelha - memórias de um pastor gay" será publicado em agosto de 2015, pela Geração Editorial.